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16.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXII





Acabava o pequeno-almoço, quando a sogra e a irmã chegaram da missa.
- Bons-dias. Passaram bem a noite? – Perguntou Antónia, a mãe de João.
- Que pergunta mulher. Na idade deles só passam mal a noite se estão doentes, - disse a tia Margarida.  E acrescentou de seguida, - vou assar um pedaço de cabrito para o almoço. Vocês só vão depois de almoçar, não é verdade?
- Estávamos a pensar ir antes, tia. Vai estar um dia de calor infernal, é melhor irmos já. Almoçamos pelo caminho, e chegamos com tempo suficiente para descansar um pouco e ir visitar a minha sogra. A Odete está preocupada com a mãe, não é verdade querida?
Não pôde deixar de o olhar, desconcertada. Minutos antes, estava a propor-lhe uma manhã de praia, e agora estava com pressa de regressar?
- É verdade que estou preocupada. Me desculpem, mas a ideia de vir foi do João, eu teria preferido ficar junto dela, mas apesar disso acreditem que gostei muito de conhecer a cidade, e de estar convosco. E prometo-vos que voltarei noutra altura para ficar mais tempo, - disse sem olhar para o marido. Agora se me dão licença, vou arrumar as minhas coisas.
Já no quarto, procurou no armário, lençóis limpos para fazer a cama, levando os outros para a casa de banho, onde se encontrava o recetáculo para a roupa suja.
Depois colocou a maleta em cima da cama e começou a meter nela as suas coisas. Estava desesperada. Devia estar doida quando pensou que conseguia enfrentar o marido com indiferença. Que a raiva que sentia lhe daria forças. E ali estava, sem saber qual o jogo que o marido estava a jogar, e por causa da doença da mãe, completamente nas suas mãos.  E pensar que ela pensara, que ele era a sua alma gémea. Sobressaltou-se com o toque do telemóvel. Atendeu, e durante uns minutos falou com a irmã que lhe telefonava para saber como estava a mãe. Terminava a chamada quando João entrou no quarto. Desligou o telemóvel e guardou-o, sem dar nenhuma explicação ao marido que a olhava com um ar interrogativo. Ele que pensasse o que quisesse.
- Estás pronta?
- Para dançar ao toque da tua música? Sim meu senhor, e meu amo, - disse com ironia
Ele não respondeu. Limitou-se a pegar na maleta e a sair sem olhar para ver se o seguia.



Parece que a maioria já entendeu que a Inês foi a culpada da separação destes dois. Mas será que foi mesmo? Será que os complexos dos dois, a sua insegurança não foi a real culpada?
Que vos parece? Vai acabar bem ou vai acabar num divórcio? 



15.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXI




Amanhecera há bastante tempo quando ela acordou. Ainda sonolenta olhou à sua volta com estranheza, e logo se lembrou de onde estava. Sentou-se na cama e olhou o lugar onde João dormira. A almofada ainda conservava a forma da sua cabeça. Estendeu a mão e tocou-lhe. Estava fria, o que queria dizer que já devia ter acordado há bastante tempo. Foi até ao armário e retirou a roupa para vestir. Com ela na mão foi para a casa de banho. Tomou um duche rápido, enrolou-se na toalha e secou o cabelo.
Depois vestiu-se e voltou ao quarto. Puxou os lençóis para arejar a cama e saiu do quarto. Na cozinha encontrou João, mas nem sinal das duas idosas.
-Bom dia, - saudou.
- Bom dia. Dormiste bem?
-Que nem uma pedra. Onde estão tua mãe e a tia Margarida?
- Foram à missa das oito. Senta-te. Deves ter fome. Queres torradas?
-Sim.
-Com manteiga ou doce? – Perguntou enquanto metia duas fatias de pão na torradeira.
- Manteiga. A que horas vamos regressar? – Perguntou despejando num copo o sumo de laranja.
-Ainda não pensei nisso. Tens pressa?
- Gostava de ir ver a minha mãe, coisa que não poderei fazer, se chegarmos muito tarde.
-A tua mãe passou bem a noite e está bem. E o teu pai chega esta noite.
-Como sabes?
Está no contrato com a empresa de enfermagem. A enfermeira deve ligar-me de manhã e à noite, para me fazer o relatório do estado da doente, - disse pondo na sua frente as torradas e o recipiente com a manteiga, acrescentando em seguida. Se quiseres, podemos ir à praia da Costa Nova. É uma zona muito bonita, com as suas casas de riscas que lembram estranhos e gigantescos pijamas. Trouxeste fato de banho?
- Não.
- Podemos passar pelo fórum e comprar, se quiseres ir claro.
- Preferia ficar aqui pela cidade. Não me apetece a praia.
- Então não vamos.
- Porquê, João?
- Porquê… o quê, - perguntou arqueando o sobrolho.
- Porque viemos, porque tens estado a tratar-me como se eu fosse uma princesa?
Um sorriso rasgado espelhou-se-lhe no rosto.
-Ah, isso? Se calhar é porque penso que és mesmo uma princesa.
- Deixa-te de tolices. Estou a falar a sério
- Eu também Alteza, eu também, - retorquiu sorrindo


