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9.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE IV


Ele não respondeu. Limitou-se a segurá-la pelo cotovelo, e empurrá-la suavemente para a porta do elevador que acabava de se abrir.
Com um safanão ela libertou-se.
-Não me toque. Pode ser que o safado do meu marido, se tenha julgado no direito, de me transformar num troféu de jogo. Ultimamente andava tão esquisito que nada me admira. Posso ter perdido a minha casa, e ser obrigada a viver seis meses consigo. Mas não lhe dou o direito de me tocar.
Brilharam de raiva os olhos cinzentos.
-Oiça, entendo que esteja em choque. Mas não lhe quero fazer qualquer mal. Acredite ou não, o melhor que lhe podia ter acontecido, foi ter sido eu a aceitar a proposta maluca do seu marido. Não lhe passa pela cabeça, o perigo em que o vício dele a colocou. Nas mesas de jogo, há gente de toda a espécie. Alguns são capazes de mandar matar com a mesma calma com que a senhora pede um bolo, ou um café. E agora vai dizer-me como veio até aqui?
Pela primeira vez, ela olhou o rosto do homem. Não se podia dizer que era um homem bonito. Interessante sim. E duro. Sem bem saber porquê, teve a sensação, de que aquele homem zangado, podia ser muito perigoso. Talvez fosse pelas maçãs do rosto demasiado salientes, ou pelo queixo quadrado, talvez pelos olhos cinzentos, tão claros que lhe lembraram dois pedaços de gelo, ou quem sabe, pela linha dura da boca bem desenhada. Apesar de falar corretamente a língua portuguesa, tinha uma pronuncia diferente. Era estrangeiro certamente.
-Vim de carro - murmurou
Começou a andar rumo ao parque e ele colocou-se a seu lado. Caminharam em silêncio até ao automóvel. Em silêncio ele estendeu a mão, e ela entregou-lhe as chaves. O homem não tentou ser gentil, nem lhe abriu a porta, dirigindo-se diretamente para o lado do condutor e sentando-se ao volante. Colocou o cinto e então olhou-a:
- E a morada é…
Ela disse o nome da rua, e remeteu-se ao silêncio. Estava desejosa de estar sozinha para ler a carta do marido. Maldito fosse ele. E pensar que lhe parecera tão amoroso, quando o conhecera. Razão tinha a Irmã Madalena, quando a aconselhara a prolongar o noivado. Por qualquer razão que ela desconhecia, a freira, não confiava nele. Olhou de relance para o homem a seu lado. Como era mesmo o seu nome? Ela lembrava-se que o advogado o mencionara, mas estava tão nervosa que não o memorizou.
O carro parou e só então ela se apercebeu de que tinha chegado a casa. Saíram do veículo e ele estendeu-lhe as chaves. Ela guardou-as na mala, e retirou as de casa, que lhe estendeu com  ar provocador.
-Ó desculpe, tenho as chaves da "sua" casa, - disse com ironia.

26.7.18

O DIREITO À VERDADE - L




A meio da tarde, os noivos partiram o bolo e pouco depois na pista de dança, Cláudio segredou à sua mulher:
- Quando a música acabar, vamos sair. Estou ansioso por estar a sós contigo.
-E os convidados, não ficarão zangados?
- Os convidados querem é divertir-se. Na verdade ninguém espera que os noivos fiquem até ao fim da festa. Eles também sabem o que é estar apaixonados. E demais os dias são pequenos, daqui a pouco é noite e ainda vamos para Coimbra.  O pai se encarregará de nos desculpar e a festa continuará sem problemas.
Quando os jovens planearam o casamento, impôs-se a escolha do local para a lua-de-mel. Helena disse que gostaria de ir uns dias para Coimbra, não só porque sempre desejou conhecer a cidade, como porque fora lá que se conheceram e se apaixonaram. O pai não achou bem. Afinal Coimbra ficava a dois passos, em qualquer altura podiam lá ir passar um dia, ou até um fim-de-semana. Mas Cláudio apoiou a noiva e assim decidiram que passariam três dias em Coimbra, e os restantes sete no Algarve, afinal estava-se no final de Novembro, com o Inverno à porta, e no sul, a temperatura sempre era mais agradável. Era a vontade da noiva que rejeitou a viagem a Paris, que o tio lhe queria oferecer, dizendo que não se justificava ir para o estrangeiro, quando não se conhecia nada do seu próprio país.
Durante o resto da música, os noivos foram-se encaminhando, subtilmente, em direção da porta e mal a melodia terminou, esgueiraram-se de mãos dadas para o átrio, onde o empregado do hotel, que já tinha sido avisado, lhes entregou as chaves do carro, que já  estava estacionado junto à porta.
Poucos minutos decorridos, o carro entrava na quinta e estacionava frente ao alpendre. Saíram do carro e assim que abriu a porta de casa, Cláudio voltou-se e pegou na noiva ao colo.
- Que fazes?- Perguntou enlaçando-lhe o pescoço.
- É a primeira vez que entras nesta casa como minha esposa. Manda a tradição que o faças nos meus braços e confesso-te que nunca uma tradição foi cumprida com maior prazer, - disse ele encaminhando-se diretamente para o seu quarto, com a  noiva ao colo.
- Mas a minha mala está no meu quarto.
- O teu quarto, agora é o meu, senhora minha,- disse ele pousando-a no chão,
sem deixar de a manter presa nos braços. Procurou a sua boca e beijou-a apaixonadamente, enquanto as mãos ágeis  nas suas costas, procuravam o fecho  do vestido, e começavam a corrê-lo. Continuando a beijá-la começou a despi-la. Notou que a jovem tremia, e lembrando que a mulher que tinha nos braços era virgem, prometeu a si mesmo, controlar a sua paixão, e ser paciente. Teria uma vida pela frente, para dar livre curso ao desejo que o invadia. Aquela era a primeira vez dela, e queria que a recordasse toda a vida como uma coisa muito bonita e prazerosa. Quando o vestido caiu no chão, puxou o édredon para trás, sentou-a na cama e ajoelhando na sua frente, despiu-lhe os colãs, mas conteve o desejo de a ver nua, e não lhe tirou a minúscula cuequinha nem o lindo sutiã de renda branco.  De seguida estendeu-a  sobre a cama, cobrindo-a de seguida. A casa estava fria, a lareira não fora acesa naquele dia, e a mulher doente na lua-de-mel, era tudo o que ele não desejava.
 Sentou-se na cama, descalçou os sapatos e tirou as meias. Desapertou o cinto e tirou as calças e camisa. Levantando o édredon estendeu-se a seu lado Abraçou-a e sussurrou ao seu ouvido.
- Não tenhas medo. Vou fazer com que isto seja especial.
Ela não duvidava de que assim seria. Recordar-se-ia daquele dia, por toda a vida, mesmo quando o seu rosto se enchesse de rugas, e os netos brincassem à sua volta.


