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8.1.21

SONHO AO LUAR -- PARTE I

"Sonho ao luar" foi a escolhida pela maioria dos leitores que votaram  

7  votos em 12 comentários. Curiosamente apenas um dos cavalheiros votou nesta. E apenas uma senhora não votou nela

SERÁ QUE OS HOMENS SÃO MENOS DADOS A SONHOS, DO QUE AS MULHERES?

A praia estava completamente deserta, naquele fim de tarde. Descalça pela borda de água, deixando que as pequenas ondas de espuma branca, lhe viessem beijar os pés, a mulher caminhava de olhos fitos no horizonte, onde o sol mergulhava no mar, despedindo-se com uma explosão de cores. Isabel parou por momentos, extasiando-se com tanta beleza, e depois deu a volta, e dirigiu-se para as dunas, que davam acesso à estrada onde deixara o carro. 

Quase a alcançá-las, sobressaltou-se ao ver um homem  junto ao local por onde iria passar. Pensou desviar-se, mas isso seria dar ao homem, a ideia de que estava com medo, e não o impediria de a alcançar, se fosse essa a sua intenção, pelo que decidiu ir em frente. 

De súbito, empalideceu ao reconhecer o homem que tinha acabado de se sentar na areia e acariciava a cabeça de um cão.
Apesar do dia começar a escurecer e dos óculos escuros que ele usava, reconheceu-o imediatamente.

Parou quase a seu lado e saudou com voz trémula.
-Olá.

Ele soltou uma espécie de grunhido, sem mover o rosto um milímetro sequer.

“Malcriado”- pensou a jovem afastando-se em direção ao local onde deixara o carro.
Hélder Figueiredo, estava de volta a casa depois de dez anos de ausência? Porquê?  E porque não a cumprimentara? Não a reconhecera? Também não era para admirar, há dez anos atrás ela era uma miúda de dezasseis anos, demasiado alta, demasiado magra e demasiado apaixonada, pelo belo vizinho da sua avó, em casa de quem ela estava de férias.

Recordou mais uma vez, o pesadelo que a acompanhava desde então.
Tudo começou quando tinha doze anos. Foi nessa data que conhecera Hélder. Dez anos, mais velho que ela, ele era um homem jovem, tinha acabado de sair da tropa, e preparava-se para entrar no mercado de trabalho. E era muito bonito. Era vizinho da sua avó, e foi muito simpático com ela. Provavelmente achava graça às saídas da miúda, e talvez por isso, tornaram-se inseparáveis. Passearam juntos, tomaram banho na praia, ele emprestou-lhe livros e incutiu-lhe o gosto pela leitura. 

Quando as férias acabaram, e voltou para a casa paterna, fartou-se de chorar. No seu coraçãozinho de menina, tinha nascido um novo sentimento que ela nem sequer sabia como classificar.