A TRAIÇÃO - PARTE XX




Ainda que vivesse uma eternidade, Odete não esqueceria aquele dia em Aveiro, pensava à noite, enquanto se olhava no espelho, já depois de ter escovado os dentes e de se ter preparado para dormir. Tinha sido uma tarde e uma noite fantástica, com João sempre pendente dela, sempre disposto a vê-la feliz. A julgar por aquele dia, qualquer pessoa diria que ele estava apaixonado por ela. Mas ela sabia que isso não era verdade. Quem ama não trai. Devia tratar-se de um jogo qualquer. E o pior é que ela continuava a amá-lo com a mesma paixão de outrora. A distância e a saudade, longe de lhe fazerem esquecer, pareciam ter avivado o seu amor por ele. E agora ali estava ela, preparada para dormir, mas com as pernas a tremer e sem coragem de se dirigir à cama que teria que partilhar com o homem, que ainda era seu marido.
Finalmente saiu da casa de banho e respirou fundo ao ver que estava sozinha no quarto. Apressada enfiou-se na cama, puxou o lençol até ao pescoço adotando a posição fetal, e fingiu dormir. Poucos minutos volvidos, João entrou no quarto, foi direto à cama, e puxando o lençol, deitou-se e apagou a luz.
No seu lado da cama, Odete relia mentalmente a carta de Inês, tantas vezes lida que a sabia de cor, tentando assim afastar o desejo que o partilhar da cama com o marido, despertara no seu corpo.
No outro lado da cama, de costas para ela, João apertava os punhos, amordaçando a vontade de se voltar e abraçar a mulher.  Tinha quase a certeza de que se o fizesse, ela não ia resistir. Mas não ia fazê-lo. Um dia, ela tinha-o amado. E sempre ouvira dizer que onda há cinzas há fogo. Tinha que conseguir avivar esse fogo. Conquistá-la de novo. Só assim podia ter a certeza de que não voltaria a abandoná-lo, logo que a mãe ficasse curada.
 Recordar o que sofrera, naquela altura, dava-lhe força para resistir. Não saber onde e com quem estivera naqueles quase quatro anos, era um espinho cravado na alma, que doía sem parar. Se ele soubesse, talvez amenizasse a sua dor, mas era demasiado orgulhoso para lho perguntar. Teria que ser ela a contar-lhe, quando viesse para ele de livre vontade. Se assim não fosse, seria melhor pedir o divorcio e por de vez um ponto final nos seus sonhos, por muito que lhe doesse.
Cansado acabou por adormecer.
Odete continuava acordada. Fingindo dormir mas atenta a todos os movimentos do marido, soube que ele tinha adormecido quando percebeu a alteração da sua respiração. Relaxou, esticou um pouco as pernas doloridas, e murmurou uma pequena prece ao Anjo da Guarda, hábito antigo, aprendido em criança com a sua avó paterna
Anjo da Guarda / minha companhia
Guardai a minha alma/ de noite e de dia.

