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12.6.20

ISABEL - PARTE XXIII






Porque razão, se apresentara assim? E porque é que aquela mulher o inquietara tanto, desde que a teve nos braços, naquela manhã de nevoeiro na praia? Era bonita sim, mas na sua vida errante tinha encontrado mulheres bem mais belas, que esquecera horas depois. Não era casada. Além de não usar aliança, viu-a em várias ocasiões sempre só. O que seria que o atraía? Talvez fosse o seu olhar de gazela assustada. Há muito que não via um olhar assim. Especialmente numa mulher que já deixara há muito a adolescência. Mas podia ser falso. Nas mulheres tudo era falso.
Luís, era muito céptico em relação às mulheres. Costumava dizer duas coisas quando o assunto eram mulheres. Primeiro, as mulheres não prestam. Traem os homens, traem as amigas e pior ainda traem-se a si mesmas. Segundo, a excepção era a sua mãe, a única mulher no mundo que não desiludira o Criador. Não que alguma vez ele tivesse sido um "menino da mamã". Porém tinha nela uma fé cega, sabia que ela nunca o enganaria, nem mesmo quando tentava mostrar-lhe que a vida de casado seria melhor. A mãe julgava a felicidade do casamento, pelo seu e ele nunca encontrara outro casal tão feliz.
Horas depois, no seu quarto no hotel, escrevia rapidamente.   Acabara de ter uma ideia para um novo livro, e imediatamente tratara de registar as primeiras linhas, do que seria o primeiro capítulo. Parou ao perceber que  descrevera a protagonista com as características físicas de Isabel. 
Fechou o portátil e foi até à janela. Depois de um rápido olhar para a rua,  atravessou o quarto a passos largos. 
Sentia vontade de sair. Luís não era homem de reprimir os seus desejos, nunca o fizera. Afinal era noite de Sexta-feira, e era verão.  
Chegou à rua e olhou em volta. O ar estava quente, e a lua cheia, redonda como ventre fecundado, extremamente brilhante, derramava sobre a cidade toda a sua luminosidade. Se ele fosse romântico diria que estava uma noite para namorar. Mas não o era. Apetecia-lhe caminhar. Observar as pessoas com quem se cruzava.  
Desceu a rua até ao Rossio, entrou na rua Augusta e seguiu até à Praça do Comércio. Sempre gostara de ver o Tejo em noites assim. Desde o tempo em que ele era “o outro”. As memórias lutavam para vir à superfície e aos poucos foi deixando que elas ocupassem o seu espaço no presente.
Luís era um jovem de dezoito anos, e estava loucamente apaixonado por Odete. Eram vizinhos de bairro e conheciam-se desde meninos. Quando  tinha treze anos, tomara coragem e pedira-lhe namoro. Odete, dois anos mais velha, e já uma mulherzinha aceitou. Ele ficara todo orgulhoso. E contara aos pais. O pai esboçara um sorriso e não dissera nada. O pior foi a mãe. Primeiro não gostava da gaiata, que achava pretensiosa. Depois, ele era ainda um menino tinha que se dedicar aos estudos.
Claro que ele tinha ficado irritado com a opinião da mãe. Na verdade aos treze anos, Luís nada tinha de bonito. Era demasiado alto, e muito magro. A única coisa interessante nele, eram os seus olhos cinzentos que às vezes mais pareciam de prata e que se destacavam no rosto muito moreno. E Odete era a jovem mais bonita do bairro. Tão grande quanto o seu amor, era o orgulho que ele sentia, por ela ter aceitado namorar consigo. Tinha a certeza que era o rapaz mais invejado de todo o bairro.


Agora que já toda a gente conhece a Isabel estamos a conhecer o Luís.Ou será o Nuno? Rsrsrs. Vamos ver se estas duas peças se encaixam no puzzle. 

