Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta urgências. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta urgências. Mostrar todas as mensagens

25.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XVII



 Enquanto esperava por ela depois de ter pago as suas compras, Nuno observava, o rosto delicado, os cabelos soltos, a figura esbelta. Não tinha dúvidas de que era uma mulher muito bonita. A jovem que ele amara, dera lugar a uma mulher em toda a sua plenitude. Era estranho que estivesse sozinha. Segundo o seu pai lhe dissera, ela estivera casada pouco mais de um ano. Seria que tinha amado tanto o marido, que não queria atraiçoar a sua memória? De qualquer modo isso não lhe interessava. Ele não a deixaria entrar na sua vida, não a deixaria saber do seu acidente, nem a deixaria saber que ele já não era um homem por inteiro.

Não, ele só queria vingar-se de toda a amargura que ela destilara na sua alma. Hoje era só o que lhe restava. Saborear a vingança.
Luísa acabou de meter as compras nos sacos, pagou e saiu.
- Não devias ter esperado. Estás a atrasar-te.
- Não tenho pressa. É sábado. Não tenho urgências este fim-de-semana. E não respondeste ao meu convite. Almoçamos juntos?
- Não posso mesmo.
- E jantar? Não me vais dizer que também não podes. Não estou a pedir nada de especial. Apenas um jantar de amigos.
-Está bem, - concedeu sem se atrever a olhá-lo.
- Há algum sítio da tua preferência?
- Não. Escolhe tu.

Tinham chegado junto do carro dela. Abriu o porta bagagens, e começou a arrumar os  sacos de compras.
- Às oito vou buscar-te. Mas tens que me dizer onde moras.
- Na mesma casa que vivia naquela época. A casa de meus pais.
- Está bem. Lá estarei às oito. Até logo.
Fez-lhe uma leve carícia no rosto, e afastou-se em direção do seu carro.
Luísa, ficou uns segundos a vê-lo afastar-se, depois entrou no carro e manobrou para sair do estacionamento e seguir para casa. Estava perturbada com o encontro. Nuno fora o único homem que amara, e era também o único,  desde a morte do marido, cuja aproximação não lhe provocava pavor.

Mesmo tendo passado catorze anos, e muitas horas de tratamento psicoterapêutico, ela ainda não se sentia muito confortável na presença do sexo oposto. Com Nuno as emoções que ela sentia, não tinham nada a ver com medo.  
Continuava a ser um homem bonito e com uma presença marcante.
Estranho, era não ter casado, pois adorava crianças, e ela lembrava bem dos  projetos que partilharam no passado. Uma casa com jardim, e espaço suficiente para criar três filhos.




17.1.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE I

 

Percorria a ala de pediatria no terceiro piso do hospital, quando o som da sirene de uma ambulância lhe chegou aos ouvidos , logo seguido de outros sons igualmente agudos o que lhe trouxe à memória outros sons outras paragens.
Aproximou-se da janela que dava para a entrada do hospital, onde se situavam as urgências. Viu duas ambulâncias paradas e pelo menos mais três que se aproximavam. Apressado deu a volta, e encarando a enfermeira que se encontrava junto de uma das camas, disse:
- Parece que esta visita terá que ficar para mais tarde. Se surgir alguma complicação estarei nas urgências.  
Afastou-se. Estava quase a chegar aos elevadores, quando ouviu ;
- Atenção doutor Albuquerque! Solicita-se a sua comparência imediata nas urgências.
O elevador acabara de parar junto dele e apressou-se a entrar. Era um homem alto, de cabelos negros, já quase grisalho nas têmporas.
Testa alta, nariz retilíneo, olhos cinzentos, queixo firme e boca bem desenhada. Teria pouco mais de quarenta anos, mas a sua expressão dura, e o seu olhar frio, faziam-no parecer mais velho.
Percorreu a distância do elevador até às urgências em meia dúzia de passadas rápidas.
Ali reinava o caos, com várias macas de crianças a chorar.
-Foi um acidente com um autocarro de miúdos que iam em passeio de estudo – informou a enfermeira. 
 O médico não respondeu. Depois de um breve olhar pelas macas dirigiu-se a uma delas e observou a criança. Dirigindo-se à enfermeira com quem falara momentos antes, disse.
-Enfermeira leve esta criança para o bloco operatório, e reúna a equipa de cirurgia. 
Chamou outra das enfermeiras.
- Por favor, verifique os médicos que se encontram no bloco das consultas externas, e diga-lhes para virem para cá. É uma emergência, não sabemos quantos feridos graves serão, é necessário atuar rapidamente. Vou para o bloco operatório. Aquele menino está com uma hemorragia interna. Poderá haver outras crianças na mesma situação.
Debruçou-se sobre um miúdo que chorava em silêncio. Observou-lhe o corte na testa, verificou as suas pupilas e certo de que o corte não oferecia gravidade, afastou-se em direção ao bloco operatório

