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27.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXIV




Os cinco dias até ao Natal passaram a correr. O casal aproveitou para fazer as compras para a época, umas vezes acompanhados por Natália e a menina, outras deixando-as em casa. Um dia, compraram uma árvore de Natal, que quase tocava o teto da sala, muitas bolas coloridas e correntes luminosas. Depois de montada e decorada, a alegria e admiração da pequenita, foi a melhor recompensa dos adultos, embora não a deixassem sozinha na sala, com medo de que provocasse algum acidente.
Isabel falara com Ricardo acerca da consoada, dizendo-lhe que desde a morte da mãe, ela e a irmã sempre passaram a noite de Natal com Natália e o marido. E mesmo depois que ela ficou viúva o hábito manteve-se.
A vizinha fora a sua força, o seu apoio, desde que a mãe morrera. E gostaria de continuar com esse convívio até porque Natália era uma mulher solitária, não tinha ninguém de família, a não ser um sobrinho por parte do marido que tinha emigrado há muitos anos para a Austrália e nunca mais dera notícias. Por isso, gostaria de  a convidar para passar a consoada com eles. Ricardo respondera, que não via qualquer problema, e que também ele iria convidar Artur, que era um amigo de longa data, fora o seu padrinho de casamento, e também era um homem muito solitário. Além disso, tinha reparado no dia do casamento, que parecia haver uma certa empatia entre eles. E acrescentara:
-Era engraçado se eles se entendessem.
- A Natália é uma mulher muito simpática, mas não sei se estará recetiva a uma nova relação. Dava-se muito bem com o marido, está viúva, há oito anos e tem sempre respeitado a memória do falecido.
- Acredito. O Artur nunca se casou, mas confessou-me há dias que se sente muito sozinho…
-Para quem não acredita no amor estás muito casamenteiro, - disse ela.
- O casamento pode surgir por muitas outras razões que não o amor. Nós somos a prova disso- retorquiu ele.
Não voltaram a falar no assunto, mas os amigos foram convidados.
Natália veio logo ao fim da manhã, a fim de ajudar Isabel a fazer as iguarias da ceia. Ricardo teria preferido dirigir-se a um dos hotéis que promovem a data e passar lá a noite. Ele podia permitir-se essa despesa, e ninguém se cansava, mas as duas diziam, que era uma data para estar em família e que as coisas feitas em casa tinham outro sabor. De modo que ele limitou-se a ser a ama da menina, deixando que elas tivessem o tempo necessário para fazerem o que tinham projetado. Artur chegou pouco depois do anoitecer. Vestido de pai Natal, entregou à criança as prendas que os pais lhe tinham comprado, e que Ricardo lhe entregara nessa manhã, para que ele fizesse essa entrega. Uma boneca, um conjunto de peças de construção, bem coloridas, um cavalo de baloiço quase maior que ela, livros de bonecos e lápis de cor para colorir. Depois enquanto a criança foi jantar, Artur foi à casa de banho despir o fato de Pai Natal que vestira em cima do seu fato cinzento. Voltou com o disfarce num saco de plástico dizendo:
-Vou lá abaixo meter isto no carro, não vá a Matilde ainda dar com o fato e ficar toda baralhada.
Quando voltou, a menina já tinha jantado e balançava-se radiante no seu cavalinho. Ricardo serviu uma bebida ao amigo e sentaram-se no sofá a conversar. Pouco depois, Matilde começou a mostrar-se sonolenta, e Ricardo pegou-lhe ao colo para a ir deitar.
- Desculpa, tenho que a ir deitar. As senhoras já terminaram a sua labuta na cozinha, foram arranjar-se. Podes vir comigo ou ficar aí a ver TV.
-Vou contigo. Ver como te desenrascas na tua nova condição de pai, é coisa que não quero perder.