20.6.18

O DIREITO À VERDADE - III





Emocionada retirou um envelope cheio de fotos suas. Cada uma recordava uma etapa da sua vida. Havia uma no berçário da maternidade, outra a andar num baloiço de bebé. Virou-a e viu que tinha no reverso a data. Era do seu primeiro aniversário. Pegou noutra e viu-se bem pequenina no meio de outras crianças a apagar duas velas pequeninas num bolo de aniversário. Havia muitas mais, o seu primeiro dia de aulas, a entrada para os escuteiros, com o fato de lobito, a sua primeira comunhão, os seus aniversários. A última fora tirada seis meses atrás.  A sua mãe tinha feito um registo fotográfico da sua vida, e ela nunca dera por isso.  Poisou-as a seu lado, pensando que tinha que comprar um álbum e organizá-las. Se algum dia viesse a ter filhos, seria interessante comparar as suas fotos com as várias etapas deles.
Em seguida, retirou da caixa, um envelope grande e lá dentro encontrou os documentos da casa, a escritura de compra, e o registo predial. Voltou a metê-los no envelope, e retirou da caixa um pequeno baú de madeira. Abriu-o e encontrou uma caixa de joalharia. Assombrada, porque nunca tinha visto a sua mãe com qualquer jóia, abriu-a e mais espantada ficou ao encontrar lá dentro um anel de noivado e uma aliança.
-De quem seriam? Da sua mãe não era com certeza, ela sempre lhe dissera que nunca se interessou suficientemente por ninguém para desejar casar. Seria dos seus avós? Rodou a aliança e viu que tinha uma inscrição no interior “Jorge 25 -5-1990”. Não podia ser dos seus avós. Mas então de quem podiam ser? E porque estariam na posse da sua mãe? Voltou a fechar o estojo e retirou do fundo da caixa um outro envelope. Abriu-o e tirou vários documentos. Uma certidão de nascimento em nome da sua mãe, Natália Trindade. Uma outra certidão de nascimento em nome de Jorge Noronha.
Cada vez mais intrigada procurou o seguinte. Uma certidão de casamento em nome da sua mãe e de Jorge Noronha. Procurou a data. A mesma que estava na aliança. Então a aliança e o anel de noivado eram da sua mãe? Mas se assim era, porque é que ela sempre lhe dissera que era solteira? O que a levara a mentir-lhe a vida inteira? E quem seria aquele homem com quem casara? E onde estaria? Procurou no fundo da caixa, mas não havia mais nada lá. Voltou a pegar no envelope e ao abri-lo para guardar os documentos verificou que havia ainda um outro documento lá dentro. Retirou-o e leu-o. Era o registo do processo de divórcio da sua mãe. A data do divórcio era de vinte e oito de Novembro de mil novecentos e noventa e um.
Ela nascera a vinte e dois de Maio de mil novecentos e noventa e dois. Fez rapidamente as contas. Cinco meses e vinte e quatro dias. Então aquele tal Jorge era o seu pai. Porque é que ela não tinha o seu nome? Tê-la-ia rejeitado? Seria por isso que a mãe se divorciara? Mas porque esconder-lhe os factos. Pior, porque lhe mentiu?
Tornou a guardar tudo na caixa. Estava arrasada. Desde que tinha memória a mãe sempre esteve a seu lado sozinha. Quando foi para a escola tentou saber porque não tinha pai como as outras meninas.
E a mãe disse-lhe que tinha ido a uma festa, bebera mais do que a conta e fizera amor com alguém. Um mês mais tarde soube que estava grávida, mas não se lembrava de nada e não sabia quem seria o seu pai. Porquê?


