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30.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XV

 

-Claro, mas ser professora é a minha vocação desde sempre e quando nós fazemos o que gostamos é muito gratificante, - respondeu Laura.

- Bom, agora que isto já está entendido, vem conhecer o gabinete do doutor, - disse Diana levantando-se.

Atravessou a sala de espera, onde além de meia dúzia de cadeiras se encontravam uma mesa de jogos didáticos infantis e outra com revistas da atualidade e uma pequena estante com livros infantis e juvenis. De seguida abriu a porta em frente e Laura observou o amplo gabinete no qual havia uma estante com vários livros de medicina e psiquiatria, uma secretária de carvalho com uma cadeira de couro de frente para a porta e do lado contrário, duas cadeiras com estofo também em couro. Junto à janela uma marquesa e ao lado uma cadeira.

Laura aproximou-se da secretária sobre a qual estava uma moldura clássica com uma fotografia de Fernando com Gonçalo e ela entre os dois.  Pegou na moldura e ficou olhando a fotografia recordando-se perfeitamente de quando foi tirada. Ali ela tinha dezassete anos, acabara o Curso Secundário. Fernando e Gonçalo já estavam na Universidade.

-És tu, não és? – perguntou Diana

-No dia em que terminei o Secundário – respondeu

-Namoravas com ele?

- Não que ideia! Fernando era para mim como um irmão. Desde que me lembro sempre o vi lá por casa, juntamente com o Gonçalo. Os pais dele e os meus eram vizinhos, e ele que não tinha irmãos, passava mais tempo na minha casa, que na sua.

- Desculpa se cometi uma gaffe, mas a maneira como ele olha para ti, e a sua expressão, é de um apaixonado, não de um irmão. E eu sempre pensei que era a pessoa que estava na foto, a causa de ele nunca ter tido um relacionamento sério, - disse Diana.

- Não, não pode ser. Ele teria dito alguma coisa, nós éramos muito amigos, não tínhamos segredos e até conhecer o meu falecido marido, nunca nos separámos.

-Bom, deves ter razão. Talvez tenha sido o meu lado romântico que inventou essa história.

Laura poisou a foto sobre a mesa, ao lado do computador portátil que estava ligado a uma impressora instalada numa pequena mesa do lado esquerdo da cadeira.

-Bom, - disse Diana dirigindo-se para a porta.  Está na minha hora de almoço, vou fechar a clínica. Reabro às três horas. A primeira consulta está marcada para as três e meia. Vens de tarde?

- Não sei, se poderei vir, não falei nada com os meus pais. Eles estão cá esta semana, pedi-lhes para tomarem conta do meu filho Miguel. E, à tarde, têm que ir buscar a minha filha e a prima à escola. O doutor tem consultas amanhã à tarde?

-Tem todos os dias, de segunda a sexta. De manhã é que só tem às terças e quintas.

- E amanhã é quinta feira. As minha filha e a prima, têm aulas até às cinco.  Vou falar com os meus pais e talvez possa vir de manhã e de tarde até às quatro e meia. E quando sair passo pela escola e levo as meninas.

Pegou na mala e dirigiu-se para a porta

-Queres boleia, ou tens o teu carro? – perguntou encaminhando-se para a saída.

-Só vou fechar a porta. Trouxe almoço e fico a descansar as pernas na marquesa do doutor. Este barrigão dá-me dores nas costas e nas pernas, que é um caso sério, - respondeu Diana.

-Então até amanhã, - disse Laura, e  abrindo a porta saiu para a rua

27.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIV


Laura conversou com a mãe, que se mostrou radiante por ela ter aceitado a proposta de Fernando e afirmou cuidar do neto, enquanto ela estivesse ausente.

Assim, pouco depois das nove ela chegava à clínica do psiquiatra e apresentava-se à sua assistente, que não se mostrou surpreendida pois um telefonema do chefe logo de manhã, tinha-a avisado.

Diana era uma jovem morena de estatura mediana, de olhos castanhos e sorriso fácil. O cabelo curto, era igualmente castanho, embora mais claro que os seus olhos. O seu enorme ventre, mostrava que devia estar muito perto do final da gravidez e fazia com que a jovem parecesse mais baixa do que realmente era.

Quando sorria, duas covinhas apareciam no seu rosto que parecia iluminar-se.

Laura gostou imediatamente dela.

- Já era tempo de que o doutor se decidisse a arranjar alguém para me substituir – disse. Mais um pouco e eu entraria de baixa e ele ver-se-ia na contingência de ter que ser ele a explicar o serviço. Podes ir buscar uma cadeira à sala de espera, para te sentares aqui ao pé de mim?

- Claro.

Laura fez o indicado e logo que se sentou, disse:

-Não pareces surpreendida por não vir de nenhuma agência temporária.

-Não. O doutor detestava ter de o fazer. Ele gosta de trabalhar com alguém conhecido, sente-se melhor. E eu sabia que ele te queria aqui, desde que o teu irmão lhe contou que querias regressar ao trabalho, mas não tinhas conseguido vaga numa escola aqui na cidade.

-Conheces o meu irmão?

- Como não? Os dois são tão amigos que quando comecei a trabalhar aqui, e o doutor Gonçalo passava quase sempre aqui no fim das consultas, pensei que eram irmãos. Foi há anos, o chefe já tinha a clínica e alguns clientes, embora na altura ainda fizesse serviço no Hospital de S. José.  O teu irmão tinha acabado o curso e estava a estagiar no hospital de Santa Maria. Segundo me disse deveria ter acabado o Curso mais cedo, mas um grave acidente de moto, interrompeu-lhe os estudos.                                  

Quando acabou o estágio, o teu irmão foi para um hospital no Porto, o chefe decidiu encerrar a clínica e foi para Londres, onde esteve dois anos, num hospital. Ele era na altura um homem muito amargo, eu só o sentia mais alegre, quando o teu irmão o visitava. Bom, vamos então começar?

- Claro, foi para isso que vim, - disse Laura embora tivesse gostado que Diana lhe continuasse a falar de Fernando. Na verdade, ela perdera todo o contacto com ele quando casara e viera viver para Lisboa. Na altura, ele já tinha terminado o curso, e embora já estivesse em Lisboa, ela tinha-lhe perdido o rasto.

- Aqui atrás de mim, está o ficheiro onde se guardam todas as fichas dos clientes por ordem alfabética. O chefe não usa estas fichas, ele escreve tudo no computador. Depois que as consultas acabam, tens que transcrever tudo para as fichas do doente. Isto porque pode haver uma falha do sistema, e sem uma ficha atualizada em papel, ele não teria acesso aos dados do doente.

 É a velha história, os computadores são rápidos e eficientes, mas quando o sistema falha o que salva qualquer negócio, são os registos em papel. Quando fazes a inscrição, se for a primeira vez, abres esta gaveta, tiras uma ficha destas e preenches com o nome e idade do doente. Se já é doente é só procurares no ficheiro.

- Não parece difícil.

-Nada. Tenho a certeza que é bem mais difícil preparar uma aula nova todos os dias.