Bruno ficou com a irmã e a mãe. A ausência em simultâneo do pai e do irmão mais velho, foram um rude golpe para ele. Sentiu-se como o deficiente que necessita de muletas para andar, e alguém lhas rouba. E era ele quem devia apoiar a mãe e a irmã?
Ia de casa para o
trabalho e vice-versa. Não falava com ninguém, a não ser no trabalho nos
assuntos que precisava tratar com os colegas. Não gostava de ler. Os livros
retratavam personagens completamente opostos ao que ele era. Neles, os
personagens eram todos altos, atléticos e perfeitos. Homens que faziam as mulheres
suspirarem, e sonharem. Por ele nunca nenhuma mulher ia suspirar. Que importava
se o seu rosto era perfeito, se os seus olhos viam o mesmo que os dos demais,
se o seu coração era tão capaz de amar como o do ser mais belo da sua espécie? Nenhuma
mulher no mundo se ia sentir protegida com um homem que lhes dava pelo ombro.
Ao cinema também não ia. Os filmes eram como os livros. Além de que no cinema
havia sempre uns parezinhos mais interessados em trocar carinhos, do que em
seguir a trama no ecrã. De futebol não gostava. Até nisso ele tinha que ser
diferente? Não entendia o entusiasmo dos colegas com o futebol. Que graça tinha, ver um grupo de
homens em calções, a correr de um lado para o outro atrás de uma bola, como se
não houvesse amanhã? E milhares a gritarem, a rirem e a chorarem, como se não
houvesse tanta gente no mundo a sofrer de verdade, a morrer vítimas da fome,
da guerra, da poluição, até da violência doméstica.
Com a mãe, Bruno falava o indispensável. Não que não a
amasse. Ou que ela não se preocupasse com ele. Mas como podia falar com a mãe, do que o atormentava, se ela sempre lhe respondia: " Os homens não se medem aos palmos, filho" Era boa pessoa, mas era também mãe, e para as mães os filhos sempre são perfeitos. Às vezes dizia-lhe para sair, se divertir, que parecia um velho. Ele encolhia os ombros e nem respondia.