4.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO. PARTE XXVIII




Nunca uma semana passou tão depressa para Amélia. Naquela mesma noite falou com o filho e contou-lhe sobre a proposta de casamento de Paulo. A criança ficou pensativa por alguns momentos, e depois disse:
- Tu disseste que para arranjar um namorado era necessário gostar muito dessa pessoa, e que ela gostasse de nós. Eu gosto do Paulo, mãe. Nada me deixaria mais feliz, do que contar com ele como se conta com um pai. Eu sinto que ele gosta de nós. De mim, de ti. O problema é teu. Será qua gostas dele como dizes que é preciso?
Amélia ouviu o filho, espantada com a sua lógica. O seu menino estava a demonstrar-lhe que tinha crescido. Com os olhos rasos de água abraçou a criança.
- Sim, filho, a mãe gosta dele. Não sei como aconteceu, conhecemo-nos há tão pouco tempo, mas encantei-me com o seu jeito, a sua gentileza, a maneira como te trata, e até com os sentimentos que descobri nele, nestes dias.
- Então, mãe, não há problema. Suponho que casarão em breve, e podemos enfim ser uma família.
Paulo ficou encantado, quando depois de Martim ir dormir, ela lhe telefonou, e contou a conversa que tiveram 
No dia seguinte depois, de ter estado uma hora com Pedro, dando-lhe dicas que podiam ser importantes para a defesa que estava a elaborar, dirigiu-se ao gabinete que partilhava agora com Carlos e pô-lo ao corrente do desejo do cliente em doar metade da propriedade. Carlos que a olhava curioso, por a achar diferente naquela manhã, perguntou-lhe:
- Como sabes tu disso? Não me digas que passaram juntos, o fim-de-semana.
-É claro que não, mas encontrámo-nos sim. Ou melhor o Martim encontrou-o num passeio na quinta da avó. Sabes que ele é vizinho da avó Maria?
- Muito me contas. E então ele pediu ao Martim para te dizer que desejava doar metade da quinta?
- Não brinques, é sério. É claro que nos encontrámos depois. E que o adverti de tudo o que devia em relação a essa doação, mas ele está seguro do que quer. A pessoa a quem quer beneficiar, é o seu caseiro, que na verdade, ele considera como irmão de criação, já que foram criados juntos lá mesmo na fazenda, que segundo diz era nesse tempo, bem mais pequena. Eu disse-lhe para procurar os documentos de propriedade, para que pudéssemos agendar a doação e os novos registos de propriedade. O problema é que ele gostaria de ter tudo pronto para o dia dois de Maio, porque o beneficiado, faz anos nesse dia, e ele queria dar-lhe essa posse, como prenda de aniversário.
- Dia dois? Mas temos apenas dez dias úteis até ao dia dois. Vou dizer à Margarida que lhe telefone, ou queres fazê-lo tu?
- Diz. Eu telefono.
- Bem me queria parecer. Até tiraste a aliança. Grandes progressos. “Não brinques com isso, Carlos. É apenas um conhecido que me ajudou a mudar o pneu” – disse tentando imitar a voz de Amélia e lançando a seguir uma gargalhada.  Estou a ver que o chefe tanto esperou para te fazer sócia para acabar por te promover, quando te vai perder. E mais, vai perder um dos seus melhores clientes.
- Porque dizes isso?
- Ora, não te lembras do que ele disse de ter os advogados nos seus próprios escritórios, trabalhando em exclusivo com ele?
-Achas que me vai propor isso?
- Ó não. Acho que te vai propor casamento. O resto vem por acréscimo. Telefona lá ao homem e diz-lhe que traga todos os documentos da propriedade esta tarde. Não temos tempo a perder.



Aqui podem ver a netinha que hoje fez 9 anos, bem como os dois bolos de aniversário para as duas festinhas que lhe foram dedicadas

