Dias depois assinaram o contrato e com a ajuda do advogado, o casamento pôde realizar-se rapidamente. Agora estava casado, já ninguém lhe podia tirar a guarda dos filhos. Como oficial superior do exército português, Ricardo comandara uma força de elite, ao serviço da NATO, por dois anos. Depois voltara à unidade em Portugal, mas em breve partiria de novo para missões no estrangeiro. A companhia que comandava, era especializada em situações de conflito, não se justificava a sua permanência no país. Em serviço ele já estivera em vários pontos do globo, quase sempre em missões arriscadas. Se não tivesse casado, corria o risco da Segurança Social, considerar que as crianças estavam abandonadas, aos cuidados dos empregados, e que eles não teriam condições para as tratar com o cuidado que elas requeriam. Conhecia casos de pais que ficaram sem os filhos por essa razão. Os seus filhos, não tinham mais parentes. Os avós tinham morrido há muito, e ele fora filho único.
Casado, já não corria esse risco.
Olhou o relógio. Quase duas da madrugada. Guardou a
sua cópia do contrato, no cofre, e apagando a luz, subiu as escadas e
encaminhou-se para o seu quarto.
Despiu-se e dirigiu-se à casa de banho, onde tomou um duche rápido, escovou os dentes e vestiu umas calças de pijama.
Acabara de se
deitar quando ouviu o grito de Soraia. Saltou da cama. e abriu a porta de comunicação com o quarto das crianças,
mas ao entrar viu que Clara já tinha a criança ao colo, e a acariciava,
enquanto lhe murmurava palavras tranquilizadoras. Aproximou-se. Ela sussurrou:
- Está tudo bem, deve ter sido um pesadelo. Podes ir
dormir.
Ele assentiu. Inclinou a cabeça, deu um beijo na
menina, e foi até à cama do filho onde se deteve alguns instantes, talvez para
se certificar, que o menino não tinha acordado com o grito da irmã, e então
encaminhou-se para a porta de comunicação com o seu quarto. Ai voltou-se,
lançou um último olhar à mulher, que embalava a menina, e retirou-se fechando a
porta atrás de si. Estava cansado, o dia fora longo e a incerteza sobre a decisão que tomara também fizera o seu estrago. O relatório do investigador sobre aquela mulher não podia ser melhor, mas em relação ao sexo feminino ele era muito cético. Doía-lhe a cabeça. Abriu a gaveta da
mesa-de-cabeceira, retirou duas aspirinas, e engoliu-as.
Deitou-se, mas teve dificuldade em adormecer,
preocupado pelo facto da filha ter voltado a ter aqueles malditos pesadelos. Pouco tempo depois o
silêncio envolveu por completo a casa, e Ricardo pensou que a menina estaria de
novo a dormir. O seu corpo relaxou e acabou por adormecer.
Acordou, com um raio de sol no rosto. Olhou o relógio.
Quase nove horas. Franziu o sobrolho. Os filhos costumavam acordar cedo.
Normalmente pouco depois das sete iam ter com ele ao quarto. Saiu da cama, e
abriu a porta de comunicação. Estava vazio.
Vestiu umas calças de ganga, e uma camisa, e desceu. Encontrou-se com a
empregada que levava um jarro vazio para a cozinha
- Bom dia, Antónia.
- Bom dia, senhor. Sirvo já o pequeno-almoço.
- A casa está muito silenciosa. Onde estão os meus
filhos?
- Os meninos já comeram. Estão com a senhora no
jardim.
- Obrigado.
Dirigiu-se à sala. Tinha acabado de se sentar, quando
até ele chegou uma risada infantil. Levantou-se e foi até à janela. Os
filhos andavam de baloiço empurrados pela sua jovem esposa. As crianças pareciam encantadas com Clara. Era um bom sinal.
Voltou para a mesa, quando Antónia entrou com a bandeja do pequeno-almoço.
Voltou para a mesa, quando Antónia entrou com a bandeja do pequeno-almoço.
