6.12.18

O NATAL DA NATALINA




Estamos em dezembro.
Dezembro é o nome do último mês do ano. Os outros meses chamam-se: janeiro   fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro.
Ei! Tantos! Quase fiquei cansada. E escrevi-os de seguida, sem me enganar.
Parecem soldadinhos, em fila, todos direitos.
Na minha casa, o mês mais importante é dezembro porque foi quando eu nasci. E como era o tempo do Natal, a minha avó quis que eu me chamasse Natalina. Assim festejamos duas coisas importantes: os meus anos e os do Menino Jesus.
Fazer anos é bom: fica-se mais alto e recebem-se muitas prendas.
O ano passado deram-me uma camisola, seis livros, uma caixa de lápis, grande, um baton e um verniz para as unhas, a fingir, para quando brinco às senhoras crescidas. O vizinho Manuel, da frutaria, deu-me uma laranja. Foi a prenda de que mais gostei. Era tão grande que parecia o sol. Eu nunca tinha visto uma laranja assim: a casca lisa, muito brilhante. Quando já ia descascá-la pareceu-me que alguém me chamava. Olhei na direção do presépio, pois a voz era dali que vinha.
Deitado nas palhinhas, de braços abertos, o Menino Jesus lá estava, com aquela tão poucochinha roupa que fazia frio só de olhar. E esta, hein!, pensei eu de repente, como se me tivessem dado uma pancada dentro do peito. Festas daqui, prendas dali, embrulhos, laços, Natal nas montras, Natal na televisão, Natal, Natal nas pressas de toda a gente e não é que também na minha casa ainda ninguém se lembrou que, além de mim, Natalina, este Jesus, nu, descalço, deitado em palhinhas duras também fez anos e, como todas as crianças, há de gostar duma prenda?!…
Olhei a laranja.
Peguei nela e, devagar, fui colocá-la nas suas mãozitas abertas que pareciam mesmo estar à espera de um sinal de amor.
De repente, que veem os meus olhos?
A laranja começa a encher-se de luz. Tanta luz. Parecia uma laranja de vidro. E na luz e claridade dessa bola mágica, viam-se os rios e os mares; as terras de África e as terras da América; os meninos negros e os meninos índios; os meninos de Moçambique a dizerem “tá-tá” como quem diz adeus e os meninos de Timor a rezarem em português. Também se viam as grandes neves e os grandes desertos e as estrelas a deslocarem-se depressa num céu de muitas cores como nos filmes de ficção científica.
Eu nem queria acreditar no que me estava a acontecer e o meu coração parecia um passarinho com susto.
Quando aquele filme acabou olhei muito séria para Jesus. E Ele sorria. Sorria-me.
O sorriso dele era mais morno que o sol, mais fofinho que a camisola nova.
E foi assim, com este segredo de sumo e luz que eu, Natalina, vi coisas de conto de fadas e ganhei um amigo para sempre.
Depois desse dia, Dezembro ainda ficou mais importante.
E só por causa duma laranja.






Maria Rosa Colaço
In: Boletim Cultural
Fundação Calouste Gulbenkian
VII série, dezembro 1991


13 comentários:

Fatyly disse...

Desconhecia e adorei!

Beijos

sandra mayworm disse...

BELÍSSIMO TEXTO!!!!

Rosemildo Sales Furtado disse...

Obrigado por mais essa bela história/estória.

Abraços,

Furtado

Kique disse...

Gostei do texto
Não conhecia
Bjs

Kique

Hoje em Caminhos Percorridos - Esposas implicativas...

Cidália Ferreira disse...

Belíssimo conto. Agora não valorizam nada. É tudo dado de mão beijada!
Parabéns. Amei!

Beijos- Boa noite!

Pedro Luso disse...

Maria Rosa Colaço escreveu um conto próprio para essa época do ano com o natal já tão perto de nós. A personagem do conto, Natalina, tinha mais razões para comemorar o Natal, pois foi nesse dia em que ela também nasceu, daí o seu nome escolhido pelos pais, Natalina. O conto de Maria Rosa tem a sensibilidade de uma cristã, que sabe dar valor para uma data tão importante.
Um belo conto. Gostei da partilha.
Um bom final de semana.
Abraço
Pedro

Pedro Coimbra disse...

Esta laranja é absolutamente deliciosa.
Abraço, bfds

Maria João Brito de Sousa disse...

Ainda não conhecia este belo conto de Maria Rosa Colaço.

Um abraço e bom-fim-de-semana, Elvira.

Larissa Santos disse...

Divino conto. Não conhecia...Obrigada pela partilha :))

Hoje : Lágrima em rio de cumplicidade
Bjos
Votos de uma óptima Sexta - Feira.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Gostei e Natalina era o nome da minha mãe.
Um abraço e bom fim-de-semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

O meu pensamento viaja disse...

Muito interessante.
Bom fim de semana.
Beijinhos

Os olhares da Gracinha! disse...

Está muito interessante!!! Bj

Ana Freire disse...

Mais um lindo conto de Natal, que foi uma delicia descobrir, por aqui... neste mês de Dezembro, que também é um dos meses do ano, de que mais gosto!...
Beijinhos
Ana