A vida que conhecera em África dera-lhe força para o que ia fazer e ajudaram-na a tomar uma decisão. Sabia que amava David, e que se ele a rejeitasse, ia sofrer muito. Mas não podia continuar a fugir dos seus sentimentos. Se não desse certo, vender-lhe-ia as suas ações e juntar-se-ia ao irmão em Marrere. Onde tudo falta, ela encontraria decerto uma boa razão para viver, e uma oportunidade de esquecer, a sua tragédia pessoal. Naquela manhã levantou-se cedo, tomou banho, vestiu o conjunto da segunda página do catálogo que tanto a encantara e comprara antes de partir, e seguiu para a fábrica. Passou pelo gabinete de Madalena que abraçou com alegria e depois bateu na porta do gabinete e entrou.
- Olá,- cumprimentou tentando aparentar uma naturalidade que não sentia.
Ele levantou-se. Estava mais magro, tinha um ar cansado.
Não devia ser fácil gerir as duas fábricas e simultaneamente preparar o catálogo para a próxima
época. Reparou no olhar de admiração quando a olhou. Seria pelo fato, que ele
reconheceria, como criação sua, ou pela sua presença?
-Olá. Julgava-te em Moçambique.
-Regressei na madrugada de ontem, mas levei quase vinte horas horas a dormir.
- Vens trabalhar?
- Ainda não. Vim convidar-te a jantares comigo. Na minha
casa.
Viu que como o corpo musculado enrijecia, enquanto o rosto se tornava pálido. Notou o apertar dos punhos, e antes
que ele falasse, inclinou-se para a frente e pediu.
-Por favor, não digas nada que não possa perdoar-te. Já
nos ferimos o suficiente. Tenho que te contar uma coisa, que pode ou não mudar
toda a nossa história. Se ainda tens algum carinho por mim, não faltes.
Ele esticou o braço e segurou-a pelo pulso. Olharam-se
profundamente, estudando-se mutuamente.
-A que horas? – Perguntou largando-lhe o pulso.
-Às oito.
Voltou-lhe as costas e saiu deixando o homem perplexo.
Ela seguiu para o supermercado onde fez as compras para o
jantar.
Uma perna de borrego para assar, os ingredientes para a
sobremesa, um gelado e vinho.
Fez um bolo de chocolate, preparou e pôs no forno o borrego
com batatas, e fez a salada. Hesitou sem saber bem como ia por a mesa, acabando
por decidir por uma mesa simples para duas pessoas, sem qualquer detalhe romântico
que o levassem a tirar conclusões apressadas, e não muito abonatórias para ela.
Com tudo pronto, foi tomar banho, e vestir-se. Acabava a
maquilhagem, quando ouviu a campainha. Abriu a porta e ele estendeu-lhe um
ramo de tulipas amarelas. Ela aceitou-as como uma promessa de paz e amor.
- Obrigada, são lindas. Entra, o jantar está pronto, é
só por as flores numa jarra, e levo-o já para a mesa.
Seguiu-a para a cozinha.
- Não tenho fome. Deixa as flores aí e vem para a sala. Quero
saber o que tens de tão importante para me dizer. Decerto não será que
estás grávida. Porque se é isso, escusas de tentar. Lembro-te que usei proteção.******************************************************************************
Na reta final. Será que estes dois, se vão entender?



