Naquele dia, Pedro chegou mais cedo a casa. No bolso trazia uma jóia para Joana. Além do anel de noivado e da aliança, ela não usava qualquer outra jóia.
Por ocasião do primeiro aniversário de casamento, ele oferecera-lhe um bonito conjunto de colar e brincos em ouro com esmeraldas incrustadas,
que ela usara uma única vez, na festa de aniversário de casamento do casal
Araújo. Agora para lembrar aquele ano e meio que estavam juntos, ele comprara um fio de ouro bem
fininho, com um rubi em forma de coração. Se bem conhecia a mulher ela iria adorar,
pois Joana era a simplicidade em forma de gente. Pretendia levá-la a jantar fora e
depois, talvez dançar a qualquer lado, mas Joana ainda estava no andar de
baixo, pelo que ele desceu as escadas, e foi até lá.
Foi a tia que lhe abriu a porta e logo que ouviu a sua
voz, o filho veio a correr lançar-se nos seus braços.
Com o menino ao colo, entrou na cozinha, onde encontrou
mãe e filha a guardarem mousses e pudins no enorme frigorífico.
Beijou a mulher, depois a sogra, e disse.
-Será que o Pedro pode ficar convosco esta noite? Pensei
que era uma boa ideia, sairmos hoje, - disse olhando a esposa.
- Claro que sim, - responderam as duas senhoras em coro.
Joana não disse nada. Acabou de arrumar a última taça,
beijou o filho, e despediu-se da mãe e da tia, com algumas recomendações sobre
o filho.
- Vai descansada, - disse-lhe a mãe. Até parece que eu
nunca fui mãe.
Os dois saíram e seguiram para casa em silêncio.
Mal fechou a porta, Pedro perguntou:
-Que se passa Joana? Não te apetece sair?
- Que interessa se me apetece ou não, -retorquiu amarga.
Não decidiste que íamos? Por acaso não te ocorreu que eu podia estar cansada,
ou simplesmente não me apetecer sair?
-Não.Temos tido tão pouco tempo para nós
dois, que pensei que ias ficar feliz se fossemos jantar fora e talvez dançar.
Com a gravidez, o sistema nervoso, de Joana estava muito
instável. Ela não conseguia controlar as emoções. Sem responder, virou-lhe as
costas e dirigiu-se para o quarto, enquanto ele ficava na sala, a mão no bolso
apertando a caixa com a jóia, e o coração atormentado.
Uns minutos mais tarde, um pouco mais calmo, dirigiu-se
também ao quarto.
Deitada de bruços na cama, Joana chorava silenciosamente.
Lembrou-se da única vez que vira a mulher chorar e pensou que algo de muito
grave se passava com ela.
Por momentos ficou paralisado, olhando o corpo sobre a
cama, indeciso entre ir até ela, ou voltar para a sala.


