A mãe, arrumou o quarto, pegou no vestido de noiva que estava pendurado no armário e estendeu-o em cima da cama alisando-o para ver se não haveria alguma ruga que lhe estragasse o brilho. Satisfeita com o resultado saiu e dirigiu-se à sala, onde as irmãs, cunhadas e sobrinhas esperavam.
-Celeste e Maria João, - disse dirigindo-se às duas sobrinhas, a Sofia está a tomar banho, decerto agradeceria a vossa ajuda para se vestir e pentear, eu vou-me vestir.
Entrou no quarto de casal, onde o marido andava às voltas com o nó da gravata, e procurou no armário o fato que ia levar ao casamento da filha. Estava muito nervosa. A falar verdade não lhe agradava nada aquele casamento arranjado entre o marido e o pai do noivo. É verdade que eles eram amigos desde sempre, e que ele era boa pessoa. Mas o rapaz fora para a França ainda miúdo sabe-se lá no que se teria tornado. Não se conformava. Nem percebia porque a filha tinha aceitado aquele disparate.
Já no quarto, depois do duche tomado, Sofia retirou da comoda um conjunto de peças íntimas, branco e um saiote comprido engomado, que serviria para armar a saia do longo vestido de noiva, e deu início à tarefa de se vestir, ajudada pelas duas primas.
-Não vestes combinação? - perguntou Celeste admirava.
-Não
Sabia que a mãe iria ralhar com ela, fazia-o sempre que ela não vestia combinação, mas era uma peça com que embirrava, e que pensava nunca mais usar a partir do seu casamento.
-Meu Deus Sofia, não sei como tens coragem de casar assim sem sequer conheceres o rapaz, - disse Maria João enquanto escovava o cabelo da prima. Eu não seria capaz.
-Eu também não, - disse Celeste, acariciando a seda do vestido. Ainda mais ir para tão longe, numa terra estranha, sem pai ou mãe, que te ajudem a ambientares-te. És muito aventureira.
Sofia limitou-se a sorrir. Estava feliz. Não porque estivesse apaixonada, ela nunca sentira tal sentimento por nenhum homem, apesar de sonhar com o amor.
Qual é a mulher que não sonha? As mulheres sonham com o amor, antes mesmo de começarem a pensar em homens. Só muito mais tarde, quando se enamoram, dão ao sonho um rosto, põe um nome ao amor.
Mas ela mal conhecia o futuro marido. Lembrava-se dele, apesar de ainda não ter nove anos, quando ele com quinze, fora visitar uns tios que tinham emigrado há muitos anos para a França. E por lá ficou com eles. Afinal a visita, não passara de um estratagema, para fugir do país e da mais que certa ida para a guerra do Ultramar. Com aquela idade não foi muito difícil, dois anos mais tarde, seria impossível. Teria que recorrer à fuga clandestina.
Nota: Esta história será publicada às Segundas, Quartas e Sextas
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