E pronto, amanhã chega ao fim esta história.  Entretanto informo que graças aos tratamentos de fisioterapia, tenho menos dores. A cirurgia ao olho será em Novembro, e a consulta de neurologia só consegui para Setembro. 



10.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXIII






E telefonou. Anete contou-lhe que as suas suspeitas estavam certas. Os pais tinham-lhe contado toda a história. E convidavam-no para almoçar com eles. Mas Salvador rejeitou o convite, reforçando o que já lhe dissera, quando a deixara à porta. Aquele era um tempo de descoberta, que ela devia passar só com os pais. Mais tarde, quando a poeira assentasse, não faltaria nem tempo nem oportunidade de se reunirem todos como uma grande família que eram. Combinaram que iria buscá-la às quatro. E desligou.
Digerida que foi a tensão da difícil revelação, os pais quiseram saber tudo sobre a sua nova vida na cidade.
Um pouco antes das quatro, Salvador chegou. A jovem pediu-lhe que entrasse para lhe apresentar os pais e a simpatia foi mútua.
Depois de beberem um chá, acompanhado por uma deliciosa fatia de bolo de chocolate, os jovens despediram-se e iniciaram a viagem de regresso.
- Estás feliz? Não te sentes magoada por te terem ocultado as tuas origens? – Perguntou Salvador, atento à condução do veículo.
-Não. Se tivesse sabido mais cedo, talvez tentasse encontrar a Ana Clara. Ou talvez não o fizesse para não magoar os meus pais. Tive uma vida muito feliz ao lado deles. Sempre me senti muito amada, e se alguma diferença houve em relação aos meus irmãos, foi que sempre fui mais mimada e protegida que eles. Talvez por ser menina. Mas agora sinto-me muito feliz por ter ganho uma nova família. Especialmente por ter uma irmã, com quem partilhar sentimentos e alegrias, que não se partilham com um irmão. E adorei os meus novos sobrinhos.
- Os meus sobrinhos são encantadores, não são?
- Os nossos sobrinhos, - emendou Anete e imediatamente se ruborizou imaginando como seria, se em vez de sobrinhos, fossem filhos dos dois.
Os olhos cor de mel, fixaram-se nela e um sorriso enigmático curvou os seus lábios.
“Será que ele pensou no mesmo” pensou a jovem desviando o olhar.
- Porque te divorciaste? – Perguntou de súbito.
- Já falámos nisso.
- E não te interessaste por mais ninguém?
- Por que queres saber?
 - Agora somos quase família, não? Sou cunhado da tua irmã…
- E eu sou cunhada do teu irmão. E onde é que isso nos leva? A um parentesco por aproximação? Isso não existe. E já tenho protetores de sobra, com os meus irmãos. Não preciso de mais ninguém para me dizer o que fazer, ou como fazer. O que preciso é que me deixem viver em paz.
- Vou tentar lembrar-me disso. Estamos a chegar. Antes de sairmos telefonei ao meu irmão. Eles estão à nossa espera, ansiosos por saber o que os teus pais te contaram. Convidaram-nos para jantar. Precisas passar por casa, ou vamos diretos para casa deles?
- Vamos já. Também estou muito ansiosa. E não quero regressar tarde. Vou começar a trabalhar amanhã, não quero dormir tarde.

Aviso:
A partir de hoje, os capítulos desta história, deixarão de ser bi-diários e passarão a ser apenas uma vez por dia. Espero que não percam o interesse na continuação.