16.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXIX


A casa dos pais de Anete, ficava situada numa zona já na periferia da cidade. A rua era composta quase só por vivendas, separadas entre si por muros encimados por gradeamento. Quase todas tinham na parte da frente, um minúsculo jardim, com algumas flores. Em muitas delas havia pés de roseira, que na altura da floração perfumavam o ar. Raul estacionou o carro, entre o de Ricardo e o de Afonso, que viera passar o dia com a mãe, e que naquele preciso momento voltava a casa, depois de ter ido comprar o jornal. Sabia que havia festa em casa do vizinho, tinha visto Anete com os pais à saída da igreja, e via os carros dos dois irmãos frente à porta. Parou no passeio, espantado ao ver Anete sair dum carro que desconhecia, abrir a porta de trás e desapertar o cinto da cadeirinha de uma criança enquanto o homem do outro lado, fazia o mesmo. Ele tinha visto a jovem entrar em casa com os pais. E agora estava ali? Quem era aquele homem e aquelas crianças? Alguém que tinha conhecido em Lisboa? Estava diferente de quando a vira de manhã, com outro vestido e outro penteado. Engoliu em seco, quando ouviu uma das crianças chamar-lhe mãe. Queria falar, mas não conseguiu articular palavra. Nesse momento, Anete viu através da janela o que se passava. Rapidamente tirou o avental e saiu a receber a irmã, deixando Afonso completamente petrificado. Então a jovem  aproximou-se dele e apresentou-lhos.
- Afonso, apresento-te a minha irmã gémea Ana Clara, o meu cunhado Raul, e meus sobrinhos, Jorge e Miguel. Família, este é Afonso, um grande amigo.
Não o apresentou como ex-marido, não lhe apetecia falar do seu casamento falhado, naquele dia.
Afonso, compreendeu-a e também não referiu o facto. Limitou-se a cumprimentar os recém-chegados, dizendo a Anete.
-Nunca soube que tinhas uma irmã.
- Eu também só o soube há dias. É que fomos adotadas por famílias diferentes. E não fiques em choque. É um segredo de família, tão bem guardado que nem eu sabia. Um dia conto-te tudo. Por favor, não o contes à tua mãe.
- Não contarei. Fica descansada.
- Obrigada – agradeceu a jovem, dando-lhe um beijo breve no rosto, antes de lhe voltar as costas, e dar o braço à irmã para entrarem em casa.
- Prepara-te. Pela reação de Afonso, imagina o que te espera lá dentro, - disse Anete
- Já chegaram todos? Não vejo o carro do meu irmão, - disse Raul.
- Se ele vem, ainda não chegou, - respondeu Anete.
- Como se ele vem? Eu disse ao teu pai que ele vinha. Esteve toda a semana na Madeira, mas regressou ontem.
- Não sabia.O meu pai não me disse nada, provavelmente porque eu também não perguntei.
Entraram em casa, e Anete empurrou a irmã na direção da sala.
- Entra tu primeiro. Quero ver a reação dos meus irmãos.


28.9.17

A RODA DO DESTINO - PARTE V


- Não te preocupes, mãe, eu estou bem. O Luís, não te disse? Ele esteve aqui há dois dias. Vinha muito preocupado, mas verificou que não há razão para isso. O meu casamento já tinha terminado há muito. O que aconteceu agora foi apenas a oficialização do divórcio.
- Não acredito que estejas tão bem como queres que eu acredite. Um divórcio machuca sempre, minha filha.
- Não o meu, mãe. O meu casamento foi um erro. Sabes que eu e o Afonso fomos amigos desde criança. Grandes e bons amigos. O problema foi que ao entrar na idade adulta confundimos sentimentos. Julgámos que o amor que nos unia, era o que devia existir entre um casal. E não era. Na nossa união não havia paixão nem desejo. E quando tentámos forçar as coisas, ficou horrível. Era quase como se quiséssemos ter uma relação incestuosa. Nunca poderíamos ser amantes, porque o amor que nos unia, era igual ao que me une aos meus irmãos.
- Custa-me a crer, como não deram por isso antes do casamento.                    
 -Teríamos dado, se tivéssemos tentado ir para a cama antes do casamento. Mas não aconteceu, precisamente porque não havia entre nós desejo de que isso acontecesse. Não te preocupes. Já arranjei casa, estou à procura de emprego, e tenho a certeza de que em algum recanto desta cidade, existirá um homem que me fará feliz. E acredito que acontecerá o mesmo com o Afonso. É um excelente homem, merece ser feliz. O Luís não te disse que tinha estado comigo?
- Não. O teu irmão não me disse nada. Não sei se disse ao Ricardo, a Teresa disse-me ontem, que o marido tinha estado ao telefone com o irmão, mas não me disse mais nada. Os meninos estão sempre a perguntar por ti.
- Eu também tenho muitas saudades de todos. Do meu irmão, da minha cunhada, dos meus sobrinhos, de ti e do pai. Mas deves compreender que quero dar uma volta à minha vida. Ainda estou à espera que me venham entregar o resto da mobília. E preciso dedicar-me à procura de emprego. Quando tudo estiver organizado, vou passar aí passar um fim-de-semana convosco. Agora desculpa, mas vou fazer o meu jantar. Adeus mãe, dá um abraço ao pai.
- Tem cuidado contigo filha. Amamos-te muito.
-Também vos amo, mãe. Beijo grande.
A jovem desligou o telefone e dirigiu-se à cozinha. Mexeu dois ovos com fiambre, fez uma salada, juntou-lhe um pouco de queijo fresco. Sentou-se à mesa, e partilhou a refeição com as lembranças que a acompanhavam.
Anete era a mais nova dos três irmãos, e a única menina da família Sampaio. Daí que desde sempre foi tratada como uma pequena princesa.
Ricardo e Luís, os irmãos, e Afonso o vizinho, revezavam-se entre si para a acompanharem e a protegerem. Na rua, na escola, e mais tarde já adultos, nas saídas. Não conviveu com outros rapazes, e quando a sua mãe, e a vizinha começaram a falar em casamento, juntando-a com Afonso, a ela pareceu-lhe natural. Conversou com o jovem, e ele também achou natural. E assim quase sem se aperceberem estavam noivos, e dois anos volvidos, casaram com a bênção do padre e das duas famílias. O pior aconteceu, quando tiveram o seu momento de intimidade na lua-de-mel. Em vez de uma noite de amor, própria de recém-casados, o que aconteceu foi uma situação confrangedora, que fez com que o resto da viagem fosse um pesadelo.


