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11.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XXVII









A vida que conhecera em África dera-lhe força para o que ia fazer e ajudaram-na a tomar uma decisão. Sabia que amava David, e que se ele a rejeitasse, ia sofrer muito. Mas não podia continuar a fugir dos seus sentimentos. Se não desse certo, vender-lhe-ia as suas ações e juntar-se-ia ao irmão em Marrere. Onde tudo falta, ela encontraria decerto uma boa razão para viver, e uma oportunidade de esquecer, a sua tragédia pessoal. Naquela manhã levantou-se cedo, tomou banho, vestiu o conjunto da segunda página do catálogo que tanto a encantara e comprara antes de partir, e seguiu para a fábrica. Passou pelo gabinete de Madalena que abraçou com alegria e depois bateu na porta do gabinete e entrou.
- Olá,- cumprimentou tentando aparentar uma naturalidade que não sentia.
Ele levantou-se. Estava mais magro, tinha um ar cansado. Não devia ser fácil gerir as duas fábricas e simultaneamente preparar o catálogo para a próxima época. Reparou no olhar de admiração quando a olhou. Seria pelo fato, que ele reconheceria, como criação sua, ou pela sua presença?
-Olá. Julgava-te em Moçambique.
-Regressei na madrugada de ontem, mas levei quase vinte horas horas a dormir.
- Vens trabalhar?
- Ainda não. Vim convidar-te a jantares comigo. Na minha casa.
Viu que como o corpo musculado enrijecia, enquanto o rosto se tornava pálido. Notou o apertar dos punhos, e antes que ele falasse, inclinou-se para a frente e pediu.
-Por favor, não digas nada que não possa perdoar-te. Já nos ferimos o suficiente. Tenho que te contar uma coisa, que pode ou não mudar toda a nossa história. Se ainda tens algum carinho por mim, não faltes.
Ele esticou o braço e segurou-a pelo pulso. Olharam-se profundamente, estudando-se mutuamente.
-A que horas? – Perguntou largando-lhe o pulso.
-Às oito.
Voltou-lhe as costas e saiu deixando o homem perplexo.
Ela seguiu para o supermercado onde fez as compras para o jantar.
Uma perna de borrego para assar, os ingredientes para a sobremesa, um gelado e vinho.
Fez um bolo de chocolate, preparou e pôs no forno o borrego com batatas, e fez a salada. Hesitou sem saber bem como ia por a mesa, acabando por decidir por uma mesa simples para duas pessoas, sem qualquer detalhe romântico que o levassem a tirar conclusões apressadas, e não muito abonatórias para ela.
Com tudo pronto, foi tomar banho, e vestir-se. Acabava a maquilhagem, quando ouviu a campainha. Abriu a porta e ele estendeu-lhe um ramo de tulipas amarelas. Ela aceitou-as como uma promessa de paz e amor.
- Obrigada, são lindas. Entra, o jantar está pronto, é só por as flores numa jarra, e levo-o já para a mesa.
Seguiu-a para a cozinha.
- Não tenho fome. Deixa as flores aí e vem para a sala. Quero saber o que tens de tão importante para me dizer. Decerto não será que estás grávida. Porque se é isso, escusas de tentar. Lembro-te que usei proteção.

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Na reta  final. Será que estes dois, se vão entender?

31.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XII





David voltou-se. Parecia muito calmo, mas os seus olhos continuavam muito escuros, e se havia algo de que ela se tivesse apercebido no primeiro dia, é que os seus olhos ficavam claros como água, quando ele estava descontraído, e escureciam quando as emoções o assaltavam. Era um trunfo para ela, que não se deixou enganar com aquela calma aparente.
- Trouxe-te o catálogo da nova estação. Saiu hoje. Queres ver? – Perguntou estendendo-lho
Era como se lhe mostrasse uma bandeira branca.
Ela aceitou. Na verdade não conhecia o catálogo, nunca comprara roupas por aquele processo e estava curiosa.  Correu os olhos pelo vestido da capa. Muito bonito. Um corte simples mas muito elegante, voltou a página e encantou-se com um conjunto de saia-calça em seda, verde seco e uma blusa também em seda creme, de suave decote, e folho nas mangas. Levantou o rosto e mostrou claramente a sua surpresa.
- Bom, se todos os modelos forem assim, são muito bonitos. E elegantes. Quem é o estilista?
- Não tenho um estilista. Os modelos são desenhados por mim, embora às vezes a Rita me dê uma pequena ajuda com uma ou outra sugestão.
“Claro a Rita.” Pensou ela. E teve vontade de saber quem era a Rita, mas a pergunta que fez a seguir não tinha nada a ver com o que pensou.
- Quer dizer que foste tu que desenhaste este modelo?
-Esse e os outros, - respondeu com suavidade.
Ela lançou-lhe um rápido olhar e pensou que ele devia gostar muito do que fazia, pois os seus olhos mostravam -se tão claros e brilhantes como prata.
- Se não te importas gostaria de o levar para casa. Parece-me que vale a pena vê-lo com tempo.
Ele gostaria que o visse naquele momento, mas limitou-se a dizer.
-Trouxe-o para ti.
-Obrigada
Uma batida na porta, e logo depois Madalena entrou:
- O técnico deu por terminada a reparação da máquina. Diz que amanhã já poderá trabalhar em pleno.
- Graças a Deus. Diz ao Bruno para avisar o pessoal que vinha entrar à noite, para se apresentarem amanhã à hora normal.
Madalena saiu e Daniela, voltando-se para David explicou:
- A peça para a máquina avariada, só chegou esta manhã. Tenho tido metade do pessoal a trabalhar de dia, e a outra de noite, de modo a que a tecelagem não se atrase, e não deixe de cumprir os prazos. E a propósito, ainda pensas comprar as máquinas?
- Pedi orçamentos à fábrica. Ainda estou a estudar a situação


