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27.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXIV


 

 -Venha Anabela, antes de apresentá-la ao meu sobrinho, gostaria de lhe mostrar a sala de tratamento que eu e o meu irmão montámos para as sessões de fisioterapia – disse abrindo uma porta e dando-lhe passagem.

A jovem entrou e parou maravilhada. A sala era maior do que esperava, e dentro dela havia sido montado tudo o que poderia usar nas suas sessões, uma marquesa, recipiente para os calores húmidos, aparelhos de ondas curtas, de ultrassons, botas de pressoterapia, um armário com toalhas, cremes e óleos analgésicos e de massagens. Também barras de alongamento na parede e barras paralelas com base antiderrapante para começar a andar. Em cima de uma pequena mesa, uma agenda com o programa de tratamentos iniciais. Maravilhada, voltou-se para o médico e disse:

-Isto é uma autêntica maravilha. Não falta nada para a recuperação do doente. Assim ele tenha vontade de se curar.

-Vejo que está satisfeita com as condições da sala. Esta era a sala de espera, para os doentes, pois o Tiago esperava dar aqui consulta gratuita, aos doentes mais necessitados, aqueles cujos recursos são tão baixos que evitam a ida ao médico. Claro isso seria apenas no intervalo das suas estadias nas regiões mais inóspitas de África ou Asia, onde algumas ONGS atuam.

 Infelizmente nesta última missão o centro onde trabalhava foi praticamente devastado e ele viu morrer alguns dos seus companheiros, o que o deixou tão mal como as próprias lesões. Depois, ao recuperar a consciência, a noiva rompeu o compromisso no próprio hospital, quando o foi ver,  o que o tornou ainda mais amargo.

Tenho de a avisar que já lhe falei de si e ele não se mostrou minimamente interessado, em cumprir com nenhum tratamento. Parece ter perdido a vontade de viver. Mas como já lhe disse, acredito em si e na sua força de vontade para mudar as coisas. Sei que se alguém pode tirá-lo do fundo do poço onde está, esse alguém é a Anabela.  E agora, vamos vê-lo?

Anabela apenas anuiu com a cabeça. Estava emocionada. Pelo que o doutor Azevedo dizia, Tiago era um herói. Um herói destroçado, com corpo e alma em ferida, mas ainda assim um homem admirável. E ela apercebia-se que ia teria pela frente o maior desafio da sua vida. E naquele momento prometeu a si mesma, que se os médicos diziam que o doente poderia voltar a andar, ela o faria andar ou abandonaria a sua carreira de enfermeira-fisiatra.