17.5.21

COMEÇAR DE NOVO -- PARTE VII

 




 Entraram na sala e sentaram-se. Ninguém diria ao vê-los que eram irmãos. Ele era alto, moreno, de olhos e cabelos castanho-escuro, quase pretos. Como o pai. Ela, teria pouco mais de metro e meio, loira e de olhos azuis. Como a mãe.

- Hoje estou no turno da noite. Nas urgências.

- Trabalhas de mais. Dentro de dias fazes trinta e cinco anos. Desde que terminaste o curso vives praticamente no hospital. Só sais de lá para nos apoiar.  Nunca te vi entusiasmado por ninguém. Não há lá pelo hospital, nenhuma mulher interessante?

- Sabes porque saí do hospital no Porto e vim para cá?

- Porque o Quim morreu e vieste cuidar de mim.  Sinto-me tão mal, por isso. Tinhas a tua vida lá.

- Nada disso, maninha. Talvez nunca te tenha dito, mas a verdade é que já tinha pedido a transferência para este hospital antes do aneurisma que vitimou o teu marido. E sabes porquê? Porque a nossa mãe passava a vida a apresentar-me as encantadoras filhas das suas amigas. Acredita que nunca pensei que ela tivesse tantas amigas. Parece que todas as jovens desde Braga até ao Porto e arredores eram filhas de amigas suas.

- E por isso fugiste? E eu que pensava que tinhas vindo por mim!

 -Não sejas tonta. Se não tivesse já pedido a transferência tê-lo-ia feito nessa altura. Não ia deixar-te cair numa depressão grávida de seis meses e com a Sara a precisar mais do que nunca de ti. És a minha irmã preferida, faria qualquer coisa por ti e sei que farias o mesmo por mim. Mas a verdade é que na altura já tinha pedido a transferência.

-Também és o meu irmão preferido, - disse Laura sorrindo. - Ou não fôssemos só dois. Falando sério, Gonçalo. Nunca houve uma mulher que te interessasse? Nunca te apaixonaste?

- Talvez, quem sabe?

- Meu Deus! Quer dizer que não queres saber de ninguém porque já deste o coração a alguém? Um amor impossível? Quem é?

- Ninguém. Referia-me a que mais tarde ou mais cedo todos nós tivemos uma paixoneta. Lembras-te da Inês Salgado aquela menina sardenta que na primária andava sempre atrás de mim, e que aos doze anos me trocou pelo Nuno Carvalho? Pois foi só depois disso é que descobri a minha paixão por ela, - disse rindo

- Não disfarces Gonçalo. Se não queres contar, eu respeito, mas sempre te digo que se não deu certo uma vez não quer dizer que rejeites todas as oportunidades de seres feliz.

- Mas é que não há mesmo nada para contar, acredita-me! 

Nesse momento ouviu-se o balbuciar de um bebé e Laura levantou-se de imediato

-O teu afilhado acordou. Já volto.

 


14.12.19

CONTOS DE NATAL - A TRABALHAR NO DIA DE NATAL








Aquele 25 de Dezembro era um dia invulgarmente sossegado nas urgências. Sossegado, isto é, exceto no caso dos enfermeiros, especados em torno do posto de enfermagem, resmungando por terem de trabalhar no Dia de Natal.

Naquele dia eu era a enfermeira de triagem e tinha acabado de sair para a sala de espera para fazer umas limpezas. Como de momento não se viam doentes à espera, voltei ao posto de enfermagem para tomar uma chávena de cidra quente do jarro que alguém tinha levado para beber no Natal. Nessa altura, um funcionário das admissões regressou ali e disse-me que tinha cinco doentes à espera de serem avaliados.


Eu lamentei-me:

— Cinco? Como é que fiquei com cinco? Ainda agora estive lá fora e não havia ninguém na sala de espera.

— Bom, há cinco pessoas inscritas.

Portanto, eu saí dali e chamei o primeiro nome. Cinco corpos vislumbravam-se no meu balcão de triagem, uma mulher pequenina e pálida e quatro criancinhas com roupas um tanto amarrotadas.

