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9.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE X

   


A ansiedade, com que João olhava a marcha lenta dos ponteiros do relógio, terminou no momento exato em que a campainha da porta soou. Lentamente, aparentando uma tranquilidade que estava longe de ser real, levantou-se e foi abrir a porta.
- Entra. Perdeste a chave?
Ela não respondeu. Passou na sua frente em direção à sala. Não se sentou. Ficou de pé olhando à volta. A sensação que tinha era de que nunca se tinha ausentado, pois tudo estava exatamente igual ao que era quando partiu.
- Senta-te, - disse ele acomodando-se num cadeirão em frente do sofá.
Esperou que ela se sentasse e então perguntou:
- Como está a tua mãe?
- Como queres que esteja? Não consegue dar meia dúzia de passos seguidos, não consegue fazer nada.
- Explicaste-lhe que a única solução é a cirurgia?
- Sim. E ela quer ser operada. Diz que, como se sente agora, não é viver.
-E então, qual é a tua decisão?
-Tenho hipótese de escolha?
-Não,- disse firme e até talvez um pouco rude.
- Aceito, com a condição de o fazer só depois da sua operação.
-Inegociável. Regressas esta noite mesmo. A tua mãe já jantou?
- Já. Já a deixei deitada. Mas João o meu pai está em viagem com o camião, a minha mãe não pode ficar sozinha na situação atual.
- Não tens ninguém que possa lá dormir hoje? Uma tia, prima, alguma vizinha?
- Não.
Bom, então esta noite ficas com ela, mas amanhã de manhã mando-te alguém para cuidar dela até ser internada segunda ou o mais tardar terça-feira. Quando regressa o teu pai?
- Não sei. Vou telefonar-lhe esta noite.
- Muito bem. Amanhã, quero-te em casa para o almoço.
- Quero, quero, quero… Que se passa João? Onde está o homem bom e compreensivo, com quem vivi?
- Quem sabe? Talvez tu, o tenhas assassinado!
- Trata-se então de uma vingança?
- Não. Trata-se apenas de querer em casa a minha mulher, já to disse ontem.
-Posso voltar para casa, mas não serei tua mulher. Não vou para a cama contigo.
- Isso, minha cara, era uma coisa para ver, se eu estivesse interessado. O que não é o caso.
Ela recebeu aquela resposta como se fosse uma bofetada. Ele continuou.
-Agora que já está tudo tratado, podes ir. Mas não te esqueças, volta amanhã antes do almoço. Não me faças ir buscar-te. Como vieste?
- De táxi.
-Tens o teu carro na garagem. Se tens a carta contigo, os restantes documentos estão no quarto. Vou buscá-los?
- Não. Eu apanho um táxi.
Levantou-se e dirigiu-se à porta. Ele seguiu-a, e quando ela já saía recomendou-lhe:
- Não te esqueças de trazer a chave. Não fica bem a dona da casa tocar a campainha.

22.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE VI


Isabel abriu o portão e disse ao homem que estava no jardim que ia por causa da vaga de secretária. Ele pediu-lhe para esperar, e entrou em casa. Voltou pouco depois e levou-a ao escritório. Ela ia olhando para a casa. Estava bonita, mais moderna, mas mais impessoal. Tão diferente daquilo que ela se recordava.
O homem abriu a porta, deu-lhe passagem e fechou-a atrás dela. Na sua frente, Helder encontrava-se recostado num cadeirão, com o cão a seu lado. Tinha vestido umas calças cinzentas, e um polo azul-escuro.
Mentalmente fez as contas. Se ela tinha vinte e seis anos, ele tinha trinta e seis. Parecia mais velho. Tinha já alguns fios de cabelo branco. O rosto moreno, continuava bonito, apesar dos óculos escuros, que escondiam os outrora brilhantes olhos castanhos.
- Bom-dia, - saudou. - Venho por causa da vaga de secretária.
- Bom-dia. A agência não me informou de que tinham mandado alguém.
- Bom, é que não vim mandada pela agência.
- Como assim?