2.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXV








- Então, filha, porque não convidaste o jovem a entrar. O Martim veio todo contente, dizer que tu autorizaste que eles fossem juntos ao jogo.
- E onde está o Martim, avó?
- Lá em cima no quarto. Trazia um livro, disse que ia ler. Mas… agora reparo. Onde é que está a tua aliança?
- No fundo do rio.
- Viva! Foi esse rapaz que conseguiu o milagre?
- Não foi o que me disseste para fazer, quando ia a sair de casa? Pois fiz-te a vontade.
- Vou fingir que acredito. Mas diz-me: Como é esse rapaz? É que o teu filho, fala dele com um entusiasmo que muitas crianças não têm pelo próprio pai. Sempre é o sobrinho do falecido António?
-É. Sobrinho, único herdeiro, jovem, atraente e muito rico. Chega para a tua curiosidade?
- Caramba Amélia, dizes isso como se estivesses com raiva do pobre rapaz. O que é que ele fez? Ignorou-te? Se assim é deve estar a precisar de óculos.
- Nada disso, avó. É que me irrita que de repente os meus amigos, a minha avó e até o meu próprio filho,  queiram à força que arranje um namorado. E como se isso não chegasse, cai-me do céu um homem que mexe comigo e me faz pôr em causa, tudo o que acreditei como certo até agora.
- Bom se admites que o rapaz mexe contigo, isso já me dá esperanças de te ver amparada antes de fechar os olhos. Só não entendo porque não o mandaste entrar.
- Porque ele convidou-nos a passar o dia na sua quinta, amanhã. Além disso praticamente se declarou. E eu precisava pensar em tudo o que me disse, antes de me decidir, e não queria ser pressionada. Importas-te de dizer ao Martim que venha jantar. Vou pôr a mesa, e aquecer a comida.
- Eu vou. Mas não penses que te escapas assim. Continuamos  esta conversa mais tarde.
Durante o jantar, Martim falou pelos cotovelos como soe dizer-se.  Estava entusiasmado com o encontro com Paulo e com a perspetiva de ele o acompanhar na festa da escola. Era incrível como em apenas dois encontros a criança se apegara aquele homem. E mais estranho ainda que da parte de Paulo, houvesse o mesmo carinho. Como se os dois já se conhecessem de qualquer lado.
De vez em quando avó e neta trocavam olhares. Era como se mantivessem uma conversa muda, mas que versava a admiração que o facto causava nas duas.
- O Paulo convidou-nos a passar o dia amanhã com ele. O caseiro tem três filhos, gostarias de os conhecer? – Perguntou Amélia.
- Claro que sim, mãe. E vamos todos? Também a avó e o Rex?
-Todos menos o Rex. Não sabemos os animais que há na quinta, não vamos criar confusão.O Paulo vem-nos buscar às onze horas. Agora vai escovar os dentes e vai para a cama. A mãe já lá vai dar-te um beijo



1.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXIV






Estavam parados, junto da porta da casa da avó da jovem. Ela estendeu-lhe a mão, que ele apertou entre as suas.
- Obrigado pela companhia e por me teres escutado. Foi uma tarde muito agradável. Convido-vos a passarem o dia amanhã, lá em casa. Gostava de te mostrar a propriedade, apresentar-te ao Alfredo e a família. De certa maneira eles são a família que me resta. E tenho a certeza que o Martim, vai gostar de brincar com os filhos dele.
- Não será possível. Viemos passar o fim-de-semana com a avó, não tem jeito deixá-la sozinha.
- E porque havia de ficar sozinha? Não te disse que ela tinha ganho a minha admiração? – Perguntou sorrindo. Venho buscar-vos às onze horas, pode ser?
- Mas nem sei se a avó quererá ir.
- Convidas-me a entrar e eu pergunto- lhe.
-És sempre assim tão persistente?
- E tu, és sempre assim tão medrosa?
-Não é medo.
-Não?- Interrogou arqueando uma sobrancelha.
- Tens razão, - confessou. Assusta-me pensar que há meia dúzia de dias não te conhecia, e que de repente tornaste-te íntimo do meu filho, assusta-me pensar que ele se apegue demasiado a ti, assusta-me verificar que parece quereres invadir a minha vida, os meus sentimentos.
- E meto-te medo. Ou melhor, tens medo do que possas vir a sentir por mim. Agora que já não sentes a proteção daquela bendita aliança, tens medo de ser traída pelos teus sentimentos.  Vou-te ser muito sincero. Tenho trinta e oito anos. Até hoje tive duas grandes paixões. A pintura, e a minha mota. Mulheres? Claro que tive. Muitas, nem poderia ser de outra forma, sendo um homem jovem e saudável. Aventuras de poucos dias. Nunca nenhuma me fez pensar numa relação séria, nunca nenhuma me despertou o desejo de partilhar com ela, mais do que alguns momentos agradáveis na cama. Jamais senti a vontade de ter uma família até que te conheci, naquele dia na estrada. Encantei-me convosco e tive inveja do homem que vos tinha por família. Ali, no momento em que peguei o Martim nos braços para o colocar na moto, desejei de todo o coração ser esse homem. Foi uma coisa estranha, um sentimento sem explicação. Por respeito, tentei afogar esse desejo. Sempre respeitei as mulheres casadas, e acreditei que o eras. Agora que sei que não és, não me podes impedir de lutar para te conquistar. Gosto do teu filho e ele parece gostar de mim. Tenho a certeza de que posso vir a ser um ótimo pai para ele. E um marido apaixonado, capaz de te fazer esquecer todas as desilusões que já sofreste. E agora, que já me conheces, convidas-me a entrar para conhecer a tua avó?
- Por favor, Paulo. Não me pressiones. Já me basta, a confusão em que me encontro, o desassossego que me fazes sentir. Há anos que não tenho nenhuma relação ou contacto amoroso. A avó vive pressionando-me para dar uma nova oportunidade ao amor. Ultimamente até o Martim, a propósito da companhia para o bendito jogo da festa, me perguntou porque não arranjava um namorado. Tens o meu número. Liga-me logo à noite. Mas por favor, agora vai.

