- Entra. Perdeste a chave?
Ela não respondeu. Passou na
sua frente em direção à sala. Não se sentou. Ficou de pé olhando à volta. A
sensação que tinha era de que nunca se tinha ausentado, pois tudo estava
exatamente igual ao que era quando partiu.
- Senta-te, - disse ele
acomodando-se num cadeirão em frente do sofá.
Esperou que ela se sentasse e
então perguntou:
- Como está a tua mãe?
- Como está a tua mãe?
- Como queres que esteja? Não
consegue dar meia dúzia de passos seguidos, não consegue fazer nada.
- Explicaste-lhe que a única
solução é a cirurgia?
- Sim. E ela quer ser operada.
Diz que, como se sente agora, não é viver.
-E então, qual é a tua decisão?
-Tenho hipótese de escolha?
-Não,- disse firme e até talvez
um pouco rude.
- Aceito, com a condição de o
fazer só depois da sua operação.
-Inegociável. Regressas esta
noite mesmo. A tua mãe já jantou?
- Já. Já a deixei deitada. Mas
João o meu pai está em viagem com o camião, a minha mãe não pode ficar sozinha
na situação atual.
- Não tens ninguém que possa lá
dormir hoje? Uma tia, prima, alguma vizinha?
- Não.
Bom, então esta noite ficas com
ela, mas amanhã de manhã mando-te alguém para cuidar dela até ser internada
segunda ou o mais tardar terça-feira. Quando regressa o teu pai?
- Não sei. Vou telefonar-lhe
esta noite.
- Muito bem. Amanhã, quero-te
em casa para o almoço.
- Quero, quero, quero… Que se
passa João? Onde está o homem bom e compreensivo, com quem vivi?
- Quem sabe? Talvez tu, o tenhas
assassinado!
- Trata-se então de uma
vingança?
- Não. Trata-se apenas de
querer em casa a minha mulher, já to disse ontem.
-Posso voltar para casa, mas
não serei tua mulher. Não vou para a cama contigo.
- Isso, minha cara, era uma
coisa para ver, se eu estivesse interessado. O que não é o caso.
Ela recebeu aquela resposta
como se fosse uma bofetada. Ele continuou.
-Agora que já está tudo tratado,
podes ir. Mas não te esqueças, volta amanhã antes do almoço. Não me faças ir
buscar-te. Como vieste?
- De táxi.
-Tens o teu carro na garagem.
Se tens a carta contigo, os restantes documentos estão no quarto. Vou buscá-los?
- Não. Eu apanho um táxi.
Levantou-se e dirigiu-se à
porta. Ele seguiu-a, e quando ela já saía recomendou-lhe:
- Não te esqueças de trazer a
chave. Não fica bem a dona da casa tocar a campainha.