14.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XIX




Uma hora mais tarde passeavam junto à ria. Não como um casal, mas como dois amigos conversando serenamente. Como se ambos tivessem feito um pacto secreto de passar aquele fim-de-semana em paz e harmonia. A jovem que não conhecia a cidade estava encantada, e o marido estava contente por vê-la feliz. No seu coração, morava a esperança de que, se ela se sentisse feliz, não voltaria a abandoná-lo, quando a sua mãe já estivesse curada.
- Queres dar um passeio pela ria?- Perguntou
 Ela fitou-o. Não precisou responder, os seus olhos eram demasiado expressivos.
Ele pegou-lhe pela mão e puxou-a para o cais, mesmo em frente do belíssimo edifício do Museu Arte Nova, onde se encontravam os moliceiros, uns barcos muito bonitos, cheios de cor, que outrora eram utilizados na apanha do moliço.(1)  Com as obras de reconstrução da ria, o moliço quase desapareceu, e o pouco que restou é essencial à vida da mesma. Os barcos foram então adaptados ao turismo, e esses passeios são agora o sustento dos antigos apanhadores de moliço.
Entraram num dos barcos, já com meia dúzia de turistas, prontos para o passeio. Embalada pela beleza da paisagem, ou talvez porque tenha reparado no olhar intenso com que uma mulher atraente, brindara o seu marido, Odete encostou a cabeça no peito dele, que respondeu apertando um pouco o seu corpo de encontro ao dela.
Durante o passeio, ao mesmo tempo que admiravam da ria, o belo casario que se estende ao longo do canal, todos eles, foram brindados com a prova das raivas, um biscoito fino e crocante, com sabor a canela, enrolado à mão, uma especialidade da terra,  e uma tentação dos deuses.
Quando o moliceiro regressou ao cais de partida, ambos sentiram que o passeio tinha sido demasiado curto. Era como se tivessem voltado atrás no tempo à época em que eram um casal que se amava e respirava felicidade.
Odete estava entusiasmada, queria ver tudo, e João logo prometeu que voltariam depois do jantar. Era verão as noites estavam quentes, apetecia passear, e depois, à noite, a ria transformava-se num imenso espelho, onde a margem se reflete, exibindo vaidosa luzes e sombras. Porém agora eram horas de regressar. As duas idosas, eram rigorosas com a hora do jantar.


1) Moliço, nome dado ao conjunto de algas e outras plantas marinhas, que era depois usado para adubar as terras.


A TRAIÇÃO - PARTE XVIII




Os dois foram recebidos com alegria e alvoroço, pelas duas irmãs.
Antónia, a mãe de João abraçou e beijou a nora com tanto carinho, que a jovem se emocionou até às lágrimas.
- Há tanto tempo que não te via, filha. Desde que vim morar para aqui, o João aparece de vez em quando, mas diz sempre que estás atrapalhada com os estudos. Às vezes pergunto-me porque estudas tanto.
Odete percebeu que tal como suspeitara, a sogra não sabia da separação dos dois. Procurou com o olhar o marido, mas ele parecia demasiado atento ao que a tia lhe dizia e não conseguiu ver os seus olhos.
-Agora já acabaram.
- E a tua mãe? O João disse que está doente e que vai ter que ser operada ao coração. Deves estar muito preocupada.
- Nem calcula quanto.
- Quero dizer-te que se precisares de mim para cuidar dela, antes ou depois da operação é só dizeres. A minha irmã, agora está bem, pode ficar sozinha um tempo.
- Muito obrigada. Nem sabe quanto lhe agradeço, mas o João achou melhor ela estar sob os cuidados de uma enfermeira. E depois eu também vou estar sempre por perto.
- Bom, suponho que queiram refrescar-se, tomar um duche, e dar uma volta pela cidade antes do jantar. Não conheces Aveiro? É uma cidade muito bonita. Com os seus canais, até lhe chamam a Veneza portuguesa.
- Se nos dás licença, vamos seguir os teus conselhos. Vem querida, acompanho-te ao quarto.
João tinha-se aproximado. Trazia a mala dela na mão e enlaçando-a, empurrou-a suavemente na direção das escadas que conduziam ao andar superior. Ela deixou-se conduzir, mas uma vez no quarto, não pode conter-se.
-Muito engenhoso da tua parte, - disse olhando a bonita cama de casal de ferro forjado. Se pensas que porque estamos em casa da tua mãe, vou dormir contigo, estás muito enganado.
- Não te preocupes. Não tenho dezoito anos, não ando com as hormonas aos saltos, nem nunca tomei nada que não me fosse oferecido, - disse sentando-se num cadeirão ao fundo da cama. Mas claro se não confias em mim, podes sempre ir lá abaixo e contar à minha mãe, a nossa real situação. Aproveitas e contas-lhe onde estiveste todo o tempo que ela pensa, que estavas a estudar. Confesso que estou com alguma curiosidade.
A sua voz soou tão fria e impessoal, que ela sentiu um arrepio. Aquele não era o João que ela conhecia. Este era um homem muito perigoso. Não podia lutar com ele de peito aberto. Esmagá-la-ia como se fosse uma formiga. Tinha que ser mais diplomata, mesmo correndo o risco de parecer volúvel.
-Não entendo porque não contaste a verdade à tua mãe, -disse o mais calma que conseguiu
- Vais entender um dia. Vai tomar um duche e mudar de roupa. Eu vou fazer o mesmo, na outra casa de banho, no corredor.
-Mas não trouxeste bagagem!
- Tenho aqui no armário várias mudas de roupa. Venho cá de vez em quando e é mais prático do que estar sempre a fazer a mala. Vai, se queres conhecer um pouco da cidade antes do jantar.
Levantou-se e saiu deixando-a só.


