Antónia, a mãe de João abraçou
e beijou a nora com tanto carinho, que a jovem se emocionou até às lágrimas.
- Há tanto tempo que não te
via, filha. Desde que vim morar para aqui, o João aparece de vez em quando, mas
diz sempre que estás atrapalhada com os estudos. Às vezes pergunto-me porque
estudas tanto.
Odete percebeu que tal como
suspeitara, a sogra não sabia da separação dos dois. Procurou com o olhar o
marido, mas ele parecia demasiado atento ao que a tia lhe dizia e não conseguiu
ver os seus olhos.
-Agora já acabaram.
- E a tua mãe? O João disse que
está doente e que vai ter que ser operada ao coração. Deves estar muito
preocupada.
- Nem calcula quanto.
- Quero dizer-te que se
precisares de mim para cuidar dela, antes ou depois da operação é só dizeres. A
minha irmã, agora está bem, pode ficar sozinha um tempo.
- Muito obrigada. Nem sabe
quanto lhe agradeço, mas o João achou melhor ela estar sob os cuidados de uma
enfermeira. E depois eu também vou estar sempre por perto.
- Bom, suponho que queiram
refrescar-se, tomar um duche, e dar uma volta pela cidade antes do jantar. Não
conheces Aveiro? É uma cidade muito bonita. Com os seus canais, até lhe
chamam a Veneza portuguesa.
- Se nos dás licença, vamos
seguir os teus conselhos. Vem querida, acompanho-te ao quarto.
João tinha-se aproximado.
Trazia a mala dela na mão e enlaçando-a, empurrou-a suavemente na direção das
escadas que conduziam ao andar superior. Ela deixou-se conduzir, mas uma vez no
quarto, não pode conter-se.
-Muito engenhoso da tua parte,
- disse olhando a bonita cama de casal de ferro forjado. Se pensas que porque
estamos em casa da tua mãe, vou dormir contigo, estás muito enganado.
- Não te preocupes. Não tenho
dezoito anos, não ando com as hormonas aos saltos, nem nunca tomei nada que não
me fosse oferecido, - disse sentando-se num cadeirão ao fundo da cama. Mas
claro se não confias em mim, podes sempre ir lá abaixo e contar à minha mãe, a
nossa real situação. Aproveitas e contas-lhe onde estiveste todo o tempo que
ela pensa, que estavas a estudar. Confesso que estou com alguma curiosidade.
A sua voz soou tão fria e
impessoal, que ela sentiu um arrepio. Aquele não era o João que ela conhecia.
Este era um homem muito perigoso. Não podia lutar com ele de peito aberto.
Esmagá-la-ia como se fosse uma formiga. Tinha que ser mais diplomata, mesmo
correndo o risco de parecer volúvel.
-Não entendo porque não
contaste a verdade à tua mãe, -disse o mais calma que conseguiu
- Vais entender um dia. Vai
tomar um duche e mudar de roupa. Eu vou fazer o mesmo, na outra casa de banho,
no corredor.
-Mas não trouxeste bagagem!
- Tenho aqui no armário várias
mudas de roupa. Venho cá de vez em quando e é mais prático do que estar sempre
a fazer a mala. Vai, se queres conhecer um pouco da cidade antes do jantar.
Levantou-se e saiu deixando-a
só.
