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10.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXVIII




Tiago era, antes de ir para a última missão, um jovem médico de trinta e três anos, um idealista, de um metro e oitenta e cinco, ombros largos e cintura estreita. No rosto moreno, de cabelos castanho-escuro, os olhos azuis, herança da avó materna, pareciam dois pedaços de céu, que faziam suspirar todas as mulheres que o viam. 

Filho único, com pais que o adoravam, com uma namorada que lhe dizia que o amava e que ele sonhava ser a sua companheira de vida e a mãe dos seus filhos e a profissão que sonhou ter desde menino, Tiago tinha todas as razões para se sentir um homem realizado e feliz. Todas menos uma. Não gostava da desigualdade que havia entre os povos africanos, e alguns asiáticos e o resto do mundo.

 Sentia-se um privilegiado e pensava que a sua missão no mundo não era tão egoísta que lhe fizesse ser feliz sem fazer nada, para melhorar de alguma maneira a vida daqueles para quem ela fora madrasta. Fez algumas missões, integrado nos médicos sem fronteiras e nunca se sentiu tão feliz, como ajudando os mais desfavorecidos da sorte.  Na última missão em que se integrou nessa organização, no Malawi, conheceu outros médicos que pertenciam a uma ONG alemã, fez amizade com um deles e disse-lhe que no futuro ainda iriam trabalhar juntos.

A missão correu bem, e no regresso Tiago pediu a namorada em casamento e decidiram casar no ano seguinte. Todavia quatro meses depois, Peter, o médico inglês, com quem fizera amizade no Malawi, telefonou-lhe. Iam partir em breve, para uma missão na República Centro-Africana e perguntou-lhe se ele queria ir.

Tiago não hesitou. Entrou em contacto com a ONG para ser integrado na equipa. Quando o disse à noiva, Sandra zangou-se. A missão acabaria quase na data do casamento e eles precisavam tratar de tantas coisas, não podia deixar todo o trabalho para ela. Tiago respondeu-lhe que os seus pais a ajudariam no que fosse preciso, e de resto a missão terminaria dois meses antes da data marcada, era tempo suficiente para tratarem do que faltasse e não cedeu.

Três meses depois Tiago era atingido pela explosão que o deixou quase morto. Evacuado de avião para o Hospital  na Alemanha,  foi submetido a várias cirurgias, inclusive algumas de origem estética para amenizarem cicatrizes. Esteve quase um mês em coma e mais quarenta e cinco dias até que os médicos decidiram que podia ser transferido para um hospital português.  O rosto não sofrera mais que uma pequena cicatriz na testa e uma maior do lado esquerdo da face que lhe atravessava desde o nariz até à orelha, mas que um cirurgião plástico tinha feito o "milagre" de a transformar em pouco mais de uma linha avermelhada, que provavelmente com o tempo mal se notaria.

A força da explosão apanhara-lhe o lado esquerdo do corpo e as costas. De alguma forma o braço protegera-lhe o peito, mas no ventre, do lado esquerdo as lesões desciam-lhe até à virilha.

Tanto na Alemanha, como em Portugal, os médicos asseguraram-lhe  que voltaria a andar, embora por causa das lesões sofridas no ventre, não tivessem certeza, de que a sua parte genital e o seu aparelho reprodutor voltariam a funcionar. Foi essa afirmação médica, que o deprimiu e lhe tirou a vontade de lutar para recuperar o movimento das pernas. 

De que servia voltar a andar se não voltasse a sentir-se homem. Afinal estava na fase melhor da vida, ia casar, sonhava com filhos. E como ia dar essa notícia à noiva? Não seria capaz. Todavia teria de terminar o noivado e afligia-se com o sofrimento que lhe ia causar. Felizmente, não teve de o fazer, pois Sandra ao saber que estava paralisado, disse-lhe que não tinha jeito para enfermeira, gostava de passear, dançar, era jovem, tinha uma vida inteira pela frente, não se ia prender a um inválido. 

Tirou o anel de noivado, pousou-o na mesa de apoio ao lado da cama e saiu sem esperar resposta, deixando-o a pensar na sua crueldade e em como poderia ter-se enganado tanto com o caracter da jovem.

