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28.4.18
RENASCER - XXIII
12.4.18
RENASCER - IX
Dois meses depois, Carlos continuava na psiquiatria do hospital sem saber mais de si do que aquilo que lhe contavam os demais. Pais, irmãs, cunhados, amigos de infância, muita gente se deslocara da Régua até Lisboa para verem o homem que voltara à vida quase sete meses depois de ter sido dado como morto em combate. Não reconheceu ninguém à exceção de Cacilda, a mais nova das irmãs. Porque a reconheceu imediatamente e não reconheceu Amália a irmã mais velha era mais um mistério da sua cabeça que ele não sabia decifrar, e que intrigou o psiquiatra. Este, fez-lhe a seguinte proposta. Gostaria de iniciar um novo tratamento com base na hipnose clínica. Porém aproximava-se o Natal e ele ia-lhe dar alta para a quadra natalícia. Queria que ele fosse a casa, convivesse com família e amigos, andasse pelos lugares da sua infância e juventude. Acreditava que nesse contexto ele poderia recuperar a memória. Se tal não acontecesse, quando regressasse ao hospital, se ele estivesse de acordo, começariam então as sessões de hipnose.
Proposta que ele aceitou imediatamente, receava
endoidecer com tanta luta para se recordar de qualquer coisa, um pequeno
acontecimento que fosse, e sentir-se completamente vazio. Às vezes pensava que
estava num pesadelo, que ia acordar a qualquer hora, e então beliscava-se a si
próprio mas nada mudava. Duas vezes por semana, Luísa ia vê-lo, e ele agarra-se
aquelas visitas como náufrago, à bóia que o vai salvar. Os dois tornaram-se
amigos. Ambos viveram uma tragédia, e talvez por isso, um buscasse no outro, a
força que os havia de fazer esquecer. Naquele dia, mais uma vez, Luísa foi visitá-lo.
- Boa tarde Carlos. Como se sente hoje.
- Na mesma. Um pouco mais animado porque o médico me vai dar alta para passar o Natal na terra com a família. Pensa que isso me pode trazer de volta a memória, e me propôs se eu voltar na mesma, no regresso, ser hipnotizado para ver se revivendo o que se passou, quebro o bloqueio que me
faz estar assim.
- E isso não é perigoso?
- O médico diz que não. Ele pensa que se isso não
resultar, poderei levar anos até que um qualquer facto me faça recuperar a memória.
Eu nem quero pensar nisso. Mais me valera ter morrido naquele dia.
- Não diga isso, meu amigo, está vivo, é jovem,
teoricamente tem muitos anos pela frente, mesmo que durante algum tempo não se
lembre, virá o dia em que recupere a memória. Para os mortos não há retorno nem esperança.
- A Luísa não sabe o que é não saber nada, não ter
recordações, nem amigos, nem familiares.
- Mas o Carlos tem. Já o visitaram.
- É verdade. Mas se exceptuarmos o meu pai que reconheci
porque foi como se me estivesse a ver ao espelho, embora mais velho, e a minha
irmã Cacilda, acreditaria no que me dizem, apenas porque o desejo com toda a minha
alma. Como acreditei que aquela carteira era minha, só porque ma deram e
disseram que era.
- Entendo. Deus queira que a hipnose resulte.
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