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10.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXVI




Naquele dia, Pedro chegou mais cedo a casa. No bolso trazia uma jóia para Joana. Além do anel de noivado e da aliança, ela não usava qualquer outra jóia.
Por ocasião do primeiro aniversário de casamento, ele oferecera-lhe um bonito conjunto de colar e brincos em ouro com esmeraldas incrustadas, que ela usara uma única vez, na festa de aniversário de casamento do casal Araújo. Agora para lembrar aquele ano e meio que estavam juntos, ele comprara um fio de ouro bem fininho, com um rubi em forma de coração. Se bem conhecia a mulher ela iria adorar, pois Joana era a simplicidade em forma de gente. Pretendia levá-la a jantar fora e depois, talvez dançar a qualquer lado, mas Joana ainda estava no andar de baixo, pelo que ele desceu as escadas, e foi até lá.
Foi a tia que lhe abriu a porta e logo que ouviu a sua voz, o filho veio a correr lançar-se nos seus braços.
Com o menino ao colo, entrou na cozinha, onde encontrou mãe e filha a guardarem mousses e pudins no enorme frigorífico.
Beijou a mulher, depois a sogra, e disse.
-Será que o Pedro pode ficar convosco esta noite? Pensei que era uma boa ideia, sairmos hoje, - disse olhando a esposa.
- Claro que sim, - responderam as duas senhoras em coro.
Joana não disse nada. Acabou de arrumar a última taça, beijou o filho, e despediu-se da mãe e da tia, com algumas recomendações sobre o filho.
- Vai descansada, - disse-lhe a mãe. Até parece que eu nunca fui mãe.
Os dois saíram e seguiram para casa em silêncio.
Mal fechou a porta, Pedro perguntou:
-Que se passa Joana? Não te apetece sair?
- Que interessa se me apetece ou não, -retorquiu amarga. Não decidiste que íamos? Por acaso não te ocorreu que eu podia estar cansada, ou simplesmente não me apetecer sair?
-Não.Temos tido tão pouco tempo para nós dois, que pensei que ias ficar feliz se fossemos jantar fora e talvez dançar.
Com a gravidez, o sistema nervoso, de Joana estava muito instável. Ela não conseguia controlar as emoções. Sem responder, virou-lhe as costas e dirigiu-se para o quarto, enquanto ele ficava na sala, a mão no bolso apertando a caixa com a jóia, e o coração atormentado.
Uns minutos mais tarde, um pouco mais calmo, dirigiu-se também ao quarto.
Deitada de bruços na cama, Joana chorava silenciosamente. Lembrou-se da única vez que vira a mulher chorar e pensou que algo de muito grave se passava com ela.
Por momentos ficou paralisado, olhando o corpo sobre a cama, indeciso entre ir até  ela, ou voltar para a sala. 



9.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXIV






Um ano passara desde que se tinham mudado para a nova casa, onde agora viviam. O pequeno Pedro era desde há oito meses, filho do casal, a dona Ermelinda estava bem de saúde, embora continuasse a fazer exames periódicos, pois determinadas doenças uma vez contraídas nunca são dadas como curadas. A dona Conceição, tia do Pedro, era apaixonada pelo menino e por causa dele, tornara-se visita constante da família e como a senhora tinha perdido o seu único filho e vivia sozinha, Joana, acabara por lhe propor mudar-se para o andar de baixo. A casa era muito grande só para a sua mãe, e as duas senhoras irmanadas na mesma dor, confortavam-se mutuamente. Exatamente o que Pedro e a tia desejavam, mas eles continuavam a guardar segredo, sobre o seu parentesco com o pai biológico do filho.
Aparentemente corria tudo bem na família, mas não passava de aparência.  Joana, que se apaixonara pelo marido, logo nos primeiros dias após o casamento, sentia que alguma coisa o preocupava. Alguma coisa que ele não queria partilhar com ela. Era como se entre os dois houvesse uma parede invisível, mas impenetrável. Pedro era um excelente pai, aproveitava todos os tempos livres para brincar com o filho, passear com ele, inventava histórias engraçadas para lhe contar. E o menino adorava-o. Havia uma tal ligação entre os dois que Joana chegava a ter ciúmes do filho. Com ela, era educado, gentil, preocupava-se em saber se precisava de alguma coisa, se não estava a trabalhar de mais, se necessitava de uma nova empregada, enfim, preocupava-se com as suas necessidades materiais, mas não fora as noites onde se mostrava um amante apaixonado, Joana diria que o sentimento que ele tinha por ela, não era diferente do que sentia pela sua tia, ou pela sogra. Essa sensação entristecia o seu coração, apagara o brilho dos seus olhos, e transformara o seu riso alegre, em sorrisos breves. E fazia com que dona Ermelinda andasse cada dia mais preocupada com a filha.
Naquela manhã, a jovem, que há uns dias se sentia diferente, fizera o teste e descobrira que estava grávida. Noutras circunstâncias daria pulos de alegria, mas apreensiva como andava em relação ao casamento, o facto só lhe trouxe maior preocupação.
A relação entre o marido e o pequeno Pedro, era tão intensa, que Joana temia que ele não quisesse mais filhos, e que visse o novo bebé como um intruso.  
- Que se passa, Joana? Estás a bater essas gemas há dez minutos.
Parou a batedeira e pegou na farinha, para a juntar às gemas batidas com o açúcar.
- Nada, mãe, não te preocupes!
- Não me enganas. É com o teu marido? Aborreceram-se? Sim porque com o Pedrinho, não é. Transpira saúde.
- Já te disse que não é nada. Apenas hoje não me sinto muito bem. Devo ter dormido mal.
- Na tua idade, só se dorme mal por duas razões. Ou estás preocupada ou doente. Se está tudo bem com o teu marido procura um médico. Não estás bem encarada, e há muitas doenças silenciosas. Lembra-te. Mais vale prevenir.
-Está bem mãe. Se não melhorar, vou ao médico. Agora, se quiseres ajudar-me, vai moldando os brigadeiros...



E aqui estou eu... num dos eventos que vos disse ontem.