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3.12.19

CONTOS DE NATAL - UMA DÁDIVA INTEMPORAL







Comprar um presente de Natal pode ser o evento mais enervante do ano. E fazer compras para a minha mulher revela-se sempre um desafio especial. Os aspiradores são demasiado impessoais, os bilhetes de futebol são pouco funcionais, e os utensílios de cozinha são absolutamente proibidos.
O Natal aproximava-se a passos rápidos e eu estava em apuros. Em desespero de causa, pedi à minha secretária Sally para me ajudar a escolher um presente. Fomos até uma ourivesaria. Trabalhar na baixa tinha as suas vantagens; estar próximo de lojas onde fazer compras era uma delas. No entanto, havia também desvantagens.
Pelo caminho, cruzámo-nos com dois sem-abrigo, encolhidos numa saída de ar quente de um dos edifícios mais próximos. Comecei a atravessar a rua para os evitar, mas o trânsito estava muito congestionado. Mesmo antes de nos aproximarmos, troquei de lado com Sally, para evitar que ela tivesse que se deparar com eles. Iriam certamente pedir dinheiro, fingindo que era para comprar comida, mas qualquer donativo iria por certo acabar por ser gasto em cerveja ou vinho.
À medida que nos aproximávamos, conseguia ver que um deles teria provavelmente trinta e tal anos e que o outro era um rapaz por volta dos treze ou catorze anos. Ambos estavam miseravelmente vestidos. O mais velho tinha um blusão desportivo roto na manga, enquanto o rapaz estava sem qualquer tipo de casaco, tendo apenas uma camisa esfarrapada a separá-lo do vento cortante. “Mais uma ou duas moedas de vinte e cinco cêntimos e eles deixam-nos em paz”, pensei.
— Eu resolvo o assunto — disse eu a Sally, cheio de presunção masculina.
Mas Sally parecia imperturbável à vista dos dois mendigos. Na verdade, parecia até confortável na sua presença. Antes que eles pedissem alguma coisa, foi ela que ofereceu.
— Posso ajudar-vos? — perguntou aos dois.
Fiquei em estado de choque, à espera de ter que salvar Sally de uma situação perigosa, mas ela manteve-se firme. Os dois homens olharam para ela com surpresa e o mais velho disse:
— Sim, minha senhora. Na verdade, precisamos de uma coisa.
“Pronto, aí está a armadilha, a extorsão”, pensei. “Os dois pedintes estão à procura de uma esmola, de um ganho fácil”. Enquanto os observava, podia ver que o mais novo tremia com o vento invernoso, mas que podia eu fazer?
— Pode dizer-nos as horas? — pediu o homem mais velho.
Sally deu uma olhadela ao seu relógio e respondeu:
— Meio-dia e um quarto.
Ele agradeceu e não disse mais nada. Nós continuámos o nosso caminho até à ourivesaria, mas eu tinha que fazer umas perguntas a Sally acerca daquele encontro.
— Porque perguntou se aquele homem precisava de ajuda?
— Ele estava com frio e tinha outras necessidades, foi por isso — respondeu ela, num tom pragmático.
— Mas ele é um vagabundo. Podia ter tentado roubá-la ou algo assim.
— Eu sei tomar conta de mim e, às vezes, temos que confiar nas pessoas.
Chegámos à ourivesaria e Sally rapidamente encontrou o presente perfeito para a minha mulher: uns brincos de diamantes. Enquanto ali estava, comprou um relógio de homem. Não era um modelo caro, mas ela sempre fora poupada. “Provavelmente uma prenda para o marido”, pensei.
Quando regressávamos ao nosso edifício, os dois vagabundos andavam ainda a vaguear à beira da grade do passeio. Uma vez mais, tentei meter-me entre Sally e os dois homens, mas ela não deixou. Para minha surpresa, quando chegámos ao pé deles, retirou o relógio da mala e estendeu-o ao homem mais velho.
— Aqui tem. Tenho a certeza que lhe vai dar bom uso.
Ele ficou tão estupefacto quanto eu.
— Muito obrigado, minha senhora — disse, experimentando o relógio no pulso.
Enquanto ele se afastava, vi que Sally tinha lágrimas de comoção nos olhos.
— Porque fez aquilo?
Sally encolheu os ombros e disse:
— Deus tem sido tão bom para mim que decidi fazer algo de bom por ele.
— Mas ele não merecia.
— Até mesmo os pobres gostam de algo especial. Além disso, Deus fez coisas por mim que não mereço, mas Ele fê-las na mesma.
— Provavelmente ele vai comprar cerveja com aquele relógio.
Sally apenas sorriu para mim e disse:
— E se for? Isso não me diz respeito. O que ele vai fazer com o relógio é um desafio só dele.
Chegámos ao nosso prédio e fomos cada um para o seu escritório. Pus-me a pensar naquele encontro e nos dois homens. Certamente estavam na loja de penhores, preparando-se para obter uma boa “linha de crédito” às custas de Sally.
No dia seguinte, fui almoçar sozinho a uma barraca de hambúrgueres no exterior do nosso prédio. Enquanto caminhava pela rua abaixo, reparei nos mesmos dois homens que Sally e eu tínhamos encontrado. Andavam ainda a vaguear em volta do calor daquela saída de ar quente. O homem mais velho reconheceu-me e disse:
— Desculpe, senhor. Podia dizer-me as horas?
Pronto! Tinha-o apanhado. O relógio da Sally já tinha desaparecido. Exatamente como eu pensara.
— Onde está o relógio que a minha secretária lhe deu ontem? — perguntei, à espera de que ele sentisse remorsos.
Ele baixou a cabeça e admitiu a sua culpa:
— Lamento muito, mas tinha de fazer alguma coisa.
Foi então que reparei na capa para a chuva em torno dos ombros do seu jovem companheiro.
— O senhor não faria o mesmo por um dos seus? — quis ele saber.
Sem palavras, estendi-lhe vinte e cinco cêntimos e continuei o meu caminho.
À medida que caminhava, comecei a pensar no incidente.
Ele tinha vendido o relógio, mas tinha comprado um casaco com o dinheiro. O ato de generosidade de Sally tinha realmente sentido. Assim como as suas palavras: o desafio tinha sido superado.
Quando cheguei à barraca de hambúrgueres, perdi o apetite. Dei meia volta e regressei ao escritório. Os dois homens ainda estavam à beira da grelha. Bati no ombro do homem mais velho e ele levantou os olhos para mim, obviamente enregelado.
Despi o meu sobretudo cinzento e comprido e coloquei-o sobre os seus ombros sem dizer palavra. Enquanto me afastava, dei-me conta de que tinha descoberto o meu próprio desafio. Os poucos passos até ao escritório fizeram-me tiritar de frio, mas aquele foi um dos passeios mais quentes que alguma vez dei na vida.
Harrison Kell

