
E chegou o dia do regresso à casa paterna. Sérgio, o irmão, resolvera regressar dois dias
antes do fim das férias, a fim de passar esses dias na quinta, para que os pais
pudessem desfrutar da presença do neto, que começava a dar os primeiros passos
e a balbuciar as primeiras palavras. Depois voltaria para Coimbra e só se
veriam meia dúzia de vezes até que chegasse o Natal e todos se reunissem de
novo.
Por sua vez, Lena também iria para Lisboa, a fim de iniciar
os seus estudos. O pai tinha-lhe conseguido um quarto, na casa de uma jovem,
filha de um grande amigo de infância, Francisco e neta do velho ferreiro da
aldeia, Alberto Santos.
O dia em que chegou a casa de Rita, foi o primeiro em que
Gonçalo não telefonou, nem respondeu à mensagem que ela lhe enviou já com a
morada de Lisboa.
E esse foi o primeiro dia, do fim daquele amor que parecia
indestrutível.
Rita Santos, era alta, morena, de cabelos e olhos escuros,
nariz pequeno e boca carnuda. Tinha vinte e seis anos e acabara de se
divorciar, mas contrariamente ao que Lena pensara, não se sentia triste, antes
pelo contrário dava graças, por se ter livrado do marido, um pinga amor, capaz
de a trair com qualquer uma. As duas, sentiram uma grande empatia, e em breve
era como se fossem amigas de longa data.
Uma tarde, Rita que trabalhava na agência imobiliária do
pai chegou a casa e encontrou Lena na sala com os olhos vermelhos e inchados,
sinal mais que evidente de ter passado a tarde a chorar.
-Lena, querida que se passa? Estás doente? Aconteceu alguma
coisa com os teus pais ou o teu irmão?
As sua perguntas despoletaram uma nova avalanche de
lágrimas. De seguida tirou as mãos do colo e mostrou o teste.
- Meu Deus, estás grávida! E o Gonçalo continua sem responder
às tuas mensagens? Tens que lhe dizer. Ele tem que assumir a responsabilidade.
- E como vou fazê-lo se o telemóvel está sempre desligado e
nem sequer viu as mensagens que lhe enviei. Meu Deus Rita, como é possível que
me tivesse enganado tanto com ele? Juro que acreditei de coração que ele
retribuía o meu amor!
- Alguns homens são mestres na arte de sedução. São capazes
de enganar a maior cínica da terra, quanto mais tu que és tão ingénua. Mas
chorar não resolve nada. Tens que decidir se vais querer esse bebé, e as
implicações que isso vai ter na tua vida, ou se queres fazer…
-É claro que eu quero este bebé, Rita. Mal soube que ele
estava aqui, - disse colocando a mão no ventre, - o meu coração encheu-se de
amor por ele. O que me preocupa é a deceção que vou dar aos meus pais. Não sei como arranjar coragem para lhes
contar. Estão velhos, viveram sempre na quinta. O meu irmão, não quis casar,
vive em união de facto e é feliz, mas os meus pais, custaram a aceitar a
decisão do filho. E agora eu apareço grávida, sem casamento, sem namorado, sem nada.
-Talvez seja melhor telefonares ao teu irmão, e pedir-lhe
que venha cá. Contas-lhe e decerto ele te ajudará a enfrentar os teus pais. De
resto eu estou aqui para te apoiar em tudo o que precisares, já que não podes
nem deves abandonar os estudos. Eles serão a tua porta, para um futuro melhor.