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24.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXIII



- Para ser sincera é bem mais do que tinha pensado. Não creio merecer tanto, nem quero que em nome da nossa amizade, fiques prejudicada.
- Não te preocupes. Pesquisei no mercado, e é o que teria que pagar a outro qualquer profissional que contratasse para o lugar. Vou passar um email para o advogado pedindo-lhe que elabore o teu contrato, por um prazo de um ano, renovável por igual período se quiseres continuar. Ontem dissestes que pensavas arranjar um trabalho apenas por dois anos, pois pensas num segundo filho depois disso. O teu pai vai ajudar-te nos primeiros dias, ele conhece o funcionamento da empresa tão bem ou melhor que eu. De resto estou certa de que em breve estarás dentro de todos os assuntos.
- E tu que farás agora? Sempre adoraste este trabalho.
-É verdade. Porém tenho muitas coisas para resolver. Até passar estes primeiros três meses, vou dedicar-me a descansar, e a ler todos os livros que comprei sobre gravidez e cuidados com os recém-nascidos. Depois tenho que contratar uma empresa, que me desocupe o quarto que era da minha tia, que como sabes tem ligação direta ao meu, mobilá-lo e passar para lá a fim de decorar e mobilar o quarto do bebé onde agora tenho o meu. Espero que me ajudes nisso. Ainda não decidi se vou ou não vender um terreno que tenho na aldeia. Há uma pessoa interessada nele, talvez consiga um bom preço. Tinha sonhado construir lá uma pousada, a aldeia é muito bonita, os ares são maravilhosos, e está situada a menos de um quilómetro de uma das melhores termas nacionais. Era a maneira do meu filho, ou filha crescer em contacto com a natureza. Porém as obras de ampliação da pastelaria, consumiram praticamente todo o meu dinheiro, e eu não quero recorrer a empréstimos. Depois com a situação atual, tudo mudou. Não sei mais o que posso ou devo fazer. A propósito, ainda não sabes, mas ontem à tarde fui à TecnInformática, conheci o João Teixeira e tivemos uma longa conversa!
- Depois que saíste lá de casa? E eu que pensava que estavas em casa a descansar do desgaste emocional. Conta-me tudo!
-Sabes que não consigo dormir sobre os problemas. E viver diariamente com o medo de ser descoberta e de a imprensa criar uma novela à minha volta, não faz de modo algum o meu género. Então meti-me no carro e dirigi-me à empresa.
-Assim, sem mais nem menos, sem sequer um telefonema a marcar uma entrevista?
- Se telefonasse para marcar uma entrevista, provavelmente ia perder a coragem antes da hora dela, isto claro, se ma marcassem, já que teria de ter um assunto muito importante para tratar com ele e não podia dizer pelo telefone a uma secretária desconhecida o que se passava. Claro que corri o risco, de chegar lá e ele não estar na empresa, mas joguei verde para colher maduro como dizem lá na aldeia.
- O que fizeste? – perguntou Inês visivelmente interessada.
-Disse ao porteiro que tinha uma entrevista com ele às dezasseis horas. Se ele não estivesse o empregado ter-me-ia dito e eu inventava uma desculpa qualquer, como ter trocado o dia da entrevista por exemplo e vinha-me embora. Mas ele só me pediu a identificação e mandou-me subir, ao quinto andar onde fica o escritório dele.
Fez uma pequena pausa que Inês não se atreveu a interromper e continuou:
- Até aí tinha corrido tudo bem, mas claro que antes de chegar até ele tinha a parte mais difícil. Convencer a sua secretária a deixar-me entrar sem marcação alguma.
-E o que fizeste?


6.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE II


- Bom dia! É verdade, embora só por dois dias, vim arejar a casa. E o ti’ Joaquim, já a apanhar as cebolas?
-Tem que ser. É uma pena teres esse terreno aí abandonado. Sabes o que devias fazer? Arranjar um marido, e voltares de vez. Tenho a certeza de que tanto a tua mãe como a tua avó, lá onde se encontram, ficariam muito mais descansadas se te vissem aqui a cuidar daquilo que tanto lhes custou a ganhar.
-Eu gosto disto, mas não sei se me habituaria a viver aqui de forma permanente. Habituei-me a viver na cidade, é lá que tenho a minha vida. Talvez um dia venda o terreno e fique apenas com a casa para passar uns dias quando me sentir mais cansada.
- De certa forma compreendo-vos. A aldeia não evoluiu, e o ser humano nunca está satisfeito com o que tem, então os nossos filhos partiram para a cidade em busca de melhor vida, e os filhos deles, que sempre tiveram muito mais do que os seus pais e avós, emigraram para o estrangeiro, porque a vida na cidade já não lhes chegava. E um dia vão dar-se conta de que lá, também é pouco para eles. E trabalham toda a vida cada vez mais, e nunca estão felizes, porque não sabem que a felicidade está dentro de nós e não nas coisas que nos rodeiam.
- O Ti’ Joaquim é um filósofo – disse Teresa sorrindo.
- Já pareces o meu neto, com essa conversa.
- O Alberto? Não o vejo há mais de cinco anos. O que é feito dele?
- Acabou o curso, casou com uma colega e estão os dois a trabalhar num hospital no Porto. É o único que ficou cá e que vou vendo de vez em quando; os mais velhos foram para a Austrália, nunca mais os vou ver.
- Não perca a esperança, qualquer dia vêm de férias.
- Não. A Austrália, fica muito longe, as viagens saem demasiado caras. Depois partiram sós, lá arranjaram companheira, fizeram os seus ninhos, já têm filhos. Essa, é agora a família deles e aquele o seu país. Do resto não reza a história. Bom tenho que ir levar as cebolas à mulher que daqui a pouco ela pensa que me perdi. Gostei de ver-te. Se pensares em vender o terreno fala comigo. O meu cunhado que está na França está a pensar voltar. Quer comprar um terreno aqui, para construir uma casa, mas ninguém quer vender.
-Fique descansado se pensar em vender, vou ter consigo, - disse a jovem e acrescentou em voz baixa quando o homem virou costas. - Se calhar mais depressa do que aquilo que pensa.
Pouco depois levantou-se e empreendeu o caminho do regresso a casa. Teresa era uma mulher morena, alta e esguia, de cabelos e olhos castanhos.
Na aldeia, conhecia toda a gente, e todos a conheciam já que ali nascera, na casa da avó Rosário, onde também nascera Ana, a sua mãe, vinte e cinco anos antes dela. Teresa, não acreditava no amor, nem nos homens. O seu avô largara a sua avó grávida de cinco meses para se juntar com outra mulher. O seu pai, bom esse, nem sequer chegara a casar com a sua mãe. Quando soube que a tinha engravidado, simplesmente desaparecera.
Desde bem pequenina, Teresa habitou-se a ouvir a mãe e a avó dizerem que os homens não prestavam, não consideravam as mulheres como suas iguais. Serviam-se delas quando delas podiam tirar algum proveito e descartavam-nas quando já não lhes eram úteis. De modo que bem cedo, jurou a si mesma, que nunca ia querer saber de homem algum e assim se manteve até à atualidade.



Gente, alguém me explica uma coisa? O primeiro capitulo desta história na Sexta-feira teve 19 comentários e 14 visualizações. É possível alguém comentar sem ver?