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29.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XX




O Natal desse ano, não teve o brilho nem o esplendor daqueles que Sara  organizava, mas em compensação o calor humano esteve sempre presente. Nele estiveram presentes, além de Gil, os seus irmãos, Marco com Isabel e os futuros sogros, Laura com Alcides, cuja amizade parecia desviar-se para dar lugar a outro sentimento, a julgar pelos olhares que trocavam entre si. Estavam também à mesa, Celeste, a empregada que estava na casa há mais de dez anos, viúva, cujos filhos se encontravam emigrados, e Inês e o seu filho, o pequeno Luís, um garoto moreno e franzino, que parecia estar sempre em sobressalto como se temesse algo.
Odete, que tinha sido despedida por Sara, e fora reintegrada depois do acidente, e Maria, tinham tido licença para passarem o Natal em casa com as respetivas famílias.
Mariana que saíra do hospital dois dias antes, dormia docemente no seu quartinho, depois de ter tomado banho e bebido todo o leite do biberão.
Pelas vinte horas, o pessoal do restaurante onde Gil encomendara não só a Ceia de Natal, mas também as refeições do dia seguinte, vieram fazer a entrega, e Celeste ajudada por Inês, (que desde que tinha o filho consigo parecia outra pessoa e ganhara de imediato a confiança das restantes empregadas) puseram a mesa.
A ceia, decorreu, pois, num ambiente de fraternidade. Durante ela, Marco e Isabel disseram que pensavam casar no primeiro domingo de Março, do ano seguinte. E Gil informou que tinha aceitado, a proposta de venda dos direitos do seu primeiro livro "Almas Sombrias" para o cinema e que por isso viajaria logo a seguir ao Ano Novo para Nova Iorque, onde se ia reunir com um famoso guionista, que iria transformar a história do livro no guião para o filme.
-Custa-me muito separar-me da minha filha tão pequenina, mas é impossível viajar com ela. Vou conversar com o guionista, saber como ele pretende fazer a adaptação e iniciar o trabalho com ele. Espero estar fora no máximo uma semana. Depois de termos elaborado o projeto poderei analisar e acompanhar o seu trabalho via Internet. Se por algum motivo a estadia se prolongar vou voltar no fim de semana a fim de estar com ela um ou dois dias. E estarei convosco todos os dias por video chamada. A escritura do prédio para a futura Fundação está marcada para o dia vinte e oito e o doutor Alcides tratará imediatamente de contratar a empresa que combinamos a fim de iniciar as obras do projeto que já aprovei. Há umas pequenas alterações com a sala para consultas, mas isso deixo com a Laura que percebe mais de uma sala de consultas do que eu. Ela tratará com o arquiteto. Quero aquilo pronto o mais rápido possível.
- E como se chamará a Fundação? – perguntou a irmã.
- Mariana Gaspar – respondeu Gil emocionando os irmãos, pois todos comungavam da mesma devoção, pela mulher que lhes dera a vida e que tanto sofrera para os criar.
- Laura, tu estarás aqui em casa enquanto eu estiver fora, ou vais para o teu apartamento? – perguntou um pouco mais tarde.
-É claro que estarei aqui durante a tua ausência, exceto claro o tempo que estiver no hospital, pois como sabes vou começar a trabalhar dia dois de Janeiro.
- Obrigado. Fico mais descansado, contigo aqui, não porque não confie em vós, - disse voltando-se para Inês e Celeste. – Mas as crianças nestas idades adoecem com facilidade, e é sempre bom ter uma médica perto.




E com o comentário do Esteban chegamos aos 44.000 

6.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE X



-Adiante, lembras-te daqueles livros que te ofereci, e de  me teres dito quando leste o primeiro, que o autor parecia estar a descrever a nossa história?  Pois é mesmo a nossa história e o autor é este teu irmão.
- O quê? Tu és o misterioso Nuno Alvarez?
- Esse é o meu pseudónimo.
- Mas porquê? Porque não usaste o teu nome? – perguntou Marco admirado.
- Por duas razões. A primeira é que queria manter-me no anonimato. Assim se as obras fossem um sucesso, ninguém diria que o eram pelo meu passado de futebolista famoso, e se fossem um fracasso, também ninguém me diria que era um sapateiro a querer tocar rabecão, como dizia a nossa mãe. Segundo, sabes como a Sara era. Se soubesse do meu êxito literário, ia querer que frequentasse festas, que desse entrevistas, enfim que me tornasse numa estrela, junto da qual ela pudesse brilhar. Sabes que não sou, nem nunca fui assim. Depois o facto de a minha agente ser espanhola, e viver entre Paris e Nova Iorque, ajudou-me a manter o segredo. Coisa que não sei se conseguirei continuar a manter, uma vez que recebi uma ótima proposta para vender os direitos do “Almas sombrias” para o cinema.
- Bom, isto é que foi uma surpresa. E vais continuar a escrever?
-Enquanto a inspiração me deixar, sim.
Nesse momento foram interrompidos por Isabel a secretária.
- Desculpem, mas acaba de chegar o doutor Alcides.
-Mande-o entrar – disse Gil.
Ela retirou-se e segundos mais tarde, introduzia o advogado no escritório.
- Bons dias – saudou o recém-chegado, estendendo a mão para cumprimentar os dois irmãos.
- Bom dia - responderam em uníssono.
Depois do habitual cumprimento, Gil disse:
- Por favor, sente-se doutor.
- Desculpem-me, mas tenho trabalho na loja, - disse Marco encaminhando-se para a porta. - Se precisares de mim, chama-me.
-Está bem. Por favor diz à Isabel que nos sirva um café.
Marco saiu fechando a porta atrás de si.
- Bom doutor - começou Gil. - Pedi esta reunião, porque tenho várias instruções para lhe dar. Preciso que trate dos documentos necessários para que eu possa passar  a minha parte nesta empresa para o Marco. Não só desta loja, mas também da filial do Porto. Trata-se de uma doação, não de uma venda. Não tenho tempo para isto, e o meu irmão merece. Como sabe espero o nascimento da minha filha a qualquer momento e com o seu nascimento,  a minha vida ainda se vai complicar mais, pelo menos a nível de tempo.
- Lamento o que aconteceu com a sua esposa, - interrompeu o advogado. – Tão jovem, e ainda mais grávida! Este mundo está cada dia mais violento. Já apanharam os culpados?
-Não. A polícia não encontrou rasto do carro, e isso torna mais difícil chegar aos culpados.