13.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XVII




Antes do almoço, Odete telefonou à mãe, querendo saber como se encontrava, e informando que só iria vê-la no dia seguinte, pois estava em viagem com o marido.
- Acalma-te. Já te disse que a tua mãe está em boas mãos. Já falaste com o teu pai?
- Já. Mas não lhe falei da gravidade do estado dela. É melhor dizer-lhe quando chegar, talvez amanhã à noite, ou na segunda. Tive receio de que ficasse nervoso e tivesse algum acidente. 
-  Vamos almoçar. Não deves ter comido bem nos últimos tempos, estás mais magra. Não ajudas em nada a tua mãe se adoeceres.
A sua voz, soou calma, quase carinhosa, e a jovem não pode deixar de recordar o dom que ele tinha de a acalmar e lhe transmitir segurança, quando andava mais nervosa, por causa dos estudos. Que se passava com ele? Porque não pedira o divórcio? Se amava Inês porque estava sozinho? E porque a obrigara a voltar para casa? Pensaria ele que com a sua volta, salvaria o casamento? Na cabeça de Odete havia um mar de interrogações. E no coração continuava cravado o espinho da traição. Terminou o almoço quase sem dar por isso, tão embrenhada estava nos seus pensamentos.
Finda a refeição, voltaram para o carro. O sol brilhava lá no alto, o calor fazia-se sentir impiedoso. Odete voltou a pensar na mãe. Aquele calor cansava a mais saudável das pessoas, quanto mais a debilitada senhora.
Já no carro, em direção a Aveiro, ela resolveu que devia informar o marido, das suas intenções futuras.
- Quero que saibas que o ter voltado para casa, não me obriga a estar nela todo o tempo. Vou começar a procurar trabalho, não tenho paciência para levar todo o dia armada em fada do lar.
- Nem há necessidade disso. Adélia, a empregada é muito competente, trata da casa com esmero. Tem trabalhado só meio -dia mas pode passar a trabalhar todo o dia. Tenho a certeza de que ela não se importará. E se queres trabalhar, porque não? Nunca restringi a tua liberdade, não será agora que vou fazê-lo.
Odete soltou uma gargalhada forçada.
- Obrigas-me a viver debaixo do mesmo teto que tu. E dizes que sou livre? Estranha noção de liberdade a tua.
- Como obrigo-te? A decisão foi tua.
- Chantageaste-me.
O rosto masculino empalideceu. Não respondeu. Não podia censurá-la, se ele próprio não se sentia bem com o que fazia. Mas tinha uma desculpa. Amava-a, e queria-a de volta. Afinal sempre ouvira dizer que no amor e na guerra, todas as armas são legítimas. E ele lutaria com aquelas que lhe fossem mais favoráveis. O único receio que tinha, era de que naqueles anos de ausência ela se tivesse interessado por outro homem mais jovem. Os dez anos que os separavam sempre o incomodaram.
O resto da viagem decorreu em silêncio, concentrados que estavam nos seus pensamentos, cada um tentando adivinhar e analisar o que o outro sentia.