Continuando a visita ao Museu de Alcobaça, temos hoje mais um post AQUI

29.1.18

O AMOR É... UM COMBOIO - PARTE XXI


- As voltas que a vida dá. Quem me diria quando os encontrei na estrada que eramos quase vizinhos. Trouxe um livro para o Martim Não sei se ele gosta de ler, ou se já o leu, mas é um livro que me apaixonou quando tinha mais ou menos a idade dele.
- Muito obrigada. Ele chegou a casa a dizer que o Paulo se tinha oferecido para o acompanhar no torneio de futebol da escola.
- Terei muito gosto, nisso, se claro tiver a sua aprovação.
Como se tivessem combinado, Martim e o seu amiguinho de quatro patas, encetaram uma corrida pelo campo, perto das margens do rio. E os dois jovens seguiram-nos passeando e conversando.
- Faria mesmo isso pelo Martim?
- Claro que sim. Não sou político, não faço promessas só para ficar bem na fotografia, ou ganhar votos. Notei que estava triste e perguntei-lhe a razão. Gostei do seu filho, logo que o vi. Há qualquer coisa nele que me faz recordar de mim mesmo, em miúdo. Perguntei-lhe porque o pai não o acompanhava, e ele disse-me que o pai tinha morrido. É verdade?
-  O Martim sabe que sou viúva. 
Ele parou. Pegou na mão de Amélia e disse fitando-a:
- Viúva? Mas… e esta aliança? Pensei que era casada.
Amélia retirou a mão, e tentando disfarçar, gritou para o filho que não queria que se afastasse tanto.
-Ah! Percebo, -disse ele sorrindo. É o escudo que defende a Princesa do ataque dos dragões. Porquê, Amélia?
- Não percebo.
-É claro que percebe. Trás essa aliança para afastar possíveis pretendentes. Eu mesmo, nunca os teria deixado ir, sem conseguir  um contacto que me permitisse voltar a vê-la, se não fosse essa aliança. Porque deve ter percebido que simpatizei consigo desde que a vi. Felizmente para os dois, o destino parece querer juntar-nos. Primeiro, descubro que é a minha advogada, e agora que somos vizinhos.
- Com a morte do meu marido, descobri a sua traição. Foi um sofrimento muito grande, perdi a fé nos homens, e jurei a mim mesma, que nunca mais ia ser traída. Por isso tenho usado isto, sim, como um escudo.
Calou-se surpreendida com o que tinha acabado de confessar. Ela nunca reconhecera aquela verdade, nem para si própria.
- Mostre que é uma mulher de coragem, e faça um favor a si mesma. Tire essa aliança e jogue-a no rio.
- Engraçado, há duas horas atrás, a minha avó disse-me o mesmo.
- A sua avó acaba de ganhar a minha estima, - disse ele sorrindo
Pensativa Amélia rodou a aliança no dedo por alguns segundos. Depois decidida, tirou-a e lançou-a para a parte mais profunda do rio..

