- Não podes ficar um pouco mais? Ainda temos um bom par de horas para acabar isto. – Disse ele quando viu que ela começava a arrumar a secretária.
- Terá que ficar para amanhã.
- Tens alguém à tua espera?
- E se tiver? O que é que isso tem a ver com o trabalho?
- Podíamos acabá-lo esta noite.
- Não faço serões. Mas se quiseres ficar, estás à vontade. Afinal a firma é tua. E tens aí todos os documentos. Até amanhã.
Pegou no casaco e na mala e saiu sem lhe dar tempo a responder.
Chegou ao carro ao mesmo tempo que a amiga.
- Estive toda a tarde a pensar em ti – disse Luísa, antes mesmo de pôr o carro a trabalhar. - Estiveram quase duas horas, juntos. Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu que está a analisar o perfil de competência e capacidade de resposta de cada um dos empregados. Especialmente dos chefes, e fiquei com a impressão que se os relatórios que pediu hoje não forem o que espera, vão rolar cabeças.
- Parece estar determinado a levantar a empresa. Isso é bom para todos. Arranjar novos empregos é cada dia mais difícil. Mas e foi só isso? Ainda não te reconheceu?
- Reconheceu-me no primeiro instante que me viu, ainda que fizesse os possíveis para me deixar na dúvida. Hoje foi diferente. Provavelmente porque estávamos sozinhos.
- Queres falar sobre isso?
- Não importa. Parecia querer falar do passado, talvez justificar o injustificável, mas não lhe dei margem para isso. Deixei bem claro que só poderemos falar de trabalho.
- E ele, aceitou?
- Penso que sim, - disse encolhendo os ombros. Pediu-me a pasta dos mapas de pessoal e levamos o resto da tarde a analisar o perfil de cada um.
Tinham chegada à porta de casa de Luísa e como sempre, Tiago já estava à porta com o filho e o afilhado esperando-as.
Cumprimentaram-se, beijou o filho, abriu a porta traseira do carro para o acomodar, instalou-se ao volante e arrancou com um aceno de mão para os amigos. Era aquela a sua rotina diária.
Conduzia devagar, aquela hora, o trânsito era sempre muito intenso, enquanto escutava o filho dizer todo feliz, que tinha sido escolhido para representar um dos Reis Magos, na Récita de Natal com que a escola ia encerrar as atividades do primeiro período, dentro de duas semanas.