29.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE IX


David pôs de lado o catálogo da nova coleção que acabara de sair, e pôs-se de pé.
Alto, deveria rondar o metro e noventa, de um corpo bem musculado, e bastante moreno, de olhos cinzentos, a que as emoções escureciam tanto,   que quase pareciam negros. O cabelo negro, ligeiramente ondulado, cortado muito curto, o nariz retilíneo, o queixo quadrado. Era um daqueles homens que não passam despercebidos onde quer que se encontrem.  Foi até à janela, e por minutos pareceu interessado no movimento da rua.
Ouviu que batiam à porta e sem se voltar, mandou entrar.
A mulher que entrou, rondaria os quarenta e cinco anos. Era alta, loira e vestia rigorosamente de acordo com o seu lugar de secretária, de um homem que dirigia um dos negócios mais florescentes do momento. A moda feminina.
Voltou-se
- Que se passa, Rita? Não tinha dado ordens para não me interromperes?
- Desculpa, mas a Glória, não aceitou a tua ordem. Está no meu gabinete, e diz que nem que durma aqui, não se vai embora sem que a recebas.
Fez uma careta de aborrecimento.
- Fá-la esperar mais meia hora. Inventa uma desculpa qualquer. Pode ser que acabe por desistir.
Com a confiança adquirida ao longo dos muitos anos que era sua secretária, Rita, sorriu
- Não acredito. Mas farei os possíveis, chefe.
Ele arqueou a sobrancelha e o seu olhar escureceu. Ela sabia que ele não gostava quando lhe chamava chefe.
- Pronto, não te zangues, saio já.
E saiu fechando a porta. Ele esboçou um sorriso. Gostava dela. Era sua secretária desde que ele começara o negócio, num pequeno armazém, quando não era nem um décimo do que é hoje. A sua experiência, fora uma grande ajuda, para o jovem com a cabeça cheia de sonhos, e uma vontade férrea de triunfar, que ele era na altura. E tinha-o conseguido. Hoje, além da fábrica de confecções, tinha ações noutras empresas, e a ideia de continuar a expandir os seus interesses, tinha-o levado a adquirir ao amigo a metade da fábrica de tecelagem. Claro que era seu desejo acabar por ficar com a fábrica na totalidade. Pensava fazer uma boa oferta à jovem. Pensara que ela, tal como o irmão estaria desejosa de vender. Surpreendera-o a garra da jovem. Enfrentara-o. E ele não estava habituado a que mulher alguma o enfrentasse. Antes pelo contrário. Estava habituado a ter que dispensá-las com mais ou menos custo, quando começavam a aborrecê-lo. Como pensava fazer agora com aquela que aguardava na sala.



27.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE VI


Sentou-se na sua frente.
- Diga-me senhor Ribeiro, quais as suas intenções, ou planos que o levaram a comprar ao meu irmão, a metade desta empresa?
Ele inclinou-se para a frente, apoiou um braço na secretária sem deixar de olhar para ela.
- Senhor Ribeiro? Não lhe parece despropositado, dadas as circunstâncias? Parece-me que está zangada com o facto de eu ser o seu sócio a partir de agora. Mas se assim é, deve conversar com o seu irmão. Como deve saber, tenho uma firma de confecções por catálogo. Estou sempre em busca de novos tecidos, novos padrões. O meu catálogo, é um sucesso, vende imenso. Há muito tempo que ponderava, a compra de uma fábrica de tecelagem como esta. O oferecimento de venda por parte do seu irmão, veio ao encontro dos meus desejos. Claro que acalento o sonho de me vir a tornar o único dono. Estou disposto a pagar o que pedir pela sua parte, dentro da razoabilidade.
Daniela pôs-se em pé. O rosto corado, os olhos brilhantes, o seio arfando, pela ira. Estava tão bonita, que o homem semicerrou os olhos, tentando esconder a sua admiração.
- Está doido! Não vendo, nem morta. Esta firma sempre foi da minha família. E vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para recuperar a parte, que o irresponsável do meu irmão lhe vendeu, senhor Ribeiro.
- Bom, - disse ele com uma calma irritante, -sendo assim, seremos eternamente sócios, já que ambos somos movidos pelo desejo de posse. Então, vou mandar colocar neste gabinete outra secretária, e vou trabalhar aqui sempre que possível, já que como disse, tenho outros negócios que também requerem a minha presença. Pode continuar a usar esse tratamento ridículo de senhor Ribeiro, se isso lhe agrada, mas desculpar-me-á que a trate apenas por Daniela. Tenho o dia livre, de modo que vou mandar trazer a secretária, agora mesmo, e espero que disponha de tempo para me pôr a par de tudo o que se passa na fábrica. Preciso saber como estão as encomendas, e prazos de entrega, já que preciso de um novo padrão de tecido para o próximo catálogo e quero saber se é possível ser feito aqui, ou se tenho de recorrer à fábrica com que costumo trabalhar.
Fez uma pausa, enquanto a olhava fixamente. Ela susteve-lhe o olhar, sem pestanejar, num claro desafio, que o deixou surpreendido. Retomou a palavra
- Espero que cheguemos a um entendimento, não é agradável trabalhar em clima de guerra, mas se for essa a sua posição, acredite que não costumo fugir das contrariedades.
Levantou-se. À jovem pareceu ainda mais alto do que quando entrara no gabinete e o vira de costas. Não se parecia nada com o playboy que aparecia nas revistas. Aquele homem tinha uma personalidade forte, e uma grande dose de autoconfiança, o que o levava a ser um adversário temível. E fora bem claro nas suas intenções. Tinha que ir com cautela, ou a sua vida daí para a frente podia transformar-se num inferno.