10.3.16

MANEL DA LENHA PARTE XXIX

        As filhas do Manuel com as coleguinhas. 

Em Outubro de 56 a segunda filha do Manuel foi para a escola. Agora ficava só o filho em casa pois ainda não tinha idade. Arménio, tinha um problema com a fala. Era um miúdo muito inteligente, que com terra e água, se entretinha em grandes construções, mas pronunciava mal as palavras,  Entendia toda a gente, mas poucos o entendiam a ele. Chamava as irmãs, Elvira, de Nebida, e Lourdes, de Nudes. E os pais, de Pachino e Machina. Mas havia outras palavras que saíam ainda mais arrevesadas, algumas autênticas asneiras.
Um dia a mãe, levou-o ao médico, que uma vez por semana ia à seca. Porém ele disse que só o tempo o poderia curar, se é que algum dia ficaria curado.
 Uma camarada lá na seca, (ali, mulheres e homens tratavam-se de camaradas, sem a conotação política que mais tarde se lhe atribuiu na política), disse à mãe, para meter o miúdo num fole ª), e correr sete freguesias, carregando-o no dito fole. Porque a mãe não acreditou na mezinha, ou porque não teria forças para carregar o miúdo, as sete freguesias que distavam muito umas das outras,  não o fez.  O certo é que faltava um ano para o catraio ir para a escola, e a sua linguagem era tão arrevesada que às vezes nem a própria mãe o entendia.
Também em Outubro chegaram os navios, e o trabalho na seca recomeçou. O miúdo ia para a seca com a mãe, e o tio, que tomara conta deles enquanto mais pequenos foi trabalhar também, até porque precisava de dinheiro para as suas coisas, e a irmã e o cunhado quase nunca o tinham para lhe dar.
Nesse mesmo ano, ainda Novembro não ia  a meio, um violento temporal abateu-se sobre a seca. O vento parecia ciclónico e as chuvas intensas, "varreram" a Azinheira. O barracão, ficou sem telhado, e a chuva encharcou tudo o que havia para encharcar. Felizmente que as duas meninas estavam na escola, e o pequenito tinha ido com a mãe para o trabalho. O Manuel também estava no trabalho bem como o cunhado, o que fez com que pelo menos não houvessem danos físicos.
Com pena do Manuel, que não tinha dinheiro para comprar e pôr um telhado novo, o Capitão mandou entregar-lhe telhas de lusalite, iguais às que cobriam os diversos armazéns, e o Manuel lá pôs o "telhado " com a ajuda do cunhado e de um amigo e vizinho. Foi uma trabalheira, mas à noite o barracão estava coberto. Apesar disso, nessa noite, todos dormiram no chão, enrolados em sacos de serapilheira, dos que serviam para ensacar o bacalhau, e que o gerente lhes deu, já que toda a roupa ficara encharcada, e até os colchões de palha de centeio teriam que ser esvaziados e a palha posta a secar ao sol
Pouco tempo depois, com a ajuda do cunhado, Manuel pode enfim comprar um leitão no mercado. Pôs um balde na malta dos homens para recolher os restos de comida, e levar para o porquinho.


ª) saco ou bolsa de couro

16 comentários:

✿ chica disse...

Que sorte as meninas não estavam em casa nem o menino, que estava com a mãe! Senão teria sido mais um problemão por lá! Gostando muito! bjs, chica

Laura Santos disse...

Outra filha já na escola, e que pena a deficiência na ala do irmã mais novo. E que temporal fez para levar telhados,vá lá que logo foi arranjado novo telhado!
xx

AC disse...

Memórias que deveriam ser lição, talvez as pessoas dessem mais valor àquilo que têm. E, mais do que isso, que interiorizassem que, para se obter algo, é necessário esforço para o conseguir.
A saga da sua família é exemplar, Elvira.

Um beijinho :)

Zé Povinho disse...

No meio da desgraça ainda tiveram alguma sorte...
Abraço do Zé

Crocheteando...momentos! disse...

Tempos nada fáceis!
Bj

Crocheteando...momentos! disse...

Tempos nada fáceis!
Bj

Odete Ferreira disse...

Acabei de ler uma série de capítulos. Obrigada, Elvira, pela partilha desta saga familiar, tão rica de pormenores que me são novidade e que me enriquecem. Ao mesmo tempo, entristece-me esta vida tão dura, afinal uma época ainda não tão distante como isso. Louvo este Manuel pela sua tenacidade e capacidade de ultrapassar os reveses da vida.
Parabéns, Elvira. Bjo :)

Pedro Coimbra disse...

Um sonho simples que se realizou.
Bfds

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Pois naqueles tempos não havia ainda os terapeutas da fala e para substituição dos terapeutas só mesmo as mezinhas.
Estou a gostar.
Um abraço e bom fim de semana.

Isa Sá disse...

a passar para acompanhar a história e desejar um bom fim de semana!

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

Mariangela do lago vieira disse...

Quanto mais você escreve, mais eu acredito que todos que passaram por algumas dificuldades, respeitam e valorizam à vida, e as coisas boas que ela nos oferece.
Linda história Elvira.
Abraços,
Mariangela

Renata Maria disse...

Que bom que as crianças não estavam. Muito bom te ler, Elvira.
Beijo*

Elisa Bernardo disse...

Andei um pouco ausente mas já me vim pôr a par :) A adorar..:)
Beijinho e resto de Bom Domingo
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

Fê blue bird disse...

Amiga Elvira:

Estive a ler os seus posts anteriores para me por a par da vida dura da família do Manel da Lenha.
Uma vida marcada pelas dificuldades da época e que marcou profundamente uma geração.
Ainda hoje a minha mãe, que teve também uma vida muito difícil, relata com emoção episódios da sua infância e juventude.

Um beijinho com o desejo de uma boa semana

Rosemildo Sales Furtado disse...

Como falei anteriormente, Deus fecha uma porta , mas deixa sempre uma janela aberta. O bom é que as coisas conseguidas com sacrifício são sempre mais gostosas.

Abraços,

Furtado.

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
UMA VIDA DE SACRIFÍCIOS.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/