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3.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXIV



O doutor Fonseca voltou meia hora depois com a medicação. Um anti-inflamatório para fazer de oito em oito horas, um anti alérgico, para fazer uma vez à noite e um antitússico, já que o doente apresentava um princípio de tosse seca, irritativa. Também uma embalagem de Paracetamol, para lhe dar no intervalo do anti-inflamatório.
- Bom isto é tudo por agora e se não for nada mais do que uma gripe, amanhã ele deverá estar melhor. E não se esqueça de fazer com que beba muitos líquidos, de preferência chá, por ser uma bebida quente. Mas por favor, esteja atenta, se ele começar a vomitar ou apresentar qualquer outro sintoma diferente, telefone imediatamente para a ambulância; a ferida no rosto parece  indicar que ele bateu com a cabeça e não podemos nem devemos descartar a hipótese de um traumatismo craniano. A Luísa  tem noção de que estou a arriscar a minha carreira ao não enviá-lo para o hospital, não tem? Confio em si, por favor não nos meta em trabalhos.
- Fique descansado, doutor. Vou estar atenta e ao menor sinal de perigo, chamarei a ambulância.
O médico despediu-se e saiu, quando o dia já dava lugar à noite e esta se apresentava serena mas escura, como escuras são as noites sem lua.
Luísa  acendeu a luz do alpendre e foi à horta apanhar umas folhas de erva-príncipe. Foi para a cozinha e pôs uma cafeteira com água ao lume para fazer o chá. Cortou duas rodelas de gengibre para misturar à erva-príncipe, pois em tempos lera num livro que a mistura daqueles dois ingredientes era ótima pois que um era analgésico e anti bacteriano e o outro termogénico e relaxante. Além disso, ela fizera aquela mistura quando o irmão tivera gripe e constatara os seus efeitos benéficos.
Com o chá pronto, encheu uma chávena, pôs umas bolachas num pires e meteu tudo num tabuleiro junto com o anti-inflamatório que o médico trouxera e dirigiu-se ao quarto onde o desconhecido continuava agitado e febril. Poisou o tabuleiro em cima da cómoda e aproximou-se do doente dizendo:
- Vamos lá amigo, vamos sentar, para comer alguma coisa e tomar a medicação. E não me diga que não lhe apetece porque senão chamo a ambulância e vai para o hospital.
Com algum esforço e resmungos, o desconhecido sentou-se na cama. Ela ajeitou-lhe as almofadas atrás das costas, e colocou-lhe o tabuleiro na cama. Ele bebeu um pouco de chá e pegou no comprimido, mas ela tirou-lho da mão dizendo:
- Não senhor. Primeiro vai comer umas bolachas e depois sim, toma o comprimido. Isto é um anti-inflamatório. Nunca se tomam com o estômago vazio.
O homem fez uma careta, mas acabou comendo três bolachas. Depois pegou na chávena com uma mão, estendeu a outra e pediu:
-Por favor!
Luísa deu-lhe o medicamento, esperou que ele lhe desse a chávena vazia, pôs o tabuleiro em cima da cómoda e esperou que o homem se deitasse. Arranjou-lhe a almofada e colocou a sua mão sobre a testa dele para verificar a temperatura. Ele pegou-lhe na mão, e levou-a aos lábios dizendo:
- Muito obrigado. Agora sei que é verdade. Os anjos existem mesmo.
Ela apressou-se a virar-lhe as costas para esconder a sua perturbação, e pegando no tabuleiro, saiu do quarto sem responder.


Amigos o meu pc está doente. Vai hoje para o hospital. Tenho posts programados para os próximos dez dias. Vamos ver se a cura não é demorada, porque trabalhar com o Smartphone para mim não dá. 


19.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XX




Acabava o sumo, quando Miguel voltou.
- Bom dia! Dormiu bem, Maria? – Perguntou, tentando ver se o nome lhe provocava alguma reacção. Mas não vislumbrou qualquer alteração no rosto da jovem.
- Bom dia Miguel. Dormi toda a noite, mas acordei com a cabeça pesada, e a boca seca.
- Efeito colateral da medicação. Tenho uma boa notícia. Consegui marcar o seu exame. Dentro de dez dias em Portimão. Vamos almoçar agora?
- Não tenho fome.
-Não se preocupe. Ela virá antes de chegarmos ao restaurante. Adélia está cá?- Perguntou de seguida
-Está lá dentro- respondeu.
-Vou falar com ela. Volto já.
Encontrou-a atarefada a limpar os vidros da janela.
- Adélia queria pedir-lhe um favor.
- Pois não, Menino.
- Como lhe disse esta manhã, a jovem que está lá dentro, está doente, toma medicação, que não a deixa acordar cedo. Por isso na próxima vez, não venha antes das dez.
-Fique descansado, Menino.
-Então, estamos combinados. Agora vamos sair. Até logo.
-Vão com Deus.
Saíram e seguiram em silêncio durante uns minutos. De súbito a jovem perguntou:
- O Miguel não tem família?
- Não, - respondeu secamente como se a pergunta o tivesse incomodado.
-Desculpe. Não queria aborrecê-lo.
- Não me aborreceu. Mas nem sempre é bom despertar lembranças.
- Quem dera que eu tivesse alguma, mesmo que não fosse muito boa, -murmurou com tristeza.
- Vá lá Amélia, não se torture. Como dizia a avó Ermelinda, não é por chorar sobre o leite derramado, que ele volta para a cafeteira.
A jovem não respondeu. Após alguns minutos Miguel quebrou o silêncio.
- Estive a pensar que tenho uma tela inacabada. Amanhã, vou voltar lá à falésia. Gostava que fosse comigo. Sente-se com coragem para isso?
Notou a contracção no rosto da jovem. E a tremura na voz quando respondeu:
-Penso… que sim.