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7.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXVI




Completamente alheia à aflição que ia em casa de Gil, Luísa conseguia que o desconhecido comesse um puré de legumes e tomasse o anti alérgico e o antitússico. E ficou menos preocupada ao ver que a febre tinha descido um pouco e o desconhecido já não se queixava tanto das dores de cabeça. De hora a hora levava-lhe uma chávena de chá. Depois do jantar, arrumou a cozinha e sentou-se na sala em frente da lareira disposta a passar parte do serão a ler.  Pelo menos até à meia noite, hora a que tentaria que o homem comesse alguma coisa e lhe desse o segundo anti-inflamatório. Depois se ele estivesse bem, iria deitar-se. Se ela fosse uma mulher de fé, provavelmente rezaria a Deus para que o desconhecido não tivesse nenhuma complicação que a fizesse mandá-lo para o hospital.
Apesar de estar habituada à solidão, estava a gostar de ter agora aquele homem lá em casa. Os romances que lia, falavam de histórias de amor que ela nunca viveu, nem nunca viveria, mas sonhar não era crime, nem pagava impostos e ela podia sonhar que aquele belo homem, ali vivia, e de certa forma lhe pertencia.
“Não sejas tonta, mulher. Não passa de um desconhecido que partirá logo que se lembre quem é” dizia-lhe uma vózinha insidiosa dentro da sua cabeça. A voz  sensata da sua racionalidade.
Mas naquele momento, Luísa não lhe apetecia ser sensata. Sem conseguir concentrar-se na leitura, pôs de parte o livro e ligou a TV, coisa que já não fazia há muito tempo, pois a programação estava cada vez mais saturada de novelas, e debates futebolísticos, coisas que não lhe interessavam minimamente. 
Na RTP 2 estavam a transmitir um programa de poesia, homenageando Jorge de Sena, pelo recente centenário do seu nascimento. Era um dos poetas que  só conhecia de nome, pois não se lembrava de alguma vez ter lido um só poema que fosse dele; e por isso ficou a assistir, até ao fim do programa. Quando acabou, foi ao quarto ver o doente que se encontrava encharcado em suor. Procurou entre as roupas do irmão uma T-shirt e umas calças de fato de treino, que ele costumava usar para correr e que eram largas o suficiente para servirem como pijama ao desconhecido e entregou-lhas com uma toalha, para que se limpasse e mudasse de roupa. Depois foi buscar o chá, uns biscoitos e o anti-inflamatório.
- Consegue levantar-se e comer sentado enquanto mudo os lençóis? - perguntou quando voltou com a bandeja
O homem levantou-se e dirigiu-se à cadeira que ela pusera junto à cómoda sobre a qual poisara o tabuleiro.
-Como está a sua cabeça? – perguntou enquanto retirava os lençóis transpirados para os substituir por outros limpos e secos. 
- Bastante melhor. Meu Deus, nunca vou conseguir agradecer o trabalho que lhe estou a dar.
- Não se preocupe com isso, o principal é que fique bom. Já conseguiu recordar alguma coisa? Um acidente, uma queda, um nome? - perguntou alisando o lençol.
- Infelizmente não. A minha cabeça é como um quarto escuro. Por mais que me esforce não consigo ver nada. E é tão frustrante.
Acabou de comer. Tomou o comprimido, levantou-se e dirigiu-se para a porta.
- Coloquei na casa de banho um copo com escova e pasta de dentes para si -disse ela ao ver para onde se dirigia.
- Obrigado – respondeu abandonando o quarto.






24.7.18

O DIREITO À VERDADE - XLVII




As duas amigas encontravam-se num recanto de uma pastelaria, na Avenida Almirante Reis, onde se tinham encontrado para lanchar e para porem em dia a conversa, sobre os últimos acontecimentos
-E é tudo Paula.
-Meu Deus, Lena! E eu preocupada contigo, sem saber o que te teria acontecido. Até fui duas vezes tocar a campainha da tua casa. Eras tão ligada à tua mãe, que temia tivesses feito uma asneira com o desgosto, e afinal… quer dizer que conheceste o Cláudio em Coimbra, se apaixonaram, foste em busca do teu pai, e o Cláudio é enteado dele? E agora estás noiva? É inacreditável. Parece um daqueles romances cor-de-rosa, com que alguns escritores que não conhecem a realidade da vida se entretêm.
- Nestes últimos tempos, cheguei à conclusão que a vida é o maior dos autores, Paula. Ela pode ser mãe, ou madrasta, mas é sempre intensa em tudo o que nos dá, seja amor ou ódio, paz, ou guerra, calma ou tempestade. Não adianta lutar contra moinhos de vento. Já sofri muito, chorei noites a fio, mas hoje estou feliz com  o que ela me dá.
-E sendo assim vais viver com o teu pai? E o curso? Não vais acabar?
-Claro que sim. Vou pedir a transferência para Viseu.
- Vou ter muitas saudades tuas, amiga.
-Eu também. Mas agora é lá que está a minha vida. Vou casar em breve, logo que os documentos estejam prontos. Queria que tu fosses a minha madrinha. Sempre foste a minha melhor amiga, a irmã que a vida não me deu. E nada me faria mais feliz do que ter-te a meu lado nesse dia. Aceitas?
- Gostava muito, Lena. De verdade. Mas não sei se será possível. Sabes, o meu pai foi reformado devido a problemas de saúde. Com a reforma, baixou substancialmente a receita que entrava todos os meses em casa. Sabes como são as reformas neste país. Já é um sufoco continuar com os meus estudos, mas apesar de eu estar disposta a abandonar a faculdade eles fazem questão de que termine o curso. Ser madrinha de um casamento implica muita despesa.
- Não tens que fazer despesa nenhuma. O tio Alberto vai ser o meu padrinho e vai pagar o que eu precisar. Isto se o pai deixar, já que discutiam há dias, cada um querendo e dizendo que lhe pertencia a ele pagar a despesa. Só quero mesmo, é que estejas a meu lado nesse dia. E o Sandro? O vosso namoro, como vai?
- Cada dia estamos mais apaixonados. Como sabes, ele acabou o curso o ano passado, e já está a trabalhar . Pensamos casar quando eu terminar o curso, e me empregar.  Vamos ficar a viver com os meus pais. É bom para eles e para nós, pois partilhamos despesas e não temos que alugar casa. Menina, tu não fazes ideia do preço das rendas atualmente.
- E os teus pais estão de acordo?
-Claro. Eles gostam do Sandro, quase tanto, quanto eu.
- Não é preciso dizer-te que o convite é também para ele. E então? Posso contar contigo?
- Já te disse que gostava, mas deixa-me falar com o Sandro e os meus pais. Depois dou-te a resposta.  
- De acordo. Posso fazer-te uma pergunta um tanto íntima?
- Nunca tivemos segredos, Lena.
- Tu e o Sandro… já dormiram juntos? – Perguntou baixando a voz



Ora bem, parece que bem posso pôr os capítulos restantes todos de uma vez. Desde que o Cláudio se explicou, a novela perdeu interesse para vós, não foi? Bom então amanhã, preparem o modelito para a cerimónia. Estão todos convidados para o casamento.