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12.11.19

INSÓNIA.

Reedição                                                  

                                             INSÓNIA

A noite vai alta.

No céu, sem nuvens, as estrelas observam curiosas. Num prédio igual a tantos outros, alguém abre lentamente uma janela. Angustiada a figura masculina,  interpõe-se por momentos, entre a luz da rua, e as sombras do quarto. Perpassam-lhe pela memória os acontecimentos daquele sábado. Como se estivesse no cinema, assiste ao filme da sua vida. Na verdade, ela, a Vida nunca fora fácil para ele. Tudo o que era e o que tinha arrancara dela à força.
O tempo passa, o filme chega ao fim. O sono não veio. Um carro passou rápido, quebrando por momentos o silêncio quase religioso em que a noite mergulhara. Abanando a cabeça, como quem sacode pensamentos dolorosos, o homem deu meia volta e afastou-se da janela. Um raio de luar, veio qual amante atrevido, pousar no corpo da mulher, que nua, na cama, dorme docemente...
Como atraído por um íman, o homem  olha-a. E sobressalta-se. Como se só naquele momento desse pela presença feminina. Ou talvez quem sabe, vê-la assim, nua, banhada pelos raios lunares, qual deusa adormecida, tivesse despertado o Amor, que as preocupações diárias, tinha sepultado no seu subconsciente. A paixão incendiou-lhe o peito, o desejo adormeceu-lhe as preocupações.
Naquele momento deixou de existir o mundo lá fora. Nada além daquele quarto, daquela mulher, e do amor que sentia por ela lhe importava. Ansioso, caminhou para a cama. As suas mãos, frenéticas perderam-se naquele corpo tão conhecido, reinventando carícias, ansiando perder-se nele.
A mulher acordou. Soltou um gemido, e enlaçou o corpo masculino. Não sabia que horas eram, mas que importava isso? O momento era aquele. E deixou-se submergir no mar de paixão, que a envolvia.
Pela janela, a lua enlaçou os dois amantes, como protegendo aquele Amor.




Fim

Enquanto eu ando às voltas com os sucessivos problemas de saúde continuam por aqui as reedições. Aos que já conhecem peço desculpa



24.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE IV



Passou a mão pela testa, tentando afastar os pensamentos dolorosos. A vizinha tinha razão, ela devia entrar em contacto com o pai da criança. Afinal era isso que a irmã desejava que ela fizesse. Mas… e se ele lhe quisesse tirar a menina? Ela morreria de dor. Matilde era muito mais que sua sobrinha.
Tinha quase trinta e três anos, e o único namorado que tivera, acabara o namoro quando a sua mãe morreu e ela assumiu a responsabilidade de acabar de criar a irmã. Ele não estava disposto a começar uma vida com tal encargo. Depois disso, dedicara-se por completo à irmã, e depois à sobrinha. Acreditava que lhe queria tanto como se fosse sua filha. Por isso a criança lhe chamava mãe. Na verdade nunca conhecera outra.
Mas será que ele ia querer saber duma criança fruto de uma aventura passageira? E se lhe escrevesse uma carta e lhe mandasse a cópia da certidão de nascimento da menina? Assim era melhor, se não obtivesse resposta à carta, era sinal que ele não se interessava e pronto, assunto arrumado.
Ouviu o sinal de que a máquina acabara de lavar. Levantou-se e foi estender a roupa. Logo de seguida, ouviu a criança a chamar, e foi tirá-la da cama. Levou-a para a cozinha e deu-lhe o lanche. Depois mudou-lhe a roupa, e a criança riu feliz e bateu as palmas, quando lhe disse que iam ao parque.
Pôs no saco um biberão com água, colocou e prendeu a menina no carrinho, deu-lhe o seu peluche preferido, pegou na mala, nas chaves e saiu. Tocou a campainha do andar em frente e uns segundos depois a vizinha abria a porta.
- Vou ao parque com a Matilde. Quer vir connosco?
-Se esperar uns minutos, enquanto calço uns sapatos, e dou uma penteadela ao cabelo, vou.
-Claro que esperamos.
De facto, Natália, não demorou mais do que dois minutos a voltar. Fechou a porta e as duas saíram do prédio e encaminharam-se para o parque que ficava muito perto. No seu carrinho, Matilde palrava num alegre conversa com o seu peluche. Ficava sempre radiante quando ia ao parque. Gostava de andar de baloiço, e de atirar pedacinhos de pão para o lago. Ria alto e batia palmas sempre que algum dos patos apanhava o pão.
Tinha começado a andar há pouco tempo, ainda não conseguia dar mais que três quatro passos sozinha, mas agarrada aos móveis corria a casa toda. Também palrava imenso, mas palavras, dizia poucas. Pronunciava bem, mãe, e não. Depois havia outras palavras, que não sendo corretas se entendiam perfeitamente. " vó Taia” para chamar Natália, “Bias” o seu peluche preferido Tobias, (ão ão), cão (áua) água. As duas mulheres, tal como todas as mães e avós sorriam enlevadas a cada nova gracinha da bebé.