"Sonho ao luar" foi a escolhida pela maioria dos leitores que votaram
7 votos em 12 comentários. Curiosamente apenas um dos cavalheiros votou nesta. E apenas uma senhora não votou nela
SERÁ QUE OS HOMENS SÃO MENOS DADOS A SONHOS, DO QUE AS MULHERES?
A praia estava completamente deserta, naquele fim de tarde. Descalça pela borda de água, deixando que as pequenas ondas de espuma branca, lhe viessem beijar os pés, a mulher caminhava de olhos fitos no horizonte, onde o sol mergulhava no mar, despedindo-se com uma explosão de cores. Isabel parou por momentos, extasiando-se com tanta beleza, e depois deu a volta, e dirigiu-se para as dunas, que davam acesso à estrada onde deixara o carro.
Quase a alcançá-las, sobressaltou-se ao ver um homem junto ao local por onde iria passar. Pensou desviar-se, mas isso seria dar ao homem, a ideia de que estava com medo, e não o impediria de a alcançar, se fosse essa a sua intenção, pelo que decidiu ir em frente.
De súbito, empalideceu ao reconhecer o homem que tinha acabado de se sentar na areia e acariciava a cabeça de um cão.
Apesar do dia começar a escurecer e dos óculos escuros que ele usava, reconheceu-o imediatamente.
Parou quase a seu lado e saudou com voz trémula.
-Olá.
Ele soltou uma espécie de grunhido, sem mover o rosto um milímetro sequer.
“Malcriado”- pensou a jovem afastando-se em direção ao local onde deixara o carro.
Hélder Figueiredo, estava de volta a casa depois de dez anos de ausência? Porquê? E porque não a cumprimentara? Não a reconhecera? Também não era para admirar, há dez anos atrás ela era uma miúda de dezasseis anos, demasiado alta, demasiado magra e demasiado apaixonada, pelo belo vizinho da sua avó, em casa de quem ela estava de férias.
Recordou mais uma vez, o pesadelo que a acompanhava desde então.
Tudo começou quando tinha doze anos. Foi nessa data que conhecera Hélder. Dez anos, mais velho que ela, ele era um homem jovem, tinha acabado de sair da tropa, e preparava-se para entrar no mercado de trabalho. E era muito bonito. Era vizinho da sua avó, e foi muito simpático com ela. Provavelmente achava graça às saídas da miúda, e talvez por isso, tornaram-se inseparáveis. Passearam juntos, tomaram banho na praia, ele emprestou-lhe livros e incutiu-lhe o gosto pela leitura. Quando as férias acabaram, e voltou para a casa paterna, fartou-se de chorar. No seu coraçãozinho de menina, tinha nascido um novo sentimento que ela nem sequer sabia como classificar.



