- O que aconteceu, Lena? A Matilde está com problemas na
escola?
- Não. Apesar de ter baixado um pouco nos últimos testes
não foi nada de muito grave. As notas deste período não vão baixar.
-Bom. Todavia se tudo está bem, qual a razão desse
nervosismo?
-Quem disse que estou nervosa? – perguntou sorrindo.
-Conheço-te bem, Lena. Podes enganar os nossos clientes com
esse falso sorriso, mas não a mim.
-Tens razão! – disse deixando-se cair na cadeira. Vi o
Gonçalo.
-O Gonçalo? Que Gonçalo? Não conheço nenhum… espera, estás
a falar do pai da tua filha?
-Pai é quem cria, dá amor! A Matilde não tem pai.
-Pai, progenitor, dador de esperma, o que quiseres. É dele
que estás a falar? Tens a certeza? As pessoas mudam muito, e já se passaram
vários anos.
-Absoluta. Foi há mais de treze anos, mas podiam passar mil
anos e eu reconhecê-lo-ia, em qualquer lugar da terra.
- Meu Deus, Lena! A conversa de que não acreditas no amor,
não passa disso mesmo. Conversa. Tu continuas apaixonada por esse homem. Como é
que eu nunca me apercebi disso!
-Não digas asneiras. Não se ama, quem se odeia!
-Não? Pois eu sempre entendi que o ódio é a outra face da
moeda do amor. Mas deixemos isso agora e conta-me. Como foi isso? E ele
reconheceu-te?
- Foi em frente à escola. Eu ia quase a correr, e ao dobrar
uma esquina esbarrei num homem que vinha com uma menina pouco mais nova que a
Matilde. Teria caído, se ele não me segurasse pela cintura, e ao levantar os
olhos para me desculpar, quase desmaiava com a surpresa.
-Não me digas! Se ele tem a filha na mesma escola,
significa que mora perto, e que talvez se voltem a encontrar. Mas não te reconheceu?
- Não sei! Mal me apercebi de quem era, pedi desculpa e saí
correndo.
-E agora, o que vais fazer?
-Nada. Só espero nunca mais me cruzar com ele.
- A vida prega-nos muitas partidas e do mesmo modo que se
encontraram hoje, pode voltar a acontecer. E um dia ele vai reconhecer-te. E se
vir a Matilde e souber somar dois mais dois vai descobrir a verdade. E tens de
pensar na Matilde e na promessa que lhe fizeste. Que lhe vais dizer? Que não
sabes o que foi feito dele, quando provavelmente ele já se cruzou com ela na
entrada ou saída da escola.
-A promessa de lhe falar sobre o pai quando fizesse treze
anos! E falta menos de um mês para o seu
aniversário, - Lena deixou—se cair na cadeira com um suspiro de desalento.
--A Matilde é extremamente inteligente e muito obstinada, -
continuou Rita. Tenho a certeza que é a primeira coisa que te vai perguntar no
dia do seu aniversário. E é bem capaz de tentar encontra-lo. Sabes que hoje em
dia os miúdos, com um computador nas mãos, sabem tudo o que querem. O que farás
se ela quiser entrar em contacto com o pai?
-Não sei. Talvez lhe diga que ele morreu.
-Isso é meio caminho andado para perderes a tua filha, se
ela um dia tomar conhecimento da verdade. Nunca mais confiará em ti. Se queres o
meu conselho conta-lhe toda a verdade, embora claro não lhe digas que
provavelmente ele vive perto. E agora vamos almoçar, ou esperamos pela Matilde?
-Hoje é Quinta-feira, ela almoça na escola tem aulas até às
dezasseis. E o Inácio? Não vem almoçar connosco, hoje?
-Não. Vai almoçar com um cliente. Então vamos!





