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11.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XIX




- Mas isso é uma ótima noticia, – disse soltando-a. - Vem, vamos para a sala, quero que me contes tudo. Senta-te aqui ao meu lado,- disse afundando-se no sofá.
- O café!
- Quem quer saber de café agora? – estendeu-lhe a mão num convite mudo.
Ela sentou-se a seu lado e ele passou-lhe o braço pelos ombros puxando-a para si.
- Conta-me tudo. Não, deixa-me adivinhar, o Pedro descobriu que foi mesmo o Fernando?
Ela relatou-lhe a conversa tida com o inspetor nessa tarde.
- Tenho pena do António. Doente e quase no fim da vida, não merecia este desgosto. Aquele sobrinho é a única família que lhe resta. Amanhã mesmo vou pedir ao nosso advogado que tome conta do caso, e tenho a certeza de que não demorará muito, terás o teu pai em casa. Mais tarde, quando se recuperar, faço questão de o readmitir, se ele quiser voltar é claro.
Levantou-lhe o queixo, procurando o seu olhar.
- E então não haverá nada mais que impeça a nossa união. Quero que saibas, que até que te conheci, nunca acreditei no amor tal como o descrevem os apaixonados, e o sinto agora. O amor para mim era uma utopia, uma miragem, o que me interessava mesmo era o sexo. Todos os meus amigos, sabiam que eu era assim, e nenhum deles acreditaria, ainda que eu lhes jurasse, que há meses venho a tua casa apenas para estar contigo, sem nunca termos ido para a cama. E no entanto aconteceu, não porque não te deseje, mas porque te amo, e  de ti quero muito mais do que uma sessão de sexo. Quero o teu coração, a tua alma, toda aquela capacidade de amar que demonstraste em relação ao teu pai, e que fez com que me apaixonasse por ti. Em troca, prometo cumprir com amor e dedicação os votos matrimoniais até ao meu último suspiro. Entendes?
- Como não ia entender, se comungo do mesmo amor?
Segurou o rosto dele entre as suas mãos, e pediu quase sem voz:
-Por favor Gabriel. Vai-te embora, agora! Também desejo ser tua, mas não o vou conseguir, enquanto não vir meu pai reabilitado. Mesmo amando-te com todo o meu ser.



EPILOGO





Duas semanas depois, o juiz assinava a revogação da pena e ordenava a libertação de Joaquim Machado, bem como a prisão preventiva de Fernando Lourenço.
As marcas do tempo e da vergonha eram bem visíveis no rosto e no corpo do pai da jovem, que parecia ter envelhecido mais de dez anos naqueles quatro  de cativeiro.
À sua espera tinha a filha, que lhe explicou como tinham chegado ao verdadeiro culpado, bem como o papel importante de Gabriel e do seu amigo inspetor em todo o processo.
Não foi difícil para o homem que ouvia, reparar no brilho dos olhos da filha cada vez que falava do seu chefe. Temeu por ela. Afinal eles eram pobres, viviam do seu salário, o empresário era um homem rico e com fama de mulherengo.  Mas o temor só durou até essa noite, quando Gabriel se apresentou em sua casa, com um anel de noivado, informando-o do amor que sentia por Sandra, do seu desejo de casar o mais rápido possível, pedindo-lhe por isso a sua bênção para o casamento. 
Quando os jornais sensacionalistas, tiveram conhecimento do noivado, muita tinta correu. Chegaram a escrever, que Gabriel se casava com a filha do homem que enviara injustamente para a prisão, a fim de evitar um processo de indemnização.
Eles não se importaram. Sabiam dos sentimentos que os uniam, e do longo percurso percorrido até aquele momento.
Com a bênção paterna, casaram algumas semanas depois.
A pedido da noiva, o casamento foi uma cerimonia simples e intima, tendo por testemunhas o seu pai, o inspetor Pedro e os padrinhos. 
Ela não queria continuar a ver-se nas páginas dos jornais, nem a ler as mentiras com que a imprensa ávida de mexericos, os brindava.
Dias mais tarde, em plena lua-de-mel, na pista de dança do hotel, ele confessava-lhe que desde aquela noite em que a vira dançar o tango, sonhara com o momento em que os dois o dançassem juntos.
E então como se os músicos tivessem ouvido as suas palavras, ouviram-se os primeiros acordes do conhecido tango,  “À média luz”



Fim

Elvira Carvalho