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28.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLIV






EPÍLOGO


Um ano e dois dias depois…
A elegante e sofisticada mulher que se encontrava no salão, tinha tantas semelhanças com aquela outra Luísa, que ela fora até há um ano atrás, como uma lagarta com uma borboleta.
Estava tão diferente, que às vezes ela mesma tinha dificuldade em se reconhecer. Mas se a aparência mudara e muito, ela sentia que a maior transformação ocorrera dentro de si mesma. Agora é uma mulher confiante, que conhece bem o seu valor e isso fez-se notar também na sua arte, agora mais madura e mais forte, de acordo com a opinião dos críticos sobre a sua última exposição realizada no mês anterior. E tudo isso ela deve ao amor e incentivo de Gil, o seu marido, que desde o primeiro momento descobriu nela a beleza e talento, que ela desconhecia possuir. 

Parabéns a você  
nesta data querida  
muitas felicidades  
muitos anos de vida.

Hoje é dia de festa 
cantam as nossas almas 
para a menina Mariana  
Uma salva de palmas.

Gil pegou a filha ao colo e aproximou-a do seu bolo de aniversário para que a menina soprasse as duas velinhas. Depois voltou a sentá-la, na sua cadeirinha no topo da grande mesa, e, enquanto Inês pegava na faca e começava a partir o bolo que Celeste distribuía pelos convidados, Gil deu a mão à mulher que estava a seu lado, e disse:
- Telefonou a dona Aurora, para dar os parabéns à Mariana. Diz que tem ido uma vez por semana lá a casa abrir as janelas, que está tudo em ordem e que tem muitas saudades das vossas conversas. (Após o casamento, tinham  decidido manter a casa, o sítio idílico, era ideal para alguns dias de férias no Verão, não só para o casal como para os familiares.) Convidei-os para virem passar o Natal connosco. Afinal são os nossos padrinhos de casamento, e não têm mais família.
- Obrigado – disse ela pegando um bocado de bolo e levando-lho à boca. Depois perguntou baixinho:
-Estás feliz?
Ele inclinou-se e respondeu no mesmo tom
-Duvidas? Tenho a meu lado a mulher que amo, que realizou todos os meus sonhos de homem apaixonado, que é uma excelente mãe, e em breve me vai dar um novo filho. E olha à tua volta. Que vês? Laura e o seu marido Alcides, recém-casados, alegres e felizes, Marco com Isabel, sua esposa, e o filho Manuel de dez meses. Inês, a ama e o seu filho Luís, que ama a nossa menina e a considera como uma irmã mais nova, a quem satisfaz todos os caprichos. E as empregadas? Da cozinheira à governanta, estão
alegres e felizes.  Até Luna, a minha agente, irradia felicidade. Todos estão  em festa e isso, deve-mo-lo a ti, que me salvaste a vida e me devolveste para eles - disse enlaçando-a com carinho.
-Não, amor, não – protestou ela. Se alguém aqui deve algo, sou eu.
O teu amor, fez daquela Luísa provinciana e sem graça a mulher que hoje sou. Graças a ti, e ao poder do teu amor, hoje sou uma nova mulher e uma pintora muito melhor. Repara, o meu irmão e a sua noiva olham-me com carinho e orgulho. Até o meu pai e a sua mulher, deixaram de me ignorar.
Gil apertou a mulher ao peito e acariciou-lhe os cabelos enquanto olhava à sua volta. Inês tirava Mariana da cadeirinha e punha-a no chão. Luís deu-lhe a mão e iniciaram uma brincadeira num canto da sala onde estava uma manta com vários brinquedos. “Para o ano, irá para o infantário, precisa conviver com outras crianças” - pensa.
Inês é uma mulher jovem. Um dia voltará a apaixonar-se, quererá casar, ter a sua casa, a sua família e ele irá ajudá-los, porque ela e o filho, já são como família. Mas enquanto isso não acontece, ela será a ama do pequeno Luís que está para nascer, e cujo nome ele escolheu em homenagem a Luísa.
Respira fundo e sorri. Pensa que apesar de todos os seus esforços, o mundo não mudou muito, mas tem consciência de que fez a sua parte para torná-lo um pouco melhor. Agora a sua tarefa vai ser, criar nos filhos que tiver, a mesma consciência que sempre o regeu. Cada um deve olhar à sua volta e dentro das suas possibilidades, trabalhar para um mundo mais justo.
-Alô, alô, daqui planeta terra, chamando Gil Gaspar! - disse Luísa, vendo o ar sonhador do marido.
Ele sorri, inclina-se e beija a esposa pensando: "Quando se tem o mundo nos braços, não há lugar para os sonhos"!