  

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XX


Depois do almoço, Martim foi para o quarto fazer os TPC. Amélia arrumou a cozinha e depois avó e neta sentaram-se na sala. A jovem estava nervosa, com a ideia de voltar a ver Paulo. Há tantos anos que não tinha nenhuma espécie de convivência com o sexo oposto, a não ser claro as relações estritamente profissionais, que se sentia sem jeito. Depois, Paulo era um homem bonito, com uma figura tão marcadamente masculina, que ela sentia-se insignificante.
Com os óculos na ponta do nariz, e o tricô no regaço, a avó observava-a disfarçadamente. Ela nunca compreendeu, o isolamento a que a neta voluntariamente se submetera depois da morte de Afonso. Uma rapariga na plenitude da vida, jovem e bonita, com uma boa profissão, renunciar ao amor, era na sua opinião contra natura. E já se tinham passado quase doze anos, depois que ficara viúva.
- Que se passa, Amélia? Estás nervosa?
- Porque havia de estar?
- Não sei, diz-me tu. Já te levantaste e sentaste uma meia dúzia de vezes. Abriste o livro e voltaste a fechá-lo. Ligaste e desligaste a televisão, E não páras de rodar essa maldita aliança. Porque não aproveitas o passeio e a jogas ao rio?
- Tu, a Teresa, e o Carlos. Porque é que de repente, toda a gente quer que eu tire a aliança?
- Porque gostamos de ti, e vemos os anos a passar e tu a deixares que a vida passe por ti sem a aproveitares. O Martim já vai fazer dez anos. Daqui a pouco é um homem, cria asas e faz o seu próprio ninho. E o que te resta depois? Os netos? Nem isso é certo, ele pode ir viver para longe. Pensa nisso, filha. E se esse rapaz se interessar por ti, dá uma nova oportunidade à tua vida.
Amélia não teve oportunidade de responder, porque o filho apareceu na sala com os TPC, para a mãe ver, se estava tudo bem.
Verificou os trabalhos do filho, e devolveu-lhos. Depois lancharam e por fim saíram para o passeio em direção ao local onde Martim combinara encontrar-se com Paulo.
Ele já se encontrava sentado no mesmo sítio, onde estivera pela manhã. Vestia umas calças de ganga, já bastante gastas pelo uso, e uma camisa preta, cujas mangas se mostravam arregaçadas até ao cotovelo. Calçava ténis e na mão tinha um livro. As aventuras de tom Sawyer, de Mark Twain.
- Boa tarde, - saudou Amélia, estendendo-lhe a mão
- Boa tarde, - respondeu ele sem deixar de a fitar, enquanto retribuía o cumprimento. Foi uma surpresa encontrar aqui o nosso campeão, esta manhã.
Amélia sentiu que todo o sangue lhe subia ao rosto e amaldiçoou-se por isso. É que a palavra “nosso”, que ele pronunciara com tanta naturalidade, de repente teve para ela um cunho de intimidade tal que despertou a sua imaginação.
- Há anos que passamos aqui quase todos os fins-de-semana, e as férias. O Martim gosta desta liberdade de espaço, adora andar por aí com o Rex, e fazemos companhia à avó, que está muito sozinha e já é bastante idosa.

