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6.4.18

RENASCER - III





Muito obrigada a todos os que por aqui passaram para parabenizar o marido. Para os que não entenderam o segundo casamento eu explico. O meu marido, dizia-se ateu. Também não era batizado, pelo que o nosso casamento foi apenas um casamento civil. Depois de eu ter estado muito mal em Nampula, ele converteu-se. Batizou-se e casámos pela igreja. 






20.3.18

A TRAIÇÃO – PARTE XXX





- Ora vejam, quem voltou. Já me tinham dito, mas não acreditei. E o que é isso? Roupas de bebé? Não perdeste tempo.
- É verdade. E afinal, apesar de todas as tuas intrigas, o João não ficou contigo.
Era estranho, mas pela primeira vez desde que conhecera Inês, Odete não estava nervosa, nem tinha medo dela.
- Mas separei-vos, e vinguei-me do desprezo dele. E deu-me um enorme gozo, enganar-te. Tão fácil como enganar uma criança. Eras tão ingénua.
- Realmente. E digamos que meter aquela carta no bolso do casaco dele e telefonares-me de seguida, foi de mestre, - disse exaltando a vaidade da outra na tentativa de saber como o fizera.
- Ó, isso foi muito fácil, - disse Inês sorrindo com ar de superioridade, achando-se o máximo. Tinha um detetive a seguir todos os vossos passos. Adorava ver a tua cara de coelhinho assustado sempre que aparecia nos sítios onde vocês estavam. Sabia que ele estava de serviço nessa noite. Na equipa dele, havia um enfermeiro, que me olhava de modo especial sempre que eu ia lá ao hospital tentar ver o João. Foi só levar-lhe a carta, dizer-lhe que era uma surpresa que tu querias fazer-lhe, e que me pediras para te fazer esse favor. Tudo acompanhado do meu melhor sorriso. O que é que uma mulher como eu, não consegue com um sorriso, e um olhar intencional, - disse soltando uma gargalhada.
Embora sentisse uma enorme vontade de lhe apagar o riso, com uma boa bofetada, Odete não fez, nem disse nada. Limitou-se a virar-lhe as costas e a sair para a rua. Sentia-se uma idiota. Por insegurança, pela sua falta de confiança no marido, perdera quase quatro anos de vida sofrendo pela ausência do seu amor. E agora? Como fazer João compreendê-la e perdoá-la?
Quando se encontrou entre os braços da amiga, desabou num choro que deixou Isabel assustada. Quando conseguiu acalmar contou-lhe tudo o que acontecera desde que voltara a Lisboa.
- Sabes que nunca estive de acordo contigo e te aconselhei a teres uma conversa franca com o João, antes de partires. Agora aconselho-te o mesmo.  Acredito que se lhe abrires o coração ele te perdoará embora possa sentir-se magoado por teres duvidado dele. Segundo uma amiga minha, que trabalha no hospital, o Doutor João Santos é um homem sério, casado e que vive só porque a esposa está a tirar um curso no estrangeiro. Isso quer dizer que ele não disse a ninguém que estava separado, talvez porque tinha a esperança de que voltasses. Isso é amor, amiga.
O bebé acordou e Isabel apressou-se a ir ao quarto, seguida por Odete.

12.11.14

ROSA PARTE XII



                     O posto médico da Seca do Bacalhau
                            A foto é minha.




De Setembro a Março, Rosa trabalhava na Seca do bacalhau. Trabalho duro e não muito certo pois, quando o Inverno era rigoroso e não se podia pôr o bacalhau na rua para secar, não havia trabalho. Às vezes, ficava-se uma semana inteira sem ganhar um tostão. Mas, ainda assim, vivia-se melhor que no Verão, pois sempre eram dois a ganhar. E depois era a oportunidade dela ver gente da sua aldeia e de outras aldeias vizinhas, de rir, cantar e esquecer um pouco a miséria que tinha em casa. Ali, naquele mundo maioritariamente feminino, não havia segredos. Todas sabiam quando alguma levava “porrada” do marido, quando não tinham que comer ou quando punham “um filho a estudar”.a)  Muitas vezes, sem dinheiro para procurarem uma parteira, faziam – no elas próprias sem quaisquer condições. Por causa disso, não raras vezes, alguma morria com uma infecção. Algumas, trabalhavam na seca com os maridos, outras, os maridos trabalhavam nas fábricas de cortiça, ou na C.U.F. mas todas viviam irmanadas na mesma vida difícil e contudo aparentavam uma alegria difícil de explicar, pois passavam muitas horas de trabalho sempre cantando, ou contando anedotas como se o trabalho fosse leve e a vida lhes sorrisse lá fora. Então quando tocava a lavar o bacalhau nas grandes tinas de água, que levavam seis mulheres de cada lado, era ouvi-las cantar o tempo todo, ora como um só coro de muitas vozes, ora desafiando-se umas às outras em quadras repentistas que pareciam não acabar nunca. Algumas faziam graça com a própria fome, como a Rosalina, que enfiava um dedo no meio do pão e comia à roda do dedo, dizendo que comia pão com chouriço, ou a Virgínia que dizia estar a almoçar um cozido à portuguesa, enquanto emborcava uma sopa deslavada.
Por esses dias, a Ti Urbana perguntou-lhe:
-Ó Rosa, tu já estás prenha outra vez, mulher?
- Não! - A resposta foi quase um grito. Pela sua saúde, não me diga isso, que me desgraça.
- Eu não te digo mas que estás é verdade. Basta olhar as tuas pernas. Ó mulher mas tu não tens juízo?
- Ai Ti ‘Urbana, se for verdade, tenho que dar um jeito. Não quero ter mais filhos. O meu Alberto ainda não fez os sete meses.
- Vai ao posto médico. Mas olha que eu nestas coisas nunca me engano.
Na Seca, havia um posto médico, com um enfermeiro, e às quintas-feiras ia lá um médico.
Nessa semana, Rosa foi ao médico que confirmou as palavras da Ti' Urbana .  Mais uma vez estava grávida!
Pediu ajuda a algumas mulheres mais velhas. Nunca fizera um aborto mas, desta vez, tinha que ser. Estava decidida a não ter mais filhos. Mas não tinha dinheiro para ir à parteira. A Adélia ensinou-lhe a fazer escalda-pés com grãos de mostarda. Fez durante 3 dias mas não resultou. Depois foi fazendo tudo o que as outras lhe diziam já ter feito até terminar por picar o útero com um talo de aipo até sangrar. "Resulta sempre", tinham-lhe dito. E resultou. Numa grande hemorragia, seguida de infecção, que a ia matando. Acabou numa sala de cirurgia, no hospital de Almada, onde sofreu uma histerectomia total.  "Caparam-na" como ela costumava dizer. E nunca mais engravidou.


Continua

a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal,  era ilegal e podia até dar cadeia.