17.4.18

RENASCER - XIV




- O pai já foi para o campo?- Perguntou enquanto partia um pedaço de broa
- Claro filho. Sei que contínuas sem te lembrares das coisas, mas aqui o dia começa muito antes de o sol nascer. Porquê?
- Porque gostaria de ir com ele. Poderia ajudá-lo.
- Nem penses nisso, - disse a mãe. Tens que te restabelecer, ganhar peso, pareces um pau de virar tripas.
- Ora minha mãe, a julgar por esta roupa nunca fui muito gordo, - disse despejando o leite do jarro para a caneca.
- Come e vai passear. Agasalha-te que o tempo está frio, apesar do sol brilhar, mas já sabes, sol de inverno não aquece. Eu e o teu pai queremos que passeies pelos arredores. Quem sabe vês alguém ou alguma coisa que te trás de volta a casa, às tuas lembranças, à tua vida passada.
- Começo a perder a esperança de que isso venha a acontecer algum dia, minha mãe.
- Tens pouca fé, meu filho. Deus não ia permitir que te salvasses para ficares o resto da vida assim. De resto, eu já fiz uma promessa a Nossa Senhora dos Remédios, e quero que vás lá comigo em passando o Natal para rezarmos juntos. E Nossa Senhora nunca me falhou.
- Está bem mãe, - disse empurrando a cadeira para trás e levantando-se. É só dizer quando quer ir. Agora vou seguir o seu conselho. Até logo.
Saiu e sem saber como nem porquê, seguiu na direção do rio. Tal como a mãe dissera o dia estava frio, mas não estava vento, e o sol embora não aquecesse, iluminava tudo, fazendo com que os montes se mostrassem em pleno recorte com o horizonte e que os telhados vermelhos sobressaíssem sobre a alvura das casas. Ouviu o apito do comboio, antes de o ver e ficou parado uns minutos até vê-lo aparecer. Depois retomou a marcha. Ia sem destino encantando-se com tudo o que via. Chegou perto do rio e olhou à sua volta. Viu as duas pontes, a velha de ferro mandada construir em mil oitocentos e setenta e dois pelo rei D Luís I, desativada desde mil novecentos e quarenta e nove, devido à degradação do seu tabuleiro em madeira que já não oferecia segurança, e a nova, a Ponte Ferroviária, assim chamada por ter sido criada para ligar Régua a Lamego, por comboio, num ramal que nunca chegou a ser criado. Acabou assim por se transformar em rodoviária e substituir a velha. Claro que ele não se lembrava de nenhum destes pormenores, mas ao olhá-las sentiu um aperto no peito, uma angústia que não sabia explicar, e que ao mesmo tempo o atraía como se fosse um íman.



Será que este episódio marca uma viragem na história?
Como já disse, hoje vou andar por Alenquer. Só voltarei à noite.

23 comentários:

noname disse...


Aiai ai ai - o que vem aí?

Bom dia, Elvira

Pedro Coimbra disse...

O comboio, tão presente na vida de tantas pessoas, vai ser um precioso auxiliar na recuperação da memória perdida.
É esse o meu feeling.
Bom passeio!

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história.

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Roaquim Rosa disse...

bom dia
talvez depois de atravessar a ponte .
Suspense !!!
JAFR

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Concordo com o comentário do Pedro.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

António Querido disse...

Bom passeio sem chuva!
Abraço.

Manu disse...

Talvez o comboio e o rio sirvam para reavivar memórias.

Bom passeio!

Abraço Elvira

✿ chica disse...

Algum desses detalhes que percebeu, fará com que um sininho toque,rs...Tomara! Bom dia e passeio! bjs, chica

Larissa Santos disse...

Bom dia Acho que este "íman" lhe vai trazer recordações... ;))

Hoje:- {Poetizando e Encantando} Se chegares, amar-me-ás eternamente.

Bjos
Votos de uma Óptima Terça-Feira.

Meu Velho Baú disse...

O comboio ? ou até as pontes relacionadas com o seu tempo no Ultramar ?
A escritora é que sabe :))
Beijinhos

Ontem é só Memória disse...

Estou a adorar esta história!
Espero que corra tudo bem em Alenquer!

Bjxxx
Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

Cidália Ferreira disse...

Bom dia!
Mas um episódio maravilhoso, acho que este passeio matinal vai mudar o rumo da historia ;)!!

Beijos e um dia feliz.

Bell disse...

A alma deve ficar aflita de você querer lembrar e nada vir a memória.
A fé é o que move a esperança.


bjokas =)

duarte disse...

Li com atenção esta historia, até ao capitulo XIV, que ainda não acabou?, pois como ele estive no Leste de Angola, Lungué, Vila Nova da Armada, etc. como Fuzileiro em 73, vim evacuado para o hospital da Marinha,e estou ansioso pelo resto da historia, bem haja.

jorge esteves disse...

Como estará, hoje, Alenquer?!...
De pertinho, uns seis quilómetros bem medidos à passada, da OTA onde estive uns bons meses, os primeiros, dos quase cinco anos na Força Aérea. Lembro-me da Felismina, da Odete, da Carolina...
Bom, não era disso o meu propósito aqui. Era o seu pedido. Que é um bocado travesso, diga-se. Como dar nome a um conto que a autora, a qualquer instante, muda-lhe o rumo, como se fosse caneiro da rega do milho?!...
Bom, mas até aqui - não tarda que a ferrovia, parece-me, mude a agulha... - se eu fosse a dar nome ao conto era menino para arriscar no o outro lado do destino, isto porque sei lá até onde foi essa amnésia!...
Espero pelo resto e... a ver vamos!
abraço, amiga!
jorge

esteban lob disse...

Son muy hermosas las historias de trenes, amiga Elvira. Sobre todo, de esas máquinas antiguas que llenaban de humo negro su entorno y junto con llenarnos los pulmones de males, nos alegraban el corazón con su candente vaivén.

Abrazo chileno.

Cantinho da Gaiata disse...

Será que este passeio lhe vai avivar a memória? Comboio, rio...
Vou esperar para ver.
Bj

Ailime disse...

Boa noite Elvira,
Gostei deste apontamento ferroviário. Estou ligada a Ferrovia de alma e coração.
Quem sabe se aquele aperto no peito não será o início de uma viragem na história.
Tomara!
Beijinhos,
Ailime

Kique disse...

E Alenquer estava bonito???
Bjs
https://caminhos-percorridos2017.blogspot.pt/

Gaja Maria disse...

Ummm. Já fiquei com as orelhas no ar :))

Duarte disse...

Sigo lendo, ainda que nem sempre me manifeste.
Aqui sim, porque sempre gostei de Alenquer.
Quando estava na Base da Ota íamos muito a Alenquer, era a cidade que estava mais perto, pois a Ota, povoação, não passava de meia dúzia de casas e muito campo.
Abraços de vida

Berço do Mundo disse...

Passei para pôr a leitura em dia.
Ruthia

Lucia Silva disse...

Acho que esse aperto no peito é justamente o início da recuperação da memória.
Beijos!