22.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XII





- Não brinques com esse tipo de coisas, amigo.
- Penso que a Teresa tem razão. Devias dar sumiço nessa aliança. É verdade que o Afonso foi um crápula, mas tu melhor que ninguém sabes que é injusto julgar todos pela mesma bitola. Além de que onze anos, é tempo mais do que suficiente para esqueceres e virares a página. És uma mulher muito bela, és uma profissional competente, e uma mãe extremosa. Mas pergunto-me se isso é suficiente para uma mulher jovem e saudável como tu. Desculpa se me estou a meter onde não devo, mas tanto eu como a Teresa gostamos muito de ti. Deves lembrar-te como te apoiamos e defendemos no escritório, quando fizeste a inseminação menos de um ano depois de teres ficado viúva. Talvez porque a vida não quis dar-nos a alegria de sermos pais, e tu tens idade de poderes ser nossa filha, sentimo-nos um pouco como se realmente fossemos da família. Falamos muitas vezes de ti e pensamos que deves sentir falta do abraço de um homem. E depois há o Martim. Não achas que ele sente a falta de um pai? O teu irmão, sempre foi muito independente, nunca fez muita companhia ao menino, e depois que casou, então nem deve aparecer na vossa casa, para ver como estão. Segue o nosso conselho, Amélia. Deita fora essa aliança e dá uma nova oportunidade a ti mesma. Olha, a Teresa sempre diz, que a vida é como um comboio. Durante anos vai passando por ti, e nem lhe ligas. Mas na maioria das vezes quando te decidas a apanhá-lo, é tarde demais, já desativaram a linha.
- Vou pensar nisso, Carlos, mas não prometo nada. Está quase na hora de saída do Martim, se não precisas de mim, já nem entro. Por favor dizes ao Pedro que guarde tudo, e que amanhã de manhã eu vejo o que ele precisar?
- Vai descansada. O dia hoje foi complicado. Amanhã depois de verificares o trabalho dele, vai ter comigo. Temos muitas coisas para analisar. Dá um beijo ao Martim.
- Obrigado por tudo. A ti e à Teresa. Nós também gostamos muito de vocês.
Saiu do carro do amigo e colega e dirigiu-se ao outro lado do parque onde estacionara o seu veículo.
Não sabia o que se passava com ela, mas de há uns tempos a esta parte trazia um grande desassossego no corpo e na alma.
Pôs o carro a trabalhar, e arrancou em direção à escola do filho, enquanto recordava o que os amigos lhe tinham dito. Há onze anos que tinha ficado viúva e nunca mais tinha tido nenhuma relação. O trabalho e o amor do filho preenchiam por completo a sua vida. Então porque é que ultimamente se sentia tão desassossegada? Seria uma questão hormonal?
E tudo tinha piorado, desde que no fim-de-semana, tinha encontrado Paulo Guerra. Aquele homem perturbara-a. O seu olhar, poisava nela, de uma forma atrevida, como uma carícia. Ou então era a sua imaginação  que lhe pregava uma partida. E por ironia do destino, era ela quem ia cuidar dos interesses jurídicos dele.



19.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE IX







Carlos saudou a esposa com um beijo breve.
- Boa tarde, querida. Olha quem trouxe para almoçar connosco.
- Espero que não te importes, - disse Amélia.
- De modo algum, fico feliz de que o Carlos tenha conseguido arrancar-te à tua vida de reclusão. Vamos sentar-nos?
Escolheram uma mesa um pouco afastada e sentaram-se.
- E como vai o teu pequeno Príncipe? Não o vejo desde que há dois anos esteve na festa da minha sobrinha-neta. Deve estar bem crescido, as crianças agora parecem crescer mais depressa do que no nosso tempo.
- Está realmente crescidinho. É um bom menino, muito inteligente, é o melhor aluno da turma e quase não abre os livros.
- Sabes, com a minha reforma, a Amélia vai finalmente ser promovida. Vai ficar com a minha quota, e o meu lugar.
- Aleluia! Só por isso já valeu a pena pedires a reforma antecipada.
-Penso que foi mesmo por isso, - disse Amélia. A ideia do chefe devia ser preparar o Pedro para ocupar o lugar do teu marido. Com esta antecipação ficou como o povo diz, no mato sem cachorro. Não pensas o mesmo, Carlos?
- É claro que sim. Ele sempre pensou que ao deixar-te para trás nas promoções, tu pedirias a demissão. Mas tu aguentaste firme, és uma excelente profissional, bem melhor do que alguns que te ultrapassaram, e ele não pôde despedir-te. Palavra que nunca entendi como um homem tão sensato e liberal como era o seu pai, pode ter tido um filho com ideias tão retrógradas e discriminatórias.
Calaram-se com a aproximação do empregado. Fizeram os pedidos e só depois que ele se afastou, Teresa perguntou:
- Nunca mais vais tirar essa aliança, Amélia? Desculpa a pergunta, mas conheço-te há mais de dez anos. Deves lembrar-te que eu era a secretária do senhor Sousa e que estava a teu lado quando soubeste da morte do teu marido. Despedi-me e mudei de emprego quando o Carlos foi promovido, mas ainda acompanhei a tua gravidez. Ambos temos um grande carinho por ti, e não gostamos de ver que te fechaste para a vida e para o amor.
- Sei. Também gosto muito de vocês e espero que a reforma do teu marido, não signifique um afastamento total. Tenho a certeza de que vou precisar dos conselhos do Carlos. Quanto à aliança ela defende-me de alguns atrevidos. O amor não se fez para mim, Teresa. Casei tão apaixonada que teria dado a minha vida pelo meu marido. E o que é que ele me deu em troca? Traição. Nunca mais quero passar por esse sofrimento.
- Credo, mulher, pareces uma velha a falar. Sabes o que a minha avó costumava dizer? A nódoa de uma amora verde, com outra amora, se tira, que é como quem diz, o sofrimento de um mau amor, com outro amor se esquece.
O empregado aproximou-se com os pratos, e o resto da refeição decorreu de forma amena, como se os três desejassem pôr ponto final nos assuntos pessoais.


