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14.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XVIII




Os dois foram recebidos com alegria e alvoroço, pelas duas irmãs.
Antónia, a mãe de João abraçou e beijou a nora com tanto carinho, que a jovem se emocionou até às lágrimas.
- Há tanto tempo que não te via, filha. Desde que vim morar para aqui, o João aparece de vez em quando, mas diz sempre que estás atrapalhada com os estudos. Às vezes pergunto-me porque estudas tanto.
Odete percebeu que tal como suspeitara, a sogra não sabia da separação dos dois. Procurou com o olhar o marido, mas ele parecia demasiado atento ao que a tia lhe dizia e não conseguiu ver os seus olhos.
-Agora já acabaram.
- E a tua mãe? O João disse que está doente e que vai ter que ser operada ao coração. Deves estar muito preocupada.
- Nem calcula quanto.
- Quero dizer-te que se precisares de mim para cuidar dela, antes ou depois da operação é só dizeres. A minha irmã, agora está bem, pode ficar sozinha um tempo.
- Muito obrigada. Nem sabe quanto lhe agradeço, mas o João achou melhor ela estar sob os cuidados de uma enfermeira. E depois eu também vou estar sempre por perto.
- Bom, suponho que queiram refrescar-se, tomar um duche, e dar uma volta pela cidade antes do jantar. Não conheces Aveiro? É uma cidade muito bonita. Com os seus canais, até lhe chamam a Veneza portuguesa.
- Se nos dás licença, vamos seguir os teus conselhos. Vem querida, acompanho-te ao quarto.
João tinha-se aproximado. Trazia a mala dela na mão e enlaçando-a, empurrou-a suavemente na direção das escadas que conduziam ao andar superior. Ela deixou-se conduzir, mas uma vez no quarto, não pode conter-se.
-Muito engenhoso da tua parte, - disse olhando a bonita cama de casal de ferro forjado. Se pensas que porque estamos em casa da tua mãe, vou dormir contigo, estás muito enganado.
- Não te preocupes. Não tenho dezoito anos, não ando com as hormonas aos saltos, nem nunca tomei nada que não me fosse oferecido, - disse sentando-se num cadeirão ao fundo da cama. Mas claro se não confias em mim, podes sempre ir lá abaixo e contar à minha mãe, a nossa real situação. Aproveitas e contas-lhe onde estiveste todo o tempo que ela pensa, que estavas a estudar. Confesso que estou com alguma curiosidade.
A sua voz soou tão fria e impessoal, que ela sentiu um arrepio. Aquele não era o João que ela conhecia. Este era um homem muito perigoso. Não podia lutar com ele de peito aberto. Esmagá-la-ia como se fosse uma formiga. Tinha que ser mais diplomata, mesmo correndo o risco de parecer volúvel.
-Não entendo porque não contaste a verdade à tua mãe, -disse o mais calma que conseguiu
- Vais entender um dia. Vai tomar um duche e mudar de roupa. Eu vou fazer o mesmo, na outra casa de banho, no corredor.
-Mas não trouxeste bagagem!
- Tenho aqui no armário várias mudas de roupa. Venho cá de vez em quando e é mais prático do que estar sempre a fazer a mala. Vai, se queres conhecer um pouco da cidade antes do jantar.
Levantou-se e saiu deixando-a só.