FIM


NOTA FINAL: Espero que tenham gostado deste final cor-de-rosa, escrito a vosso pedido, pois como sabem, eu tinha terminado a história com o acidente do Gil e cada um de vós imaginaria a seu gosto o que tinha acontecido.
devido ao estado dos meus olhos tenho cada vez mais dificuldade em escrever, pelo que a seguir vão entrar reedições que servirão para os leitores novos e para os antigos que queiram recordar.
continua á espera de ser chamada para o transplante, que quando lerem este final até já pode ter acontecido, e como não sei quando poderei voltar,, após a cirurgia, estou a programar posts a longo prazo.
de qualquer modo quando isso acontecer, eu,  ou o meu filho, daremos notícias 

15.12.18

A CAMINHO DO NATAL




O inverno tinha chegado e com ele a neve que caía em grandes flocos. A água deixara de correr nos ribeiros gelados, e as aves, empoleiradas nas árvores, já não cantavam, de cabeça recolhida debaixo das asas. Um vento glaciar obrigava as pessoas a manter-se em casa ao canto da lareira.
Naquela terra corria o rumor de que o senhor de um reino longínquo andava à procura de alojamento para o seu filho.
Simão, um mercador rico da cidade, que vivia sozinho com a mulher numa grande mansão, tinha ouvido falar disso. Esse tal rei vem de certeza bater-me à porta, pensava ele, pois a minha casa é a mais linda da região!
E ficou no limiar da porta, à espreita, esperando o coche real.
Mas a rua permanecia escura e deserta.
A mulher de Simão entrou na sala. Caminhava com dificuldade, de costas curvadas, apoiada numa bengala. Tinha imensas dores de pernas. Trazia um castiçal que pousou em cima da mesa.
— Uma vela só é muito pouco! — disse o marido em tom de crítica — Acende todas as lanternas da casa e põe uma em cada janela.
— Tanta luz para quê? — admirou-se a mulher.
— Vai vir um rei a nossa casa! — explicou Simão. — A casa tem de se ver ao longe, de noite. Se ficar cá, receberemos uma bela recompensa. É por isso que deves iluminar as janelas. Despacha-te! E prepara uma boa refeição, digna de um rei. Anda, despacha-te!
A muito custo a mulher deu volta à casa a iluminar todas as janelas. Tinha chegado à última divisão quando alguém bateu à porta. Foi abrir muito devagar.
O recém-chegado trazia um casaco já muito puído e, nos pés, uns sapatos rotos.
— Boa noite, minha senhora — disse ele — Será que poderia alojar o meu filho só por esta noite? Está tanto frio cá fora!
O homem tinha ar de mendigo, mas o seu rosto resplandecia. E os olhos emitiam um brilho estranho que parecia vir do mais profundo da alma.
Mas Simão não deu por nada. Só via os farrapos do pobre.
— Vai-te embora! — disse ele. — Esta casa não é para mendigos!
— A minha recompensa será grande — disse o forasteiro. — E vale mais do que todo o ouro e todas as riquezas deste mundo.
Simão desatou a rir, trocista:
— E onde escondes tu os tesouros? Debaixo desses farrapos ou no teu saco roto?
Entretanto a mulher de Simão tirara o xaile e entregara-o ao mendigo. Também lhe deu uma fatia de pão e uma chávena de leite.
— É tudo o que lhe posso dar! — murmurou.
— Muito obrigado! — disse o forasteiro.
E pegando na bengala em que ela se apoiava, arrumou-a junto do armário.
— Daqui em diante não vai precisar mais dela! — acrescentou, antes de desaparecer na noite. Envolvia-o um halo de luz.
A mulher sentiu-se de imediato livre dos seus sofrimentos. As pernas já não lhe doíam. Endireitou-se e deu alguns passos.
— Estás a andar como dantes! — exclamou Simão maravilhado. — E a bengala?
— Já não preciso dela! — disse a mulher com voz trémula. — Foi um milagre. O forasteiro curou-me…
— Um mendigo que faz milagres? Deixa-te de tolices! — resmungou Simão.
— Aquele desconhecido irradiava uma luz especial… — prosseguiu ela — O Rei é ele, tenho a certeza, um Rei vindo de longe…
Simão ficou pensativo. O desconhecido tinha falado numa recompensa que valia mais do que todo o ouro e todas as riquezas deste mundo. E acabava de realizar um milagre. Então Simão compreendeu…
— O que eu fui fazer! Que miserável sou! — exclamou ele — Depressa, tenho de o encontrar!
Enfiou as botas e o casaco e saiu a correr.
Tinha parado de nevar. O vento glaciar deixara o céu a descoberto, agora semeado de estrelas. No silêncio da noite, Simão ouviu uma voz que o chamava ao longe. Mas não via ninguém. Descobriu pegadas na estrada, e pôs-se a segui-las, descendo em direção à igreja. Ali, encontrou uma mulher a chorar.
— Que te aconteceu? — perguntou ele.
— Tenho muito frio! — gemeu a idosa.
Então, cheio de remorsos, Simão deu-lhe o casaco.
Depois continuou a caminhar, seguindo as pegadas na neve. Um pouco mais à frente, viu um rapaz a soluçar. Também ele tinha frio, descalço na terra gelada, com os pés gretados. Simão descalçou as botas forradas e deixou-as ao miúdo.
— Simão! — chamou de novo a voz. Parecia mais próxima do que da primeira vez, mas Simão continuou a não ver ninguém.
Descalço, pôs-se a andar, guiando-se sempre pelas pegadas da neve.
Mais longe, passou junto de um idoso que tremia, sentado junto de uma árvore. Vestia apenas uma camisa. Simão despiu o casaco e pô-lo sobre os ombros do mendigo. Também ele sentia agora o vento a morder-lhe a pele nua. Então, pela terceira vez, alguém o chamou:
— Simão — disse o Rei, — passaste todas as provas que semeei no teu caminho. Continua a seguir o trilho e chegarás diante de uma pobre cabana. Aí encontrarás o meu filho deitado nas palhas de uma manjedoura. Está à tua espera.
Simão obedeceu.
E as pegadas na neve conduziram-no a um estábulo.
Tal como o Rei dissera, um Menino estava deitado nas palhas de uma manjedoura.
Uma grande luz iluminava aquele lugar e um calor suave aqueceu Simão até ao fundo da alma. Sentiu-se invadido por uma enorme felicidade e uma grande paz encheu-lhe o coração.
Então, ajoelhou e pôs-se a rezar.
E o Menino sorriu-lhe.


Anneliese Lussert ; Loek Koopmans
Sur le chemin de Noël
Namur, NordSud, 1995
Tradução e adaptação


6.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE VII



- Aqui é a sala comum. É a maior divisão da casa. Daquele lado é a casa de jantar, deste como vês uma sala de estar. Estás muito calada. Que se passa Sofia? Se não tivesses falado no aeroporto diria que és muda.
- Desculpa. É que é tudo muito novo para mim. E o medo do avião, e a emoção de me ver numa terra estranha deixaram-me muito cansada.
- Calculo que sim, - disse sorrindo.
A sala, na parte onde se encontravam, tinha duas janelas com cortinas estampadas, um sofá em tons de azul, também estampado, coberto de almofadas coloridas, e um cadeirão estofado em cor-de-vinho. No chão uma carpete, muito parecida com as que a tia Ilda tecia com trapos, lá na aldeia. E em cima da carpete uma pequena mesa de vidro.
No outro lado da sala, a chamada casa de jantar com outra janela que iluminava a mesa retangular com cadeiras estufadas de amarelo.

2.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XVII

Tal como prometi, eis que retomo a continuação deste conto. Se alguém quiser recordar, onde esta história tinha terminado, é só clicar AQUI
Foto do google


“Sê inteligente Isabel. Como podia o homem saber que sonhaste com ele? Ou aquilo que estavas a pensar atrás dele? Portaste-te como uma adolescente” murmurou finalmente mais calma, enquanto atravessava a ponte 25 de Abril em direcção ao seu apartamento.
Sempre que Isabel entrava em casa, após alguns dias de ausência, sentia uma sensação de bem-estar e felicidade. Sentia-se protegida. Como se ali no seu pequeno mundo, nada nem ninguém a pudesse molestar. Desta vez porém, a casa pareceu-lhe fria e pouco acolhedora. Abriu as janelas e afastou os cortinados deixando que o sol penetrasse na sala. Como se ao iluminar o aposento aquietasse o coração e o espírito.
Pegou no telefone.
- Amélia? Já cheguei.
- Sim, a viagem foi boa. Está confirmado o jantar?
- Às oito? Está bem. Vens por aqui?
-Claro. Então vamos juntas.
Desligou.
Passou o resto do dia arrumando as coisas. De vez em quando,  surpreendia-se a pensar no que acontecera na viagem. Desde  que na véspera, esbarrara com o desconhecido na praia, e ele a segurou nos braços, que sentia um estranho desassossego.
Não percebia o que se passava consigo, e isso assustava-a.  Afinal tinham passado vinte anos desde a morte do marido, e durante esse tempo ela cruzara-se com muitos homens, até porque a sua profissão o proporcionava,  e nenhum lhe tinha nunca provocado tal desassossego. 
 Que estranho feitiço tinham aqueles olhos cinzentos, que pareciam invadir cada recanto do seu corpo, mergulhando até ao mais profundo do seu ser? Estava ansiosa por voltar ao trabalho. Lembrou-se do ditado . "Mente desocupada, oficina do diabo" O que ela estava a precisar, para se livrar de pensamentos indesejáveis, era ocupar a mente.
Arrumou a mala, que entretanto esvaziara, tomou um duche rápido e começou a arranjar-se para o jantar com os amigos.
Pouco passava das sete e meia quando a campainha da porta tocou. Isabel deu um último retoque nos lábios, pegou na mala e saiu. Em frente à porta estava estacionado um carro cinza e junto dele um casal aguardava.





Agradeço do coração a todos os que durante o ano passado me acompanharam e me incentivaram com os vossos comentários. E desejo que 
2016 seja para cada um de vós o ano que gostariam que fosse.