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3.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XIV



Foram uns dias muito difíceis para Anabela. Felizmente pode contar com o apoio dos compadres. Eles não só a acarinharam e defenderam, como a ajudaram a encaixotar roupas e loiças, que ela iria doar para um orfanato bem como os eletrodomésticos, as loiças e os poucos moveis que tinham ficado intactos. O que estava destruído, foi levado pela camioneta camarária de recolha de monos. Ela não queria nada que lhe lembrasse o que sofrera naquela casa.

Entretanto prosseguiam as investigações da polícia sobre o assassinato do marido e a jovem a quem não tinham sido dados mais esclarecimentos sobre o caso, depois de resolvido o esvaziamento do apartamento e tendo entregado as chaves ao senhorio, resolveu voltar a sair e procurar o inspetor.

Este, informou-a que as investigações continuavam em aberto, pois até ao momento não tinham conseguido nada de novo, a não ser testemunhos, de que ela realmente já não vivia com a vítima, não tinha conhecimento das suas ligações e tinha passado no Algarve os últimos meses. Aconselhou-a, no entanto, a entrar em contacto com ele se, entretanto, de algum modo tivesse conhecimento de algo que pudesse ajudar as investigações.

- Bem inspetor, como sabe, o último ano foi muito difícil para mim. Fui vítima de violência por parte do meu marido, fui ameaçada de morte, passei pelo medo de ter uma faca encostada ao pescoço, sofri um aborto, e fui insultada e quase agredida pelos meus ex-sogros. Sinto-me arrasada e gostaria de me ausentar da cidade.  Sou enfermeira, e por causa dos problemas que acabo de relatar e tenho a certeza de que o senhor conhece, pois deve ter cópia das várias participações que fiz nesta mesma esquadra,  para tentar equilibrar-me física e emocionalmente, tirei uma licença sem vencimento, do hospital onde trabalho.

Soube que estão recrutando enfermeiras para o Hospital St. Thomas em Londres, e gostaria de me candidatar, pois com os últimos acontecimentos, penso que quanto mais longe estiver de Lisboa, melhor. O que queria saber, é se posso fazê-lo, ou se não posso ausentar-me do país enquanto decorrem as investigações.

-Todas as nossas investigações, confirmaram as suas declarações anteriores, não há qualquer suspeita sobre a senhora, pelo que da nossa parte não vejo nenhum impedimento. O nosso receio inicial, era que pudesse vir a sofrer perseguição de algum contacto do seu marido, pensando que ele, sentindo-se ameaçado, poderia ter-lhe entregado dinheiro ou droga que lhes pertencesse.

Esse receio não se confirmou, por isso a senhora está livre, para seguir com a sua vida, aqui ou em qualquer outro lugar.

- Muito obrigada, inspetor. De qualquer modo, se eu conseguir o emprego em Londres, entrarei em contacto consigo antes de partir a fim de saber se descobriram o assassino. O meu marido era um traste, mas ninguém merece acabar assim.

 

Nota: A pedido da avó Elvira, que ontem teve de ir a uma consulta de urgência e está com antibiótico e anti inflamatório. Afinal o técnico diz que não é o que pensava e o pc tem arranjo deve ficar pronto hoje. O portátil como só tem 7 meses está na garantia foi para a loja que o enviou para a marca. Estará pronto ou substituído por outro se não tiver arranjo no prazo máximo de um mês. Mariana.

12.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XX





- Antes de te expor a minha ideia, quero fazer-te uma confissão. Tenho um amigo, ex-investigador da Judiciária, a quem pedi para te investigar. Deves compreender que aquela carta me deixou meio maluco, pensei que estava a ser vítima de um qualquer esquema, e nem sequer acreditei na história de teres tido uma irmã que se suicidara. Desculpa, não é agradável para ninguém saber que andaram a invadir a sua privacidade, mas deves perceber a minha situação. Por outro lado, eu podia calar-me e talvez nunca viesses a descobrir que o fiz, mas para mim a sinceridade é vital. Também te digo que quando tive o resultado do teste de ADN, fiquei desconcertado, mas esse meu amigo, explicou-me como se processava e foi ele que me disse que só podia ser coisa do meu irmão.  Por razões que talvez te conte um dia, desde a escola primaria, que ele fazia asneiras e arranjava sempre maneira de passar a culpa para mim e ser eu o castigado. Foi o que fez com a tua irmã, apresentando-se como se fora eu. Provavelmente com receio de que a tua irmã descobrisse que ele era casado. E agora temos que resolver este problema. A tua irmã queria que a menina, conhecesse o pai e eu prefiro que ela acredite que eu sou o pai, a que conheça o verdadeiro.
O empregado voltou com os pratos e retirou-se desejando bom apetite.
Ricardo esperou que ele se afastasse para continuar.
- Penso que não é justo, tirar-te a criança, uma vez que seria um sofrimento para as duas, pois como disseste ela nunca conheceu outra mãe. Antes de te fazer a minha proposta, vou perguntar-te até que ponto estás disposta, a sacrificares a tua vida por ela.
- Daria a minha vida, por ela se fosse preciso, – respondeu encarando-o com firmeza.
- Era a resposta que esperava. O que te peço é bem mais simples. Casa-te comigo, e resolvemos o problema.
Ela engasgou-se. De tal modo que parecia sufocar. O seu rosto começou a ficar roxo, e era nítido que não conseguia respirar, nem sequer tossir. Rapidamente Ricardo levantou-se, colocou-se atrás dela, pôs-lhe as duas mãos debaixo dos braços, levantou-a e executou a manobra de Heimlich, fazendo com que expelisse o bocadinho de Salmão, e recomeçasse a respirar. Nessa altura já o empregado se encontrava junto da mesa, a perguntar se era necessário alguma coisa, e havia vários pares de olhos, fixos na jovem, que envergonhada, só tinha um desejo.  Tornar-se invisível. Ricardo ajudou-a a sentar-se e deu-lhe um copo com água dizendo.
- Bebe devagar. Está tudo bem agora. Desculpa, não pensei que podia provocar um acidente.
Esperou vê-la mais calma e só então voltou para o seu lugar na mesa.
- Meu Deus que vergonha! Nunca me tinha acontecido nada assim. Não conseguia respirar, pensei que ia morrer.
- Não te preocupes, pode acontecer a qualquer um. Não te apetece mais? – perguntou ao ver a posição em que ela colocava os talheres.
- Não consigo comer mais nada.
-Nem sobremesa?
- Não. Só café.