24.7.18

O DIREITO À VERDADE - XLVI


Porém antes de regressar a Lisboa, Jorge e os dois jovens, foram a Viseu. Jorge foi consultar um advogado, saber o que necessitava fazer, para legalizar a sua posição de pai, e dar a Helena o seu nome.  E depois foram ao registo para iniciar o processo de casamento. Por fim, entraram numa ourivesaria, onde Cláudio comprou o anel de noivado.
 A jovem queria usar o que fora da mãe, mas nem o noivo nem os pais acharam bem. Afinal não fora um anel que trouxesse felicidade. No teu lugar, - disse-lhe o pai - vendia essas jóias de má memória. 
Regressou a Lisboa com o tio, e com a promessa de que tão depressa tratasse do que a levava a regressar, Cláudio iria buscá-la.
Em casa esperavam-na várias mensagens de Paula Correia, a sua melhor amiga. A única aliás a quem podia chamar de amiga. Desde criança, Helena sempre fora uma criança tímida e um tanto introvertida. Talvez por isso era pouco procurada pelas outras crianças para participar nas brincadeiras. No terceiro ano, a sua turma recebeu uma nova menina, que vinha transferida de outra escola. Paula Correia acabara de ser adotada por uma família daquela freguesia. A menina um pouco mais velha do que o resto da classe, nunca tinha conhecido os pais biológicos. Vivera sempre numa instituição, e aos dez  anos já não alimentava esperanças de que alguma família a quisesse, quando o casal que viria a adotá-la a conheceu, e embora inicialmente tivessem pensado adotar uma criança bem mais pequena, deixaram-se encantar com o seu ar doce e triste.
 As duas crianças, sentiram-se imediatamente atraídas, e em breve eram inseparáveis.  Paula estava atrasada em relação ao resto de classe e teria perdido o ano, se Helena, não se tivesse proposto ensiná-la. As duas passaram a estudar juntas. Helena era a melhor aluna da turma, Paula tinha uma capacidade de aprendizagem incrível e assim em pouco tempo tinha recuperado o atraso.  Desde então sempre tinham sido companheiras e amigas. No secundário e depois na faculdade. Na verdade Helena só se afastara no último ano por duas razões. Primeiro porque a doença da mãe, requeria que ela estivesse o máximo de tempo com a progenitora, pelo que mal saía das aulas ia imediatamente para casa. Segundo, a amiga arranjara namorado, e mesmo que a mãe não estivesse doente, ela ter-se-ia afastado na mesma, pois entendia, que quando duas pessoas se amam, bastam-se um ao outro, e qualquer intrusão não é aconselhável.
Porém quando a sua mãe piorara, Paula, foi um grande apoio. Ela passou muitas horas lá em casa, ajudando-a não só na tarefa de cuidar da mãe, como apoiando-a moralmente. Depois quando a mãe foi internada e até à sua partida, era raro o dia que não ia com ela ao hospital. Helena nunca iria esquecer tudo isso, muito embora a descoberta da sua origem e a consequente partida em busca da sua história, lhe tivessem feito esquecer-se da amiga.
E Paula estava preocupada e assustada com o seu desaparecimento, dizia numa das mensagens que lhe deixara. Também dizia que o seu telemóvel avariara, e ficara sem os seus contatos, por isso é que não lhe ligara para o telemóvel.
Helena ligou e combinou um encontro nessa mesma tarde, numa pastelaria da zona para lancharem e contarem uma à outra as novidades. E Lena tinha tanta coisa para contar à amiga.