Certo que ele mesmo já tinha decidido livrá-la daquele noivado, mas nunca o faria da forma tão cruel.




25.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE X



 Horas mais tarde, Ricardo encontrava-se na biblioteca, que também utilizava como escritório, quando a jovem entrou.
- Bom, agora que as crianças dormem, podemos ter a tal conversa que deveríamos ter tido antes do casamento. Ainda me surpreendo como podemos chegar a esta situação, sem que eu saiba nada de ti e das crianças. Não é justo, tanto mais que tenho a certeza o relatório do teu detetive deve ter trazido até a data em que me caiu o primeiro dente.
-Foi bem detalhado, mas não chegou a tanto - disse ele com um esgar que pretendia ser um sorriso. - Por exemplo, não me disse porque terminou o teu namoro, depois de quase dois anos. Se vou ter de te confiar os meus segredos, porque não começas por me esclarecer esse ponto?
- Primeiro, porque ele não tem qualquer interferência na minha missão de educar as crianças. Segundo, não te pedi que me falasses de ti, mas delas, porque quanto melhor as conhecer, melhor será a minha relação com eles.
-Esqueces que as suas histórias estão ligadas à minha?
-Não. Mas foste tu que falaste em segredos. E eu não quero imiscuir-me na tua vida, senão naquilo que às crianças diga respeito.
O silêncio reinou na sala durante alguns segundos. Sério, Ricardo olhava-a fixamente. Ela sustentou-lhe o olhar. Por fim, ele levantou-se e aproximou-se da janela. De costas para ela, começou a falar:
Não tenho nenhuma memória da minha mãe. Era ainda bebé quando ela faleceu. Três anos depois meu pai voltou a casar, mas a minha madrasta, não gostava de mim. Tinha ciúmes, não sei se do amor que meu pai me tinha, se por lhe recordar que o meu pai já tivera outra mulher antes dela. Fez-me a vida negra, durante dois anos, até que influenciado por ela, meu pai enviou-me para casa da minha avó materna.
Clara engoliu em seco. Na voz rouca do homem, estava latente o sofrimento, que aquelas recordações despoletavam. Imaginou como teria sido a vida do seu irmão, se após a morte dos pais, ela não tivesse cuidado dele, e sentiu pena do menino que Ricardo fora.
-Na minha família - continuou Ricardo, - o filho varão sempre seguiu a carreira militar. Foi assim com meu pai, meu avô e bisavô. De modo que mal fiz o ensino primário entrei para o Colégio Militar. Não era o que eu queria, mas quem mandava era o meu pai e não havia nada a fazer.  A minha juventude não foi muito diferente da de outros da minha geração, talvez mais solitária pela falta de apoio familiar e mais rígida por causa da educação militar. Terminado o Colégio, ingressei, na Academia Militar e acabado o curso, fui integrado no exército, onde participei em algumas missões em África, mas nada de muito importante. Tinha vinte e seis anos e vivia apenas para a carreira. Contrariamente aos meus colegas, que ou estavam casados, ou iam a caminho do altar, eu nunca tinha encontrado uma mulher por quem sentisse outro sentimento que não fosse apenas a satisfação de um desejo momentâneo. Mas nessa altura, durante umas férias, conheci a Céu. Era muito  bonita, mas o que me seduziu foi a sua doçura. Apaixonei-me. Namorámos  durante catorze meses, e a ideia de nos casarmos em breve, estava a ser encarada seriamente, mas nessa altura, fui destacado para o serviço permanente da NATO, por dois anos. Decidimos protelar o casamento para o fim da comissão. Despedimo-nos com juras de amor eterno, e promessas de que íamos estar em contato diário.  Apesar dos meus quase vinte e oito anos, era tão ingénuo que ainda acreditava em amores eternos.
Parti então, mas nesses dois anos, participei em missões no Afeganistão, em lugares tão remotos, onde não havia Internet, e o correio só chegava uma vez por semana, quando o avião de abastecimento nos levava os alimentos.