- Bom dia Paula.
- Bom dia Cidália. Tão cedo por aqui? Passa-se alguma
coisa? Como está o meu irmãozinho?
- Deixei-o na escola agora. E aproveitei para vir falar
contigo, calculei que a esta hora ainda não estivesses muito ocupada.
- Fizeste bem. Realmente nos últimos tempos, não tenho
tido tempo para nada, tem sido umas festas atrás de outras. Mas não me devia
queixar, enquanto estou a trabalhar não me lembro do desastre que é a minha
vida pessoal.
- Ainda sofres, por causa do Adolfo?
- Que te parece? Foram quatro anos da minha vida,
sonhando com uma vida em comum, fazendo projetos em vão. Mas não falemos de
mim. Diz-me, que te trouxe cá?
- Sabes que os negócios do teu pai, não vão nada bem?
- Não. Que se passa? É grave?
-Está na falência. Má gestão talvez, mas também por causa
do António Ferreira. Já ouviste falar nele?
- Quem não ouviu falar nesse tubarão da restauração? Mas
o que tem ele a ver com os maus negócios do meu pai.
- Parece que nem sempre foi um empresário rico. Há muitos
anos foi empregado do teu pai. Houve um desentendimento entre eles, não me
perguntes o quê que o Jorge, não me quis contar. E ele jurou que um dia se ia
vingar. Não sei como conseguiu chegar a ter tanto poder económico, o teu pai garante que naquela época, não tinha onde cair morto. O certo é que a sua área de intervenção, não
é apenas a cadeia de restaurantes, “Cozinha Portuguesa” mas também tem a maior
imobiliária do país, a “Casa dos seus sonhos”. E tem roubado todos os negócios
ao teu pai, que para lhe fazer frente, acabou hipotecando a empresa, a hipoteca está a vencer-se e ele não tem como resgatá-la. Resumindo, está
completamente arruinado.
-Meu Deus. Porque é que não me contaste antes?
-Eu também não sabia. O teu pai andava preocupado e eu
sabia que as coisas não iam bem, mas não imaginava quanto. Só agora me contou.
- E não se pode fazer nada?
- Não. Embora o Jorge ainda tenha esperanças de que
possas salvá-lo.
- Eu? Empreguei o dinheiro da herança da minha mãe na
empresa. Os negócios têm corrido bem e tenho algum dinheiro mas pouco, e não
quero recorrer a empréstimos que hipotequem o meu futuro. Como é que eu posso
ajudar?
- Conheces o António Ferreira?
- Não. Aliás, penso que o vi uma vez numa festa que fiz,
mas de longe, e nem tenho a certeza se seria ele, embora me lembre de ouvir
comentar o seu nome. Porquê?
- Porque ele deu oito dias ao teu pai para te convencer a
casar com ele. Se isso acontecer, não só esquece a hipoteca que tem sobre a
“Casa Nova” como lhe concede um empréstimo, para voltar aos negócios, e se
compromete a deixá-lo em paz. Caso contrário, dentro de oito dias, executa a
hipoteca e anexa a empresa à sua.
- O homem é doido. Como pode querer casar comigo se nem me
conhece? E quem pensa ele que sou? Uma mercadoria que pode comprar? Como se eu fosse
um saco de batatas para os seus restaurantes?
Pôs-se de pé. Estava furiosa. Percorreu o gabinete, de
uma ponta à outra barafustando. Depois voltou-se para a madrasta.
-Foi o meu pai que te mandou cá? Para me convenceres?

