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15.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE X




Finalmente esboçou um sorriso, e disse:
- Conheci a tua mãe, ainda ela namorava o teu pai. Era muito bonita. Sais a ela. Chega aqui filha, dá-me um abraço. E sê bem-vinda à família.
A jovem aproximou-se, abraçou a senhora e depositou dois beijos na sua face enrugada.

Conversaram sobre a viagem e quando se despediam, a tia disse:  
- Vem lanchar comigo amanhã, filha. Gostava que me falasses da aldeia, do meu irmão, e dos meus sobrinhos. Tenho para mim que nunca mais os vou ver.
- Não digas isso, tia. Quando estiveres melhor, vão de férias. Escusas de arranjar desculpas, com o restaurante, que eu dou conta do recado.

- Quando se chega à minha idade, as melhoras só vêm com três badaladas e, -sacudiu a mão como se com aquele simples gesto afastasse algo invisível, talvez quem sabe um mau pensamento, - bom deixemos isso que hoje é um dia de alegria, e vós tendes coisas melhores para fazer do que companhia a uma velha. Vão lá jantar, e não te esqueças, que te espero amanhã para lanchares comigo.

Despediram-se beijando de novo a senhora e saíram. 
-Agora vamos à cozinha cumprimentar o tio, -- disse o jovem enquanto desciam as escadas.
Deram a volta ao edifício e entraram na cozinha. Sofia arregalou os olhos de espanto. Nunca tinha entrado numa cozinha de restaurante e achou-a enorme.
Um senhor de idade, deixou ou dois jovens junto do fogão e dirigiu-se a eles. Mais uma vez Sofia sentiu-se observada da cabeça aos pés. Depois o senhor sorriu.

-Tio, esta é Sofia, a minha mulher. E este é o tio Joaquim - apresentou-os Quim.
-És muito bonita! Não te dou um abraço para não te sujar, - disse-lhe sorrindo ao mesmo tempo que lhe estendia a mão.
- Muito trabalho, tio? Precisas de ajuda?
- Não. Vão lá jantar e depois vai para casa que deves ter muito que conversar com a tua mulher, - disse piscando o olho a Quim.

A jovem baixou o rosto, tentando esconder o rubor.
Um dos jovens ajudantes chamou o chefe e ele despediu-se com um aceno.
Saíram e voltaram a entrar desta vez pela porta do restaurante. Todas as mesas estavam ocupadas, exceto uma junto à janela, onde se via um retângulo com a palavra, Réservé.

Quim conduziu-a por entre as mesas até lá. Puxou a cadeira para que ela se sentasse. 
Enquanto aguardavam a chegada da lista, ela entabulou conversa.
- São muito simpáticos os teus tios. Mas são bem mais idosos do que eu pensava. Disseste que não têm filhos?


 


14.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXVIII




“Senhor, vós sabeis que eu não sei orar. Nunca ninguém me ensinou, como dirigir-me a Ti, mas sempre ouvi que Tu sabes o que vai nos nossos corações. Acredito que assim seja, afinal somos obra Tua. 
Assim sendo, sabes o que a minha mãe fez. Quero dizer-Te que lhe perdoei, e não lhe guardo rancor. Não Sejas muito severo com ela, que já expiou na terra o seu pecado, porque como Sabes, nunca foi feliz.
Senhor, quero agradecer-Te pelo tio que me deste, e pedir- Te que alivias a sua tristeza e a sua dor. E acreditando que Jorge Noronha, é o meu pai, também Te quero dar graças por tê-lo encontrado e por ele ser a pessoa  integra e digna que é. Obrigado meu Deus.
Senhor; quero ainda falar-Te de um homem que conheci há dias e que não me sai do pensamento. Nunca tinha conhecido ninguém que me impressionasse tanto. Como decerto não vou voltar a vê-lo, Faz com que ele seja feliz e que eu o esqueça. Obrigado, Senhor.”
Ficou ainda uns momentos em silêncio olhando a imagem do Sagrado Coração de Jesus, como se esperasse ver algum sinal de que Deus a escutara. Depois persignou-se e abandonou o local. Desceu a escadaria, e olhou o largo e a rua que se seguia. Ao contrário de quando chegara, nos últimos dias de Agosto, em que a cidade fervilhava de gente a toda a hora, agora, terminadas as férias os emigrantes regressaram aos países onde ganhavam a vida, não se via naquele domingo ninguém nas ruas. É verdade que Setembro ia bastante quente, mas ainda assim uma semana antes havia muita gente pelas ruas.
Ali mesmo ao pé da Igreja, na rua do Coval, estava a Casa da Ribeira, um Museu Etnográfico, um espaço de memórias de outros tempos, outras gentes, outros saberes. Helena gostava muito de artesanato, não ia deixar de ver, tanto mais que a visita era gratuita. Encantou-se com as técnicas usadas na fiação e tecelagem do linho. Conversou com a artesã, que estava a tecer uma manta de trapos, num enorme tear manual. Viu como a peça que ela tecia ia crescendo, viu as fotos dos antigos barcos que traziam os romeiros para a Igreja de Nª Srª da Conceição, de onde ela saíra minutos antes. Aprendeu toda a técnica de trabalhar a lã desde a tosquia, até à fiação, passando pela lavagem, secagem, e cardação. Viu as almofadas com o pique e os bilros onde as rendeiras faziam a bonita e delicada renda, como demonstravam as fotos na parede, e também sobre uma mesa algumas rendas já feitas.
 Encantou-se também com os trabalhos de olaria expostos, e pelas fotos viu como era trabalhado o barro, a sua cozedura e todo o processo até finalizar a peça. E ainda belos trabalhos de cestaria, em vários objetos expostos.
Foram quase duas horas em que se esqueceu de tudo, menos do que via e aprendia. Como o Museu tinha uma secção de venda ao público, ela adquiriu uma miniatura de uma estatueta em olaria, que lhe chamara a atenção, como recordação daquela visita.



27.6.17

SONHO AO LUAR -PARTE XV




Hélder entrou em casa. Tirou o casaco que pendurou no bengaleiro, e olhou para todos os lados, analisando cores e móveis. Respirou fundo. A sua casa. Era a primeira vez que a via, desde que partira há dez anos. E estava bem diferente após a remodelação que sofrera há meses. Antônia à porta, olhava-o espantada. Como é que ele tinha vindo sozinho? E onde estava o cão?

25.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE XI

                                                       





E prefere os clássicos, ou autores contemporâneos?
- Pois, não sei. Há clássicos de que gosto muito, mas entre os modernos há autores excelentes. Como por exemplo, o Mia Couto, o João Tordo, Joaquim Pessoa, entre muitos outros.
- Sabe que sou escritor. Não utilizo o meu nome verdadeiro. Pelo que já viu do meu próximo livro, identificar-me-ia com algum dos seus autores preferidos?
- Sem dúvida que sim. Eu juraria que o senhor é Tomás Reis.
- Já lhe tinha pedido, para esquecer o senhor. Trate-me simplesmente por Hélder. Mas porque me associa a esse autor?
- Porque é um dos meus preferidos, li os quatro livros que publicou até hoje, e o estilo parece-me o mesmo.
- Folgo saber que o Tomás lhe agrada, - disse com um sorriso que lhe suavizou os traços do rosto. - Efetivamente, eu sou Tomás Reis.
- Mas porquê tanto mistério? Por causa da…