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2.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE I


Eram seis horas, de uma radiosa e calorenta tarde de Junho quando João Santos entrou em casa. Fechou a porta atrás de si, atirou as chaves para cima do móvel de entrada e dirigiu-se ao quarto. Era um amplo quarto de casal, onde reinava uma enorme cama. Em cima da cómoda, mesmo ao lado de uma bonita jarra, onde em tempos sempre houvera belas e frescas flores, mas que agora se apresentava tristemente vazia, uma moldura mostrava uma foto de casamento. Ele porém não se deteve no quarto. Dirigiu-se à porta à esquerda, que ligava o quarto à casa de banho e abriu-a. Uma vez lá dentro, rapidamente se despiu e enfiou debaixo do chuveiro. Durante um minuto, ficou quieto, sentindo a água fria correr pelo corpo, numa carícia suave. Precisava daquilo para eliminar do corpo, não só o calor, mas também o cansaço. Depois fechou a água e esfregou vigorosamente o corpo. Acabado o duche, enrolou uma toalha à cintura e olhou-se no espelho.
A imagem que este lhe devolvia, era a de um homem ainda jovem, moreno de cabelos e olhos castanhos. Era alto, tinha ombros largos e uma figura bem proporcionada. Não se considerava um homem bonito. A testa alta, o cabelo liso, os olhos vivos e inteligentes, eram rasgados e não muito grandes, o que lhe dava um ar exótico, quase oriental. A boca embora bem desenhada, tinha lábios finos, e o queixo forte era na sua opinião demasiado quadrado. Não, não era aquilo que os padrões de beleza chamavam um homem bonito, mas tinha carisma e uma presença forte que se impunha onde quer que estivesse.
Passou ao quarto, procurou uns calções de algodão que vestiu sobre o corpo nu. Pegou na moldura, onde se via com a esposa, e ficou olhando-a com tristeza. Passou o dedo pelo rosto da mulher que a seu lado sorria feliz, e murmurou:
- Porquê Odete, porquê?
Poisou a moldura no sítio. O seu rosto apresentava uma tristeza pouco comum. Descalço e de tronco nu, foi até à cozinha, abriu o frigorífico, tirou uma cerveja, e dirigiu-se para a sala onde se deixou cair no sofá. Abriu a garrafa, bebeu um gole, e poisou-a em cima da mesa.