— Estão todas doentes? — perguntei com algumas suspeitas.

— Sim — disse ela em voz débil e baixou a cabeça.

— Muito bem — respondi, sem convicção. — Quem é a primeira?

Uma a uma elas sentaram-se, e eu fiz as habituais perguntas preliminares. Quando chegou ao momento de descrever os problemas que as levavam ali, as coisas tornaram-se um tanto vagas.

Duas das crianças tinham dores de cabeça, mas essas dores de cabeça não eram acompanhadas da linguagem corporal habitual, como segurar a cabeça ou tentar mantê-la imóvel ou semicerrar os olhos ou fazer caretas. Outras duas tinham dores de ouvidos, mas apenas uma conseguia dizer-me qual dos ouvidos estava afetado. A mãe queixava-se de tosse, mas parecia esforçar-se por produzi-la.

Algo estava errado naquele cenário. A política do nosso hospital, contudo, não era a de recusar pacientes, portanto nós iríamos vê-los. Quando expliquei à mãe que poderia demorar algum tempo até que um médico pudesse vê-la, mesmo estando a sala de espera vazia, que as ambulâncias tinham trazido vários doentes em estado crítico para as traseiras do hospital, ela respondeu:

— Levem o tempo que for preciso; aqui está quentinho.

 Depois voltou-se e, com um sorriso, conduziu a sua prole para a sala de espera.

Num pressentimento (chamem-lhe instinto de enfermeira) espreitei a ficha depois do funcionário das admissões ter acabado a inscrição da família. Morada não havia — eram sem-abrigo. A sala de espera estava quente.

Espreitei a família amontoada à volta da árvore de Natal. A mais pequenita estava a apontar para a televisão e a dizer qualquer coisa à mãe. A mais velha olhava para o seu reflexo num enfeite da árvore de Natal.

Regressei ao posto de enfermagem e referi que tínhamos uma família de sem-abrigos na sala de espera — uma mãe e quatro crianças, entre os quatro e os dez anos de idade. Os enfermeiros, a resmungar por causa do trabalho no Natal, passaram a preocupar-se com uma família que apenas tentava aquecer-se no Natal. A equipa passou à ação, tal como quando temos uma emergência médica. Mas esta era uma emergência de Natal.

No dia de Natal todos nós tínhamos a oferta de uma refeição grátis na cafetaria do hospital, portanto pedimos essa refeição e preparámos um banquete para os nossos convidados de Natal.

Precisávamos de presentes. Juntámos laranjas e maçãs num cesto que um dos nossos fornecedores tinha trazido para o departamento para o Natal. Fizemos pequenos pacotes para presente com autocolantes que fomos buscar ao departamento de radiologia, doces que um dos médicos tinha trazido para as enfermeiras, lápis de cor que o hospital tinha de um recente concurso de pintura, botões em forma de ursinhos que o hospital tinha dado aos enfermeiros na formação anual, e ursinhos felpudos que os enfermeiros prendiam nos seus estetoscópios. Encontrámos também uma caneca, uma embalagem de cacau em pó e mais uma miscelânea de coisas. Tirámos laços e papel de embrulho e sininhos das decorações do departamento para as quais todos tínhamos contribuído.

Tão a sério como quando tentámos ir ao encontro das necessidades físicas dos doentes que vieram até nós naquele dia, a nossa equipa trabalhou para suprir as necessidades e superar as expectativas de uma família que apenas queria estar quente no dia de Natal.

Fizemos turnos para podermos juntar-nos à festa de Natal na sala de espera. Cada enfermeiro ou enfermeira fazia a sua pausa para almoço com a família, mas escolheram passar o seu tempo de “folga” com estas pessoas cujas risadas e tagarelice deliciosas se tornavam bem contagiantes. Quando chegou a minha vez, sentei-me com elas na pequena mesa de banquete que tínhamos preparado na sala de espera. Falámos durante um pedaço acerca de sonhos. As quatro crianças começaram a contar-me o que queriam ser quando crescessem. A de seis anos deu início à conversa:

— Eu quero ser enfermeira e ajudar as pessoas — afirmou ela.

Depois de as quatro crianças terem partilhado os seus sonhos, olhei para a mãe.

Ela sorriu e disse:

— Eu só quero que a minha família esteja em segurança, quente e satisfeita — assim como estão agora.

A “festa” durou a maior parte do turno, até conseguirmos encontrar um abrigo que daria guarida à família no Dia de Natal. A mãe tinha pedido que as suas fichas fossem retiradas, para que estes doentes não fossem vistos nesse dia no serviço de urgências. Mas foram tratados.