15.1.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTEV


Martim observava a potente moto negra, completamente fascinado.
Enquanto isso, Paulo observava-o. Não pode deixar de reparar no brilho de admiração nos olhos negros do menino. Também na cor negra dos seus cabelos e na pele morena. Pensando que não se parecia em nada com a mãe voltou-se para Amélia.
- Vê-se que o seu filho, gosta de motas.
- Muito. Desde bem pequenino, sempre as preferiu, em detrimento de outros brinquedos.
De súbito, Paulo baixou-se, pegou em Martim e sentou-o na mota.
- E então, campeão, qual é a sensação? -Perguntou ao menino.
- Uma maravilha. Um dia, ainda vou ter uma assim, mãe.
- Falamos nisso quando chegar esse dia, Martim, - respondeu a mãe com um sorriso.
- Devias experimentar, sentar-te aqui, - disse o garoto
- Deus me livre e guarde. Essas coisas metem-me medo. Agradece ao senhor, estamos a atrasá-lo. Vamos embora.
Paulo agarrou o menino e voltou a poisá-lo junto da mãe. Fez-lhe uma festa na cabeça e disse:
- Gostei de vos conhecer. Não se esqueça que tem que levar o carro à oficina. O pneu sobressalente só serve como um remedeio para seguir viagem.
-Não esquecerei, como não esquecerei a sua ajuda. Muito obrigado, - disse Amélia estendendo-lhe a mão que ele se apressou a apertar.
Com o toque, a mulher sentiu que o seu coração se alterava, e sem poder suportar o olhar penetrante dele, desviou o olhar, sentindo o rosto afogueado pelo rubor.
Paulo pensou que aquela mulher era muito interessante, e que gostaria de a conhecer melhor. Abanou a cabeça, como se assim afastasse aqueles pensamentos. Afinal a mulher usava aliança, portanto era casada e tinha um filho, não era pessoa em quem ele pensasse para uma aventura. Ainda que as pessoas pensassem, que era um aventureiro, que nada levava a sério, ele sempre respeitara as mulheres casadas. Soltou-lhe a mão, dizendo:
- Podem seguir viagem. Eu vou atrás de vocês até à cidade, para o caso de precisarem de ajuda novamente.
- Mais uma vez muito obrigado. Vamos Martim, daqui a pouco é noite.- Disse Amélia, pegando a mão do garoto e encaminhando-se para o carro.
Ligou o motor e o veículo arrancou e passou por Paulo que já se encontrava sentado na sua potente Kawasaki.
Uma hora mais tarde, entrava na cidade. Paulo que seguira sempre atrás do carro, acelerou então, fez um aceno de despedida ao passar pelo carro e seguiu por uma rua à direita. Amélia continuou em frente em direção ao centro, e à sua casa.