Com um safanão ela libertou-se.
-Não me toque. Pode ser que o safado do meu marido, se tenha julgado no direito, de me transformar num troféu de jogo. Ultimamente andava tão esquisito que nada me admira. Posso ter perdido a minha casa, e ser obrigada a viver seis meses consigo. Mas não lhe dou o direito de me tocar.
Brilharam de raiva os olhos cinzentos.
-Oiça, entendo que esteja em choque. Mas não lhe quero fazer qualquer mal. Acredite ou não, o melhor que lhe podia ter acontecido, foi ter sido eu a aceitar a proposta maluca do seu marido. Não lhe passa pela cabeça, o perigo em que o vício dele a colocou. Nas mesas de jogo, há gente de toda a espécie. Alguns são capazes de mandar matar com a mesma calma com que a senhora pede um bolo, ou um café. E agora vai dizer-me como veio até aqui?
Pela primeira vez, ela olhou o rosto do homem. Não se podia dizer que era um homem bonito. Interessante sim. E duro. Sem bem saber porquê, teve a sensação, de que aquele homem zangado, podia ser muito perigoso. Talvez fosse pelas maçãs do rosto demasiado salientes, ou pelo queixo quadrado, talvez pelos olhos cinzentos, tão claros que lhe lembraram dois pedaços de gelo, ou quem sabe, pela linha dura da boca bem desenhada. Apesar de falar corretamente a língua portuguesa, tinha uma pronuncia diferente. Era estrangeiro certamente.
-Vim de carro - murmurou
Começou a andar rumo ao parque e ele colocou-se a seu lado. Caminharam em silêncio até ao automóvel. Em silêncio ele estendeu a mão, e ela entregou-lhe as chaves. O homem não tentou ser gentil, nem lhe abriu a porta, dirigindo-se diretamente para o lado do condutor e sentando-se ao volante. Colocou o cinto e então olhou-a:
- E a morada é…
Ela disse o nome da rua, e remeteu-se ao silêncio. Estava desejosa de estar sozinha para ler a carta do marido. Maldito fosse ele. E pensar que lhe parecera tão amoroso, quando o conhecera. Razão tinha a Irmã Madalena, quando a aconselhara a prolongar o noivado. Por qualquer razão que ela desconhecia, a freira, não confiava nele. Olhou de relance para o homem a seu lado. Como era mesmo o seu nome? Ela lembrava-se que o advogado o mencionara, mas estava tão nervosa que não o memorizou.
O carro parou e só então ela se apercebeu de que tinha chegado a casa. Saíram do veículo e ele estendeu-lhe as chaves. Ela guardou-as na mala, e retirou as de casa, que lhe estendeu com ar provocador.
-Ó desculpe, tenho as chaves da "sua" casa, - disse com ironia.


