Um ano passara desde que se tinham mudado para a nova casa, onde agora viviam.
O pequeno Pedro era desde há oito meses, filho do casal, a dona Ermelinda
estava bem de saúde, embora continuasse a fazer exames periódicos, pois
determinadas doenças uma vez contraídas nunca são dadas como curadas. A dona
Conceição, tia do Pedro, era apaixonada pelo menino e por causa dele, tornara-se visita constante da família e como a senhora tinha
perdido o seu único filho e vivia sozinha, Joana, acabara por lhe propor
mudar-se para o andar de baixo. A casa era muito grande só para a sua mãe, e as
duas senhoras irmanadas na mesma dor, confortavam-se mutuamente. Exatamente o
que Pedro e a tia desejavam, mas eles continuavam a guardar segredo, sobre o seu
parentesco com o pai biológico do filho.
Aparentemente corria tudo bem na família, mas não passava
de aparência. Joana, que se apaixonara
pelo marido, logo nos primeiros dias após o casamento, sentia que alguma coisa o
preocupava. Alguma coisa que ele não queria partilhar com ela. Era como se
entre os dois houvesse uma parede invisível, mas impenetrável. Pedro era um
excelente pai, aproveitava todos os tempos livres para brincar com o filho,
passear com ele, inventava histórias engraçadas para lhe contar. E o menino adorava-o.
Havia uma tal ligação entre os dois que Joana chegava a ter ciúmes do filho. Com
ela, era educado, gentil, preocupava-se em saber se precisava de alguma coisa,
se não estava a trabalhar de mais, se necessitava de uma nova empregada, enfim,
preocupava-se com as suas necessidades materiais, mas não fora as noites onde
se mostrava um amante apaixonado, Joana diria que o sentimento que ele tinha
por ela, não era diferente do que sentia pela sua tia, ou pela sogra. Essa sensação entristecia o seu coração, apagara o brilho dos seus olhos, e transformara o seu riso alegre, em sorrisos
breves. E fazia com que dona Ermelinda andasse cada dia mais preocupada com a
filha.
Naquela manhã, a jovem, que há uns dias se sentia
diferente, fizera o teste e descobrira que estava grávida. Noutras circunstâncias daria pulos de alegria, mas apreensiva como andava em relação ao casamento, o
facto só lhe trouxe maior preocupação.
A relação entre o marido e o pequeno Pedro, era tão
intensa, que Joana temia que ele não quisesse mais filhos, e que visse o novo
bebé como um intruso.
- Que se passa, Joana? Estás a bater essas gemas há dez
minutos.
Parou a batedeira e pegou na farinha, para a juntar às
gemas batidas com o açúcar.
- Nada, mãe, não te preocupes!
- Não me enganas. É com o teu marido? Aborreceram-se? Sim
porque com o Pedrinho, não é. Transpira saúde.
- Já te disse que não é nada. Apenas hoje não me sinto
muito bem. Devo ter dormido mal.
- Na tua idade, só se dorme mal por duas razões. Ou estás
preocupada ou doente. Se está tudo bem com o teu marido procura um médico. Não
estás bem encarada, e há muitas doenças silenciosas. Lembra-te. Mais vale
prevenir.
-Está bem mãe. Se não melhorar, vou ao médico. Agora, se
quiseres ajudar-me, vai moldando os brigadeiros...
E aqui estou eu... num dos eventos que vos disse ontem.
E aqui estou eu... num dos eventos que vos disse ontem.

