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23.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE VII







- Bom dia Paula.
- Bom dia Cidália. Tão cedo por aqui? Passa-se alguma coisa? Como está o meu irmãozinho?
- Deixei-o na escola agora. E aproveitei para vir falar contigo, calculei que a esta hora ainda não estivesses muito ocupada.
- Fizeste bem. Realmente nos últimos tempos, não tenho tido tempo para nada, tem sido umas festas atrás de outras. Mas não me devia queixar, enquanto estou a trabalhar não me lembro do desastre que é a minha vida pessoal.
- Ainda sofres, por causa do Adolfo?
- Que te parece? Foram quatro anos da minha vida, sonhando com uma vida em comum, fazendo projetos em vão. Mas não falemos de mim. Diz-me, que te trouxe cá?
- Sabes que os negócios do teu pai, não vão nada bem?
- Não. Que se passa? É grave?
-Está na falência. Má gestão talvez, mas também por causa do António Ferreira. Já ouviste falar nele? 
- Quem não ouviu falar nesse tubarão da restauração? Mas o que tem ele a ver com os maus negócios do meu pai.
- Parece que nem sempre foi um empresário rico. Há muitos anos foi empregado do teu pai. Houve um desentendimento entre eles, não me perguntes o quê que o Jorge, não me quis contar. E ele jurou que um dia se ia vingar. Não sei como conseguiu chegar a ter tanto poder económico, o teu pai garante que naquela época, não tinha onde cair morto. O certo é que a sua área de intervenção, não é apenas a cadeia de restaurantes, “Cozinha Portuguesa” mas também tem a maior imobiliária do país, a “Casa dos seus sonhos”. E tem roubado todos os negócios ao teu pai, que para lhe fazer frente, acabou hipotecando a empresa, a hipoteca está a vencer-se e ele não tem como resgatá-la. Resumindo, está completamente arruinado.
-Meu Deus. Porque é que não me contaste antes?
-Eu também não sabia. O teu pai andava preocupado e eu sabia que as coisas não iam bem, mas não imaginava quanto. Só agora me contou.
- E não se pode fazer nada?
- Não. Embora o Jorge ainda tenha esperanças de que possas salvá-lo.
- Eu? Empreguei o dinheiro da herança da minha mãe na empresa. Os negócios têm corrido bem e tenho algum dinheiro mas pouco, e não quero recorrer a empréstimos que hipotequem o meu futuro. Como é que eu posso ajudar?
- Conheces o António Ferreira?
- Não. Aliás, penso que o vi uma vez numa festa que fiz, mas de longe, e nem tenho a certeza se seria ele, embora me lembre de ouvir comentar o seu nome. Porquê?
- Porque ele deu oito dias ao teu pai para te convencer a casar com ele. Se isso acontecer, não só esquece a hipoteca que tem sobre a “Casa Nova” como lhe concede um empréstimo, para voltar aos negócios, e se compromete a deixá-lo em paz. Caso contrário, dentro de oito dias, executa a hipoteca e anexa a empresa à sua.
- O homem é doido. Como pode querer casar comigo se nem me conhece? E quem pensa ele que sou? Uma mercadoria que pode comprar? Como se eu fosse um saco de batatas para os seus restaurantes?
Pôs-se de pé. Estava furiosa. Percorreu o gabinete, de uma ponta à outra barafustando. Depois voltou-se para a madrasta.
-Foi o meu pai que te mandou cá? Para me convenceres?

27.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE VII



Quinze dias depois, Pedro acabara de chegar do Algarve, onde tinha formalizado a compra do Hotel Rio Azul em Albufeira. Não era uma grande unidade hoteleira, mas por algum lado se começa e de momento era o que estava disponível no mercado. cinquenta quartos, distribuídos por três pisos.
Tirou o casaco que pôs nas costas da cadeira, afrouxou o nó da gravata, tirou-a e meteu-a na gaveta, procurando ficar o mais confortável possível, para encarar um dia de trabalho intenso. Há três dias que estava fora, e no dia seguinte viajaria para o Porto para supervisionar as obras de ampliação do restaurante na cidade.  Em cima da secretária, tinha o envelope que no dia anterior Abílio Morais, o investigador a que sempre recorria, quando era necessário, entregara.
Abriu-o e leu atentamente todas as informações. Surpreendeu-se ao descobrir que a jovem Joana, tinha vinte e nove anos. Parecera-lhe muito mais nova e imaginou que fosse a irmã mais nova, de Catarina quando afinal era o contrário. Mas a sua surpresa foi muito maior ao descobrir que Joana tinha estudado restauração e hotelaria, e tinha formação em cozinha e pastelaria. Fora a responsável pela pastelaria, “Sonho de verão”,  no Príncipe Real, até há oito meses, altura em que teve de se despedir para cuidar da irmã  grávida e da mãe que na altura lutava contra um cancro na mama. Depois que a irmã morreu, dedicou-se ao fabrico de bolos e organização de festas de aniversário infantil. Criara uma firma na Internet e trabalhava por encomendas através dela. 
Segundo as informações recolhidas por Abílio, as duas irmãs eram muito unidas, e duas raparigas sossegadas. A mais nova apaixonara-se por um jovem bem-parecido e adiantara-se ao casamento. Quando o namorado soube que estava grávida, desapareceu e nunca mais souberam dele. A rapariga sofrera um grande desgosto, perdera a alegria e a vontade de viver, apesar de todos os esforços da irmã e da mãe, que sempre a apoiaram e animaram. Conseguira levar a gravidez até ao fim, mas dera o último suspiro, mal o filho nascera.
Pôs de lado o relatório e ficou pensativo. As informações coincidiam com o que Joana lhe havia contado naquele dia. Tinha que pensar no que ia fazer, mas ele queria aquele menino. Era da sua família, tinha direito a uma vida melhor do que aquela, que as duas mulheres lhe pudessem dar. Por outro lado, ele não tinha o direito de tirar-lhes a criança. Era tudo o que lhes restava, da filha e irmã que elas amaram. Ouviu-se um toque na porta e Rita entrou, trazendo alguns documentos para assinar.
- Aconteceu alguma coisa digna de registo enquanto estive fora? – Perguntou enquanto assinava o documento que tinha na sua frente.
- Nada a não ser os telefonemas da menina Cristina Barbosa, a perguntar se o senhor já tinha regressado. A propósito se ela telefonar hoje, o que faço?
- Passa-me a chamada. Faça com que este documento siga imediatamente para o seu destino. Depois localize o doutor Araújo e passe-me a chamada. É urgente.
- Mais alguma coisa doutor?
- De momento não, Rita.
A secretária pegou no documento e saiu, deixando-o entregue aos seus pensamentos.