QUE RAIO DE CAPÍTULO É ESTE? QUEREM VER QUE A AUTORA SE ENGANOU NA HISTÓRIA? 


18.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE I


Descalça pela borda de água, deixando que as pequenas ondas de espuma branca, lhe viessem beijar os pés, a mulher caminhava de olhos fitos no horizonte, onde o sol mergulhava no mar, despedindo-se com uma explosão de cores. Isabel parou por momentos, extasiando-se com tanta beleza, e depois deu a volta, e dirigiu-se para as dunas, que davam acesso à estrada onde deixara o carro. Quase a alcançá-las, sobressaltou-se ao ver o homem sentado na areia, junto ao local por onde iria passar. Pensou desviar-se, mas isso seria dar ao homem, a ideia de que estava com medo, e não o impediria de a alcançar, se fosse essa a sua intenção, pelo que decidiu ir em frente. De súbito, empalideceu ao reconhecer o homem que sentado na areia, acariciava a cabeça de um cão.
Apesar dos óculos escuros reconheceu-o imediatamente.
Parou quase a seu lado e saudou com voz trémula.
-Olá.
Ele soltou uma espécie de grunhido, sem mover o rosto um milímetro sequer.

31.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XL


Foto do Incêndio do Teatro Nacional D. Maria II-
                                    foto do DN



Os anos mudam, mas a vida na Seca, como no resto do país nada melhora. Pelo contrário, a repressão é cada vez maior, o medo também. No início desse ano o sogro do Manuel, morre em Lisboa em casa de uma filha. 
Na Seca o pessoal continua a sua labuta diária, cada dia mais preocupada com os filhos, pois toda a gente tem um amigo, ou um vizinho cujo filho foi mobilizado para a guerra em África. 
Manuel não era racista. Nunca conhecera nenhum negro, mas sabia que existiam e para ele eram criaturas de Deus como ele.  Desde que tinha o rádio ouvia algumas vezes uma estação emissora que contava o que se passava nas províncias Ultramarinas. A mulher estava sempre a ralhar pois era muito perigoso ouvir aquele emissor, mas o facto de viver isolado junto ao rio, não era muito credível que por ali andassem os homens da PIDE. Eles preferiam outros ambientes, as tabernas por exemplo, onde os homens com um copito a mais se tornavam mais confiantes e descuidados. Ou os locais de trabalho. 
Depois tinham-lhe dito que colocando um copo de água sobre o aparelho, eles não conseguiriam saber o que ele estava a ouvir, desde que o rádio não estivesse com o som demasiado alto. Não sei se havia alguma base científica para isso, sequer sei se seria verdade, mas ele acreditava nisso e fazia-o sempre religiosamente, como quem cumpre um ritual. Depois como em boca fechada não entra mosca, ele não comentava com ninguém o que ouvia. 
No Verão desse mesmo ano, Galvão Teles aumenta a escolaridade obrigatória para seis anos, mas aos filhos do Manuel já de nada serve que já estão a trabalhar excepto a do meio que continua a tirar excelentes notas, e que será finalista no próximo ano. 
Dir-se-ia que 64 fora o princípio do fim do regime fascista, e da guerra no Ultramar, que nesse mesmo ano se estendeu a Moçambique, com a primeira acção da FRELIMO, em Chai no distrito de Cabo Delgado. 
As colónias desde Cabo Verde a Moçambique estão em guerra com Portugal, pelo seu direito à independência. 
E esse ano termina com o grande incêndio que destruiu o Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa.