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30.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE IX


Ricardo estacionou o carro no seu lugar na garagem situada na cave do prédio onde vivia e entrou no elevador que o levaria ao seu apartamento no décimo piso de um moderno edifício no Parque das Nações.
Entrou em casa, poisou as chaves e o telemóvel no móvel de entrada, dirigiu-se à sala e preparou uma bebida. Com o copo na mão foi até à janela. A luz da lua dava reflexos de prata às águas do Tejo. Lá em baixo as pessoas aproveitavam a noite quente de final de Setembro, para andar na rua. Jovens namorados, ou recém-casados passeavam abraçados, indiferentes aos solitários que com eles se cruzavam a caminho de casa ou de algum bar.
Respirou fundo, deu a volta e foi-se sentar no enorme sofá que ocupava a parede fronteira à janela. Bebeu um gole do Whisky, e poisou o copo em cima da mesa. Estendeu as longas pernas, inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos.  Estava muito cansado. De manhã tivera que ajudar a reparar uma limusina, de tarde por duas vezes tivera que dar uma ajuda na oficina, primeiro com o Porsche, depois com o Bugatti. Os três estavam alugados para um casamento no próximo Domingo e os três enfermavam de pequenos problemas, cuja reparação ele quisera visionar pessoalmente. Pelo meio tivera aquela carta maluca e aquele encontro com uma mulher que dizia que ele tivera uma filha. Lembrou-se da raiva com que tinha saído da empresa para se dirigir à morada da carta. Sentia-se capaz de fazer qualquer disparate. Mas estranhamente a sua raiva não se manifestou devastadora, talvez por causa da referida mulher. Havia nela uma estranha calma, uma espécie de resignação que o impressionou e quebrou um pouco da sua raiva.
Depois, se aquela carta era verdadeira, se aquilo não era um esquema qualquer, se aquela Susana existira mesmo e se suicidara, ela não tinha culpa. Limitava-se a aceitar como verdadeiras as loucuras da irmã. Mal regressara ao escritório, telefonara ao seu amigo Artur Sampaio, deu-lhe o nome da mulher, a morada e pediu uma investigação tão rápida quanto possível sobre ela e sobre uma possível irmã. Artur era um ex-inspetor da polícia Judiciária, reformado, que entretinha as suas horas de ócio, com investigações para os amigos. Em poucos dias ele iria saber tudo sobre elas, tinha a certeza.
 À tarde estivera num laboratório e conseguira marcar o exame de ADN. Antes foi informado de que não era necessário a recolha de sangue, o exame podia ser feito com a saliva dos intervenientes ou cabelos. Eles tinham uns kits com o material de recolha e as instruções, podia levar, fazer a recolha e ir entregar, mas ele era um pouco desconfiado, preferiu marcar o exame de sangue para o dia seguinte e telefonar à tal Isabel a dar-lhe a informação do laboratório e da hora do exame.
Habitualmente chegava cedo a casa, tomava banho e saía para jantar, mas como saíra tarde da empresa, comera duas sandes de carne assada no café restaurante onde os seus empregados costumavam almoçar, pois não lhe apetecia jantar.
Levantou-se, apagou a luz da sala e foi para o quarto. Despiu-se, foi à casa de banho, tomou um duche e lavou os dentes, e voltou ao quarto. Despiu o roupão e completamente nu, deitou-se. Cinco minutos mais tarde, tinha adormecido.