A TRAIÇÃO - PARTE XVI






Às onze e meia, da manhã de sábado, Odete entrou na casa onde vivera os anos mais felizes da sua vida, e onde iria voltar a viver, a troco da saúde da sua mãe. Não sabia o que lhe reservava o futuro, mas sabia que ia ser doloroso, viver debaixo do mesmo teto que o marido, pois apesar da dor da traição, e do tempo que vivera longe, o seu amor por ele continuava intacto. Por mais que a razão tentasse esquecê-lo o coração não obedecia.
- Bom dia, - saudou-a o marido. Vejo que não esqueceste a chave. Como está a tua mãe?
- Bom dia. Como queres que esteja? Cada vez mais debilitada. Obrigado pelo que estás a fazer por ela.
- Não me agradeças. Os teus pais sempre me trataram como se fosse um filho. A única queixa que tenho deles, é a de não me revelarem o teu paradeiro, mas acredito que por imposição tua. Vai guardar a mala no quarto e prepara o suficiente para uma noite, vamos viajar.
- Não vou a lado nenhum. A minha mãe pode precisar de mim a qualquer momento.
- A tua mãe pode precisar de cuidados médicos e se assim for, a enfermeira avisar-me-á imediatamente e eu tomarei providências. Tenho um colega pronto a atendê-la se for necessário. Vai, faz o que te disse e não demores. Almoçamos pelo caminho.
Mordeu os lábios e engolindo a resposta agreste que lhe apetecia dar, pegou na mala, e dirigiu-se ao quarto de hóspedes. Ele que não pensasse que iam partilhar o quarto.
Mudou de roupa pôs o essencial numa maleta, e regressou à sala.
-Estou pronta, - anunciou
-Vamos, - disse tirando-lhe a maleta das mãos e dirigindo-se para a porta.
Entraram no carro e durante um certo tempo, mantiveram-se em silêncio
- Pode saber-se para onde vamos? - Perguntou ao ver que João entrava na autoestrada do norte.
-A Aveiro ver a minha mãe.
- A tua mãe está em Aveiro? A fazer o quê?
-Logo depois que desapareceste, a tia Margarida ficou viúva, e a minha mãe foi passar um tempo com ela para a animar. Gostou de viver lá e como as duas são viúvas resolveu ficar . Uma faz companhia à outra. Gosta muito de ti e pergunta-me sempre porque não te levo quando vou vê-la.
- Eu também gosto muito dela, foi sempre muito carinhosa comigo.
- Folgo sabê-lo.
O silêncio caiu de novo sobre eles. Intenso, sufocante. João mantinha-se sério, atento à estrada, ela estava espantada. Por que razão a sogra, perguntava sempre por ela? Acaso não sabia que se tinham separado? Será que João tinha escondido isso da mãe?  E porque razão o faria? Teria esperança de que ela voltasse?
Nessa altura, João saiu da autoestrada, na direção de Torres Novas, onde tinha decidido que iam almoçar.


