Setembro chegava ao fim, todavia o sol brilhava quente e intenso a lembrar o Verão que há dias tinha dado lugar ao Outono.
Ricardo despiu o fato-macaco com que estivera a trabalhar
com um dos seus mecânicos numa limusina que tinha sido alugada para um casamento
dois dias depois, lavou as mãos, e encaminhou-se para o escritório.
Era um homem alto, delgado, de ombros largos e longas
pernas. Teria perto de quarenta anos, moreno de olhos cinzentos e cabelos
negros. Um homem muito interessante, uma presença forte, marcante. Era o dono da "Impala," uma empresa de carros de luxo, para aluguer, com ou sem motorista.
Empregava dez motoristas, quase todos também mecânicos, mas não raras vezes ele mesmo se
ocupava da verificação de alguma reparação mais complicada.
Era um empresário bem-sucedido, os seus motoristas eram
recrutados entre os melhores, e eram reconhecidos pela eficiência e educação.
Talvez por isso tinha tantos clientes fiéis.
Já no seu escritório, verificou primeiro o correio
eletrónico, e só depois as cartas que a sua secretária tinha colocado em cima
da mesa. Cartas do banco, faturas para pagar, recibos de contas pagas. Por
último uma carta dirigia a ele e não à firma. Ficou surpreso. Quem diabo lhe
escreveria e o que quereria dele? Olhou o remetente. Isabel Penha Sarmento. Não
conhecia ninguém com aquele nome. Bom, o melhor era abrir a carta e ver logo do
que se tratava.
Abriu o envelope, e retirou duas folhas de papel. A
primeira, escrita à mão com uma letra bem desenhada dizia:
“Caro Senhor:
Ricardo Souto Medina
Sei que não me conhece e decerto estará a pensar que lhe
estou a roubar o tempo, que lhe é tão precioso por nada. Acredite que me custa
imenso fazê-lo. Protelei esta carta durante dez meses, mas prometi a alguém que
conheceu bem, mas que já partiu, que o informaria de que o senhor foi pai de uma
menina em Junho do ano passado. Junto a cópia da certidão de nascimento da
menina, e verá que ela tem o seu nome.
Lamento se esta notícia vai atrapalhar a sua vida, mas
promessa é promessa e eu cumpro as minhas, mesmo quando elas me afetam.
Se tiver algum interesse em conhecer a sua filha, a minha
morada está no remetente.
Isabel Sarmento”
Ricardo leu e releu a carta. Depois pegou na cópia da
certidão de nascimento e leu Matilde Sarmento Medina filha de Susana Penha
Sarmento e de Ricardo Souto Medina.
Largou a cópia como se ela queimasse. O seu rosto moreno
tinha perdido a cor. Que raio de história era aquela? Como é que alguém que ele nunca conhecera se atrevia a dar o seu nome a uma criança? Aquilo era caso de
polícia.
E AGORA? SERÁ QUE SUSANA ENGANOU A IRMÃ?
E porque amanhã é domingo, esta história volta segunda. Deixo um apelo aos meus amigos portugueses. Não engrossem a fileira dos abstencionistas. Que adianta levar o ano inteiro a clamar se quando podemos fazer alguma coisa para tentar inverter a situação não o fazemos?
