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22.3.18

A TRAIÇÃO - FINAL





Três anos mais tarde, a festa era grande, naquele hotel, onde se reuniam os familiares de Odete, incluindo os irmãos emigrados em França, e no momento de férias em Lisboa, com as mulheres e filhos, a irmã Laura, e o marido.  Também estavam presentes, a mãe e a tia de João, o psicólogo Manuel, seu grande amigo, e família. Isabel grávida de sete meses, o marido, e o filho de ambos, o pequeno Tiago, radiante, porque a sua mãe "tem na barriga o meu irmão" como faz questão de contar a toda a gente, e alguns médicos com quem João tem mais afinidade, bem como algumas colegas do Infantário onde Odete trabalha. O casal, mais feliz que nunca, festejava o décimo aniversário do seu casamento, e o batizado de Sara, a sua primeira filha.
Primeira sim, porque eles iam ter mais filhos, o segundo já estava a caminho, como Odete segredara nessa manhã ao marido, quando amorosamente descansava nos seus braços. 
Três anos antes, um quarto daquele hotel fora testemunha da reconciliação dos dois. Ali, ambos se perdoaram mutuamente por todos os erros que tinham cometido no passado. Pela falta de confiança de Odete, pelo excesso de trabalho de João. Pelos medos e insegurança dos dois. E quando Odete, quis destruir a carta que tanto sofrimento lhes tinha causado, João pediu para a guardarem, como uma lembrança de que dali para a frente, nada nem ninguém poderia fazer nada contra eles, porque ambos confiariam um no outro, e no amor que sempre os uniu.
- Numa coisa a Inês tem razão, meu amor, – dissera ele. Continuas a ser uma menina ingénua. Acreditaste mesmo que eu não faria tudo para tratar a tua mãe, se te recusasses a voltar a casa? Só utilizei aquele estratagema, porque estava doido de amor por ti, e  desesperado porque me convencera de que não me querias. Mas a cirurgia da tua mãe nunca esteve em risco. Ainda que não fosse a tua mãe. Acima de tudo sou médico, a minha missão é salvar vidas. Além do mais, como diretor clínico dum hospital público, nada me impedia de assinar a ordem de internamento da tua mãe, no "meu" hospital. 
 Nos braços um do outro,  numa catarse mútua, abriram o coração e amadureceram juntos. Ali se amaram sem reservas, enfim livres de todos os mal-entendidos. 
E ali naquele dia de tão fortes emoções, Sara fora concebida. Logo não havia como escolher outro local para festejar aquela data.


Fim

Elvira Carvalho




Amigos a partir de hoje será difícil visitar-vos, já que em Lagos só tenho o Smartphone e 
não sei bem andar pelos blogues com ele.
As postagens para os dias até ao meu regresso estão agendadas. 
Abraço-vos com carinho e desejo boa Páscoa.

2.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXXII

          O neto do Manuel muito compenetrado apagando a vela do seu baptizado


Um ano depois, convocado o pai biológico, ele reafirmou o seu desejo de que a criança fosse adoptada pelo casal, e o processo de adopção plena entrou nos seus trâmites legais. Ainda assim, foi demorada a sentença, que chegou quando o bebé já tinha três anos. O Juiz informou que  a partir daquele momento, a criança era legalmente filha do casal, todos os vínculos com a família biológica eram cortados, a criança perdia os apelidos com que foram registada e ganhava os apelidos do casal.  Mais, não podia antes de atingir a maioridade ser contactado pelos familiares biológicos, devendo o casal recorrer à justiça se isso acontecesse.
Foi uma grande alegria. Os avós porque se tinham afeiçoado à criança, e ao mesmo tempo porque viam a felicidade do casal, que tanto lutara por um filho sem contudo o conseguir
A sentença saiu em Outubro e a 8 de Dezembro, dia da Nª Senhora da Conceição, fez-se o baptizado do menino.
E o ano de 1983 chegava ao fim, com o Natal passado na casa do Manuel, a família toda reunida, e as duas crianças, a disputarem o lugar de Menino Jesus na festa.
Naquela época, ninguém podia adivinhar  que aquele era o último Natal que a família estava assim reunida, alegre e feliz. 
Manuel ia a caminho dos 66 anos, mas continuava a trabalhar. A reforma seria para mais tarde, não tinha pressa, ele dizia que não sabia fazer outra coisa que trabalhar. Continuava a semear o quintal e a fazer o seu vinho, agora num lagar que o filho construíra no quintal da sua casa. O filho continuava solteiro. Tinha deixado a CP, e alugado as instalações de um aviário de pintos, onde se instalou com um aviário de codornizes. Sem estudos, mas um "engenhocas" capaz de fazer qualquer coisa que se lhe metesse na cabeça, tinha a quem sair, ele mesmo construiu as chocadeiras para lhe chocarem os ovos e tirar as codornizes. O seu dia não tinha horas. Trabalhava desde antes do sol nascer, até às onze, meia-noite. Por isso a família praticamente não o via a não ser que se deslocasse ao aviário, ou uma vez por mês, quando toda a família se reunia à volta da mesa do Manuel para um alegre convívio familiar.
A Gravelina, que sempre fora muito doente, desde o parto do filho, foi reformada por invalidez, nos primeiros meses desse ano de 1984