Na manhã seguinte, quando Isabel chegou para o seu dia de trabalho, foi recebida por Antónia, que a informou que Hélder viajara na noite anterior. Informou-a também que o patrão antes de partir, lhe dissera para lhe comunicar que tinha deixado uma mensagem gravada para ela.
Agradeceu o recado e dirigiu-se ao escritório para ouvir a mensagem. Ligou o gravador, e a voz grave fez com que as lágrimas voltassem a deslizar pelo seu rosto pálido.
" Bom dia, Isabel. Deves estar surpresa com a minha súbita partida, mas aconteceu algo que não posso adiar. Não sei quanto tempo vou estar ausente, espero que não seja muito. Até lá, estás de férias."
Que podia ter acontecido para que tivesse de partir tão repentinamente? Algum problema com a editora e a publicação do livro? Mas se era isso, porque não o dizia? De qualquer modo, que lhe importava agora? Não tinha decidido ir-se embora? Pois ali estava uma boa oportunidade.
Quando ele voltasse, já estaria longe. Tinha pena de se afastar da avó, tinha quase oitenta anos, não viveria muitos mais e ela sonhava estabelecer-se ali e ficar junto dela, o tempo que o destino lhe reservasse. Mas o melhor que fazia era voltar para o escritório na cidade. O seu lugar não podia ser ali, ao lado do homem que amava e simultaneamente tão longe dele.
Pensou deixar-lhe uma mensagem gravada. Mas desistiu. Que podia dizer-lhe? Que os dois eram vítimas de uma brincadeira do destino? Não. Levantou-se, desligou e guardou o gravador, abriu o computador e rapidamente redigiu e imprimiu a carta de demissão.
Desligou o portátil e a impressora, meteu a carta num envelope, que deixou em cima da secretária. Chamou Antónia, a quem disse que a ordem deixada era para ir de férias até à volta do patrão. Despediu-se e voltou para casa. Foi para o seu quarto, pôs a mala em cima da cama, guardou as suas roupas, e quando fechou a mala, viu a avó parada na porta do quarto.
A avó abriu os braços e ela correu para eles. Choraram juntas. Depois, mais calma a avó disse:
-Tenho medo de não voltar a ver-te, filha.
- Não digas isso, avó. Tinha, decido viver contigo. Agora, não me sinto com coragem para isso. Mas prometo que venho ver-te muitas vezes. Um fim de semana, um feriado. O tempo suficiente para estar contigo, e não ter encontros dolorosos. O melhor mesmo era ires viver comigo, mas já sei que ninguém te arranca daqui.
Acariciando-lhe os cabelos, a avó perguntou com lágrimas na voz:
- Vais-te embora já?
- Não. Só depois do almoço.
- Então vem. Vamos tratar dele agora.