12.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XV


Desabafou com a irmã, o que não se tinha atrevido a contar à mãe. Laura recriminou-a por ter fugido daquela maneira. Segundo ela, deveria ter fingido que não sabia de nada e lutar com todas as suas armas para reconquistar o marido. Mas uma vez que decidiu abandonar a luta, devia pelo menos enfrentar João e confrontá-lo com a sua traição. Odete sabia que seria assim que a sua irmã faria, mas ela não tinha essa coragem. Estava demasiado ferida para confrontos. Ele que pedisse o divórcio e fosse viver a sua vida, ela trataria de lamber as suas feridas longe dele. Precisava arranjar trabalho com urgência, pois não levantara um cêntimo sequer da conta conjunta, e o dinheiro que tinha guardado ao longo daqueles três anos estava a acabar. Felizmente para ela, Denis, o cunhado da irmã, andava à procura de uma Educadora de Infância, para a sua creche, e como ela dominava o inglês, em breve estava empregada.
Em vão esperou que o advogasse lhe comunicasse o pedido de divórcio apresentado pelo marido, mas ele nunca o fez.  
Até que há quinze dias, tinha recebido um telefonema do pai. Em breve ia partir com uma carga para França, e a saúde precária da mulher, fazia-o recear deixá-la sozinha. Odete que estava prestes a iniciar as suas férias, pediu a antecipação e regressou. Com a situação atual, ela tinha que avisar de que não ia voltar. Felizmente tinha acabado o contrato, contava renová-lo depois das férias, avisando Denis, ele poderia com tempo arranjar uma substituta.
O que realmente a preocupava agora era a cirurgia a que a mãe, ia ser sujeita, e a vida que ela teria dali para a frente, na sua antiga casa. O peso das recordações ali vividas, a convivência com o marido, e as perseguições que decerto iria sofrer, por parte de Inês.
Cansada acabou por adormecer. Acordou às sete horas. Levantou-se e foi tomar banho. De passagem olhou-se no espelho. As olheiras profundas denunciavam a noite mal dormida e cheia de pesadelos que tivera. Teve a sensação de que tinha envelhecido uns bons anos.
Depois de se arranjar, dirigiu-se à cozinha, onde já encontrou a mãe a fazer as torradas para o pequeno-almoço.
Fê-la sentar enquanto dizia:
-Então mãe, a fome é tanta que não podia esperar por mim. O médico disse que não se pode cansar. Eu trato disto.
-Também não posso estar, todo o dia deitada, ou sentada, -retorquiu a mãe. Faz-me dores no corpo. E depois tenho muito tempo para estar deitada quando estiver no hospital. Chegaste a falar com o teu pai ontem? – Perguntou.
- Falei. Ele já estava quase a chegar à fronteira. Mais dois dias e está em casa.
- Ainda bem. Não gostaria de ir para o hospital sem o ver.


Bom agora já  toda a gente sabe o que separou o casal. E pelos vossos comentários, verifico que as opiniões se dividem. Uns acreditam na traição do doutor, outros julgam que foi um estratagema de Inês para os separar. Quem será que tem razão?
Entretanto ultrapassámos os 31000 comentários. Bem Hajam.

A TRAIÇÃO - PARTE XIV




Foi nessa altura que o seu martírio começou. Numa noite em que foram ao teatro, ver uma peça que estava a fazer grande êxito. No intervalo, uma mulher jovem, bem vestida e maquilhada, aproximou-se deles, abraçou João e beijou-o. Depois pendurou-se-lhe no braço, chamando-lhe de amor, e ignorando por completo a sua presença. Ela ficou furiosa, sentiu vontade de bater na descarada, mas conteve-se para não envergonhar o marido. Este porém afastou a mão da outra, e disse:
- Apresento-te Odete a minha esposa. E agora dá-nos licença, temos que ir.
Não lhe apresentara a outra, mas ela soube quem era. Antes do casamento, João falara-lhe de Inês, e de como estivera apaixonado por ela, até descobrir a sua traição.
Depois desse dia, todas as vezes que saíam à noite, encontravam-na sempre. Era como se ela fosse avisada previamente de que iam sair nessa noite e para onde. Descarada, ignorava-a ostensivamente, quando sem pedir licença se sentava à mesa deles no restaurante, ou quando em locais dançantes o convidava para dançar. Numa dessas ocasiões, em que ela fora à casa de banho, foi seguida por Inês, que lhe disse que João continuava apaixonado por ela, e que com ela se encontrava quando lhe dizia que estava até mais tarde no consultório.
Odete engoliu em seco e respondeu com uma segurança que na verdade não tinha, que ela era uma mentirosa, e que confiava no marido. A outra não desarmou e disse que em breve, lhe daria uma prova.
Uma semana mais tarde, numa manhã em que esperava o marido que nessa noite ficara de plantão no hospital, recebeu um telefonema de um número que não conhecia.
Pensando que podia ter acontecido alguma coisa com o seu pai, que andava em viagem atendeu. Era Inês que lhe disse que João não tinha estado de plantão, que tinha passado a noite com ela, tinha acabado de sair, e que no bolso interior do seu casaco ela encontraria a prova de que falava verdade.
Sofrendo, mas ainda incrédula, esperou a chegada do marido, e logo que ele foi dormir, foi ver o casaco dele.
No bolso interior do casaco, havia uma folha de carta, em papel cor-de-rosa, que retirou e leu com a alma em frangalhos.
“Meu querido João
Não sabes como fiquei feliz por teres passado a noite comigo. Creio ter-te dado uma prova real do meu amor por ti, e de como estou arrependida. Espero agora que cumpras o que me prometeste e peças o divórcio para que possamos viver livremente o nosso amor.
Tua
Inês” 
Por cima da assinatura, a descarada depositara um beijo, marcando com batom o desenho da sua boca.
Sentiu-se traída, enojada, e com vontade de vomitar. Não queria voltar a olhar para a cara do marido. Meteu numa mala, meia dúzia de peças de roupa, escreveu um bilhete a despedir-se, passou pela casa da mãe a despedir-se anunciando que ia de viagem, e foi-se refugiar na casa de Isabel, uma amiga dos tempos da escola, enquanto pensava no rumo a dar à sua vida.
No dia seguinte telefonou à irmã, a perguntar se podia ir visitá-la, e uma semana depois estava em sua casa, em Leeds.



