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18.6.18

O DIREITO À VERDADE - I


Esta escultura, recebe-nos na entrada do cemitério de S. Gonçalo em Lagos..
Não que esta história se passe em Lagos, mas é um bonito monumento composto por painéis. Chama-se A Passagem e simboliza exatamente isso .
A nossa passagem do mundo real da matéria, visível, para o mundo espiritual, o invisível.  


                                                           I


A urna desceu à terra, na presença de dois grupos distintos de pessoas. Em tamanho e em idade. De um lado, meia dúzia de pessoas de meia-idade. Do outro, um grupo mais numeroso de jovens, na frente dos quais se encontrava uma jovem alta, esbelta, morena, de cabelos e olhos tão negros quanto a roupa que tinha vestido.
Abeirou-se da sepultura, baixou-se e apanhou um punhado de terra. Ergueu-se e jogou sobre a urna uma singela gerbera cor-de-rosa, e de seguida o punhado de terra. Depois virou as costas e afastou-se, enquanto os dois homens pegavam nas pás e começavam s fechar a sepultura. Não queria vê-los, mas sentia no peito cada pá de terra que eles lançavam, enquanto lágrimas silenciosas corriam pelo seu rosto pálido. Sentiu que alguém lhe passava um braço pelos ombros, enlaçando-a em silêncio. Levantou o rosto e olhou o seu tio. Era um homem de sessenta e cinco anos, mas o seu rosto precocemente envelhecido, emoldurado por uma cabeleira totalmente encanecida, faziam com que aparentasse mais idade.
Alberto fora casado, com uma irmã da sua mãe. A sua tia Ana, falecera há dez anos, com a mesma doença que agora levara a irmã. O maldito cancro.
Os homens acabaram o trabalho de sepultamento e colocaram sobre a terra, as coroas, e demais ramos de flores. As pessoas começavam a abandonar o local, não sem antes lhe darem um abraço e algumas palavras de conforto, que não aliviavam a sua dor, mas que ela não deixava de agradecer.
- Vamos, querida, levo-te a casa, - disse Alberto. Já não há nada que a gente possa fazer por ela, a não ser rezar pela sua alma.
Helena concordou com a cabeça. Tinha dificuldade em se expressar. Começara a caminhar para o portão, mas de súbito parou e disse:
- Preciso falar primeiro com o agente funerário. Não sei se é preciso alguma coisa mais.
-Espera aqui, vou lá falar com ele,  - disse Alberto.
Voltou pouco depois.
-Ele diz, que a agência trata de todos os trâmites, com a junta de freguesia, onde nasceu, para assinalar o óbito no registo, e com a Segurança Nacional, para que possas receber o subsídio. Normalmente leva oito ou dez dias até receberem a resposta, e então telefonam-te para te devolverem todos os documentos que lhes deixaste. Agora vamos, Lena. Estás de rastos, precisas descansar.
- Custa-me tanto voltar para casa, tio. Como é que eu vou viver, sem ela?
-Embora agora te pareça que o mundo desabou sobre a tua cabeça, vais encontrar forças para seguir em frente. Com tristeza, com muita saudade, mas continuamos. Como pensas que eu vivo? Há dez anos quando perdi a tua tia, encontrei força no teu primo para suportar a dor de ficar sem a única mulher que amei, Pior foi há três meses, quando o teu primo morreu naquele estúpido acidente.
- Perdoa, tio. Sou muito egoísta. Esqueci-me de que tu também estás com o coração ferido.
- Não te desculpes querida. Eu entendo, - disse abrindo-lhe a porta do carro.