À medida que caminhavam em direção à porta para se ir embora, a de quatro anos veio para trás a correr, deu-me um abraço e suspirou:

— Obrigada por terem sido os nossos anjos hoje.

Quando correu de novo para ter com a família, todas me disseram adeus mais uma vez antes que a porta se fechasse. Dei meia volta, devagar, para voltar ao trabalho, um pouco envergonhada pelas lágrimas que tinha nos olhos. Uma colega nossa tinha com ela uma caixa de lenços que foi passando a cada enfermeira que estava a trabalhar.

Num dia de Natal que nunca mais iríamos esquecer.

Victoria Schlintz

4.7.18

O DIREITO À VERDADE - XIII






Depois de ter deixado, Helena no hotel, Cláudio voltou ao hospital. Não estava preocupado, sabia que a cirurgia da mãe, tinha corrido bem, ela estava cada dia melhor, e embora nesse dia ainda não a tivesse visto, sabia que o pai estava com ela desde o meio-dia, e se houvesse alguma alteração, ele tinha-lhe telefonado. Desde que a mãe fora internada, que o pai não saía da cabeceira da sua cama, durante todo o tempo que as normas do hospital permitiam que a pessoa significativa do doente estivesse com ele. Assim, eles vinham logo de manhã para a cidade, ( o pai nunca mais conduzira desde que há seis anos tivera um grave acidente), e só voltavam a casa já de noite.
Entrou no quarto e viu o pai sentado ao lado da cama com a mão da mãe entre as suas. Enterneceu-se. Era tão bonito o amor daqueles dois. Beijou a mãe, e ela levantou a mão para lhe acariciar o rosto. Sempre foi assim. Cada vez que a beijava, ela nunca retribuía só com um beijo. A sua mão sempre lhe proporcionava uma carícia.
-Como te sentes hoje, mãe?
- Se não tivesse dores, no céu. Nunca me senti tão apaparicada. E tu? Aconteceu alguma coisa? Vieste atrasado.
- Atropelei uma jovem, e passei uma parte da tarde com ela nas urgências. Mas não foi nada demais. Ela só ficou pisada da pancada, não partiu nada. E não comeces já a dizer que devo ter cuidado, porque foi ela que se atirou para a frente do carro. Não podia fazer nada.
Deu a volta à cama e juntou-se ao pai. Pôs-lhe a mão no seu ombro e apertou suavemente, num gesto carinhoso. O pai levantou uma mão, e pousou-a sobre a sua, retribuindo o carinho.
- Conhecia-la?- Perguntou a mãe.
 Os dois homens trocaram um olhar e riram.
- A tua mãe já está fazer um filme. Aposto que já está a pensar nalguma Julieta desprezada, a tentar acabar com a vida, para deixar-te cheio de remorsos.
-É bem capaz disso, -disse sorrindo. Foi uma distração que podia ter sido fatal mas acabou não passando do susto.Uma jovem, atravessou a passadeira sem reparar que o sinal dos peões estava vermelho. Eu travei a fundo, mas não consegui evitar o embate, estava demasiado perto. Foi uma distração que podia ter sido fatal mas acabou não passando do susto.
- Era bonita? – Perguntou a doente
- Toma cuidado filho. Com a vontade que a tua mãe tem de te ver casado, daqui a pouco está a pôr-te no altar com essa mulher.
- Não há esse perigo, pai. Segundo me disse, está de passagem, chegou hoje e parte depois de amanhã.
-Hum. Porque será que tenho a impressão de que isso te aborreceu?
- Mau, não vais começar tu também. Já me basta a mãe. É verdade que a jovem é bonita, que me pareceu diferente das raparigas da sua idade, e de que gostaria mais que ela vivesse na cidade. Sempre podia ser uma companhia enquanto a mãe está no hospital. Mas não é, depois de amanhã vai-se embora e provavelmente, nunca mais a vejo. E é tudo.
A auxiliar entrou com o carrinho do jantar, e sorrindo disse.
-Ora aqui está o jantar da nossa doentinha. E que é que vai dar-lhe o jantar hoje, – perguntou levantando a cama.
- Eu, - disse o marido desdobrando o resguardo para colocar em cima da cama e no peito da doente.
-E eu dou-te apoio moral, - disse Cláudio sorrindo.
A auxiliar riu.
-A sua vida  ao lado destes dois deve ser uma diversão,- comentou. 
A doente limitou-se a sorrir.