E agora? Será que o doutor João tem dupla personalidade? Que vos parece?



11.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XIII




Odete acabara de se deitar, e o pensamento voou para o seu marido. Não tinha mudado muito naqueles anos. Tinha alguns cabelos brancos é certo mas isso não lhe tirava o charme. O que mais tinha mudado era o seu olhar. A sua expressão, era agora bem mais dura do que antes da sua separação. Quando desesperada, partiu para Leeds, pensou que ele não tardaria a pedir o divórcio, para se casar com Inês. Porém João não só não pedira o divórcio, como decerto não estava com ela. Senão porque exigiria a sua volta? A menos que estivessem zangados e lhe quisesse fazer ciúmes. Mas não. O João que ela amava, não manteria durante tantos anos uma relação dúbia. Mas será que ela conhecia o marido?
Oriunda de uma família humilde, mal terminara o décimo segundo ano, empregou-se num café pastelaria bem perto de casa. Não era exatamente o emprego que sonhava, mas era perto de casa, não precisava tirar passe, nem passar tempo em transportes, e estava em contacto com pessoas o que lhe agradava bastante. Um dia João apareceu por lá de manhã. Pediu uma torrada e um galão. Depois apareceu no dia seguinte e no outro e no outro. Um mês, após outro. E quase sem dar por isso ela começou a esperar com ansiedade a chegada dele. O seu coração saltava de alegria, quando ele entrava. Reconheceu que se tinha apaixonado, quando descobriu que adormecia e acordava a pensar nele.
Quase cinco meses depois de o ter visto pela primeira vez, João convidou-a para ir ao cinema. Era Verão o tempo estava quente, e depois do cinema foram até um bar, ouvir música. Depois dessa noite outras se seguiram. A sua mãe estava deveras preocupada, e não se cansada de lhe dizer:
- Tens que acabar com essas saídas filha. Esse rapaz é um médico famoso. Não pode querer nada sério contigo. Um dia destes ele arranja uma namorada da sua classe, ou uma médica como ele e nunca mais se lembra de ti.
No se intimo, ela dava razão à mãe, mas não se pode pedir a um coração apaixonado que pare de sonhar. Porém um dia, João confessou-se apaixonado, e começaram a namorar. Sério, ele falou com os seus pais, e desde aí até ao casamento, foram apenas seis meses. Seis meses em que se sentia como uma princesa de um conto de fadas.
Depois do casamento e da lua-de-mel, Odete decidiu estudar, e João encantado com a ideia apoiou-a. Sempre gostara de crianças, e assim resolveu matricular-se na Escola Superior de Educadores de Infância. Nos três anos que se seguiram, Odete não podia ter sido mais feliz. O marido não se cansava de a mimar, Além de lhe pagar os estudos, comprava-lhe roupas, e jóias. Era carinhoso e compreensivo no dia-a-dia, e um homem apaixonado nos momentos de intimidade. Que mais podia desejar?  E ela fez os três anos correspondentes à Licenciatura em Educação Básica, e estava a pensar começar a sua carreira profissional, pois faltava-lhe a paciência para passar os dias em casa à espera do marido que tinha cada dia mais trabalho e menos tempo para a vida familiar.




É já amanhã, que todos vão ficar a saber o que levou Odete a fugir de casa.