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9.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LVI

 


Depois que os dois se sentaram, João estendeu ao irmão a carta da mãe que ele leu em silêncio.

-Uma carta sincera e emotiva tal como ela era. E que diz muito do amor que te tinha e de quanto sofreu a vida toda, por ter de te deixar. Sabendo que vinhas hoje, trouxe-te um álbum de fotografias, - abriu a gaveta, retirou o álbum e estendeu-lho.

João abriu-o e viu na primeira página a foto de uma jovem morena de baixa estatura. Tinha vestido umas calças de ganga e uma t-shirt branca. Tinha um ar sério, ou triste.  Depois uma foto dela com um homem alto. O homem sorria abertamente, mas a jovem continuava com o seu ar sério.

-É a única foto que tenho dos meus pais, - disse David. E nem me lembro dele, morreu quando eu era ainda um bebé. Não havia outras fotos dele, e um dia perguntei à mãe porquê. Ela disse-me que logo depois o meu pai adoeceu e nunca mais quis ser fotografado. Queria que eu o recordasse sempre como o homem alegre e feliz desse dia. Até há pouco tempo pensava que essa, fosse a fotografia do casamento deles, mas hoje sei que ela nunca casou. O marido nunca lhe deu o divórcio e como o meu pai já tinha morrido, ela não se preocupou. Depois há essa foto dela grávida de mim. E por último são fotos minhas e dela comigo. Verás que em nenhuma delas, mostra um ar alegre e feliz como é habitual nos momentos de intimidade entre mãe e filho. Lembro-me de escrever um dia, numa composição sobre a mãe, na escola, que a minha mãe, era uma mulher muito triste, porque sentia muitas saudades do meu pai. Hoje ambos sabemos que não era por saudades dele que ela era assim, embora tenha gostado dele, porque ele a amou e lhe deu um lar, evitando-lhe o desespero que a podiam ter matado.

-Obrigado, por me teres deixado ver estas fotografias. Não sei que pensar do meu pai. Quero acreditar que ele era um homem mentalmente muito doente, porque se não foi por doença, então tenho de pensar que ele era um monstro, que me roubou não só o amor dela, mas toda uma infância normal, e me imbuiu o espírito de ideias que me fizeram crescer e tornar-me um homem cético, em relação ao amor e descrente da lealdade das mulheres. Acreditas que me fez acreditar que a mulher o deixou, porque era uma espécie de ninfomaníaca capaz de seguir qualquer um que lhe permitisse satisfazer os seus inconfessáveis desejos? Isso fez com que crescesse a odiá-la. E com que nunca até agora tivesse olhado para uma mulher sem pensar no que ele me dizia.

-Percebo que a tua vida não tenha sido fácil, mas agora que sabes a verdade, tenta esquecer, és jovem, bem parecido, tens uma excelente situação financeira, ainda estás a tempo de encontrar uma boa mulher e te apaixonares.

- Penso que já a encontrei, David. O problema vai ser convencê-la. Ambos temos uma bagagem emocional péssima, e por isso ambos nos tornámos incrédulos em relação ao amor, à lealdade do sexo oposto, e ambos tínhamos decidido que não daríamos a ninguém o poder de nos fazer sofrer.  É uma história complicada que te contarei se tiveres tempo e paciência para me ouvires.

-Sou um homem muito paciente e tenho todo o tempo que precisares  para te ouvir. Levei trinta anos sonhando como seria bom ter um irmão.

E então João contou-lhe tudo. Desde o cancro no testículo, a reserva de esperma para o futuro, na clínica de Procriação Medicamente Assistida, e  o que lhe tinha acontecido ultimamente, desde que recebera o telefonema da clínica, dando conta do erro cometido, até à emoção do dia anterior, quando a médica lhe mostrou os três minúsculos pontos no ecrã e ouviu o bater dos corações dos seus filhos.