7.4.18

RENASCER - IV




- Ora viva! Então como se sente o nosso morto-vivo? – Perguntou num tom brincalhão.
- Vazio. Totalmente vazio.
-A informação que recebi, diz que é o único sobrevivente de uma patrulha que sofreu uma emboscada no leste. É verdade?
- Disseram-me isso doutor. Penso que seja verdade, já que não me recordo de nada.
- E quem lhe disse isso.
- Um indígena, um preto velho na cubata de quem, acordei.
- Diz que foi ferido no peito e numa perna.
- Sim senhor. O homem que me salvou, que devia ser um curandeiro, porque embora pertencendo a uma aldeia, vivia isolado, tratou-me com ervas, e disse-me que me tirou a bala da perna, mas a do peito não por estar muito perto do coração. Também disse que estive doente várias luas e que chegou a pensar que não resistiria.
- E diz que não se lembra de nada?
- Sim.
-Vamos lá a ver essas cicatrizes.
O homem, arregaçou a calça do pijama e mostrou a perna que o médico examinou. Depois abriu o casaco do pijama e mostrou a cicatriz no peito. Contrariamente à da perna que se apresentava pequena e de bom aspeto, a do peito, estava roxa, e a pele apresentava-se repuxada, como se tivesse sido queimada. O médico passou sobre ela os dedos ágeis sentindo a textura e perguntando se lhe doía.
- Não, doutor não me dói. 
O clínico precedeu depois a um exame mais demorado, que envolveu, auscultação, medida de tensão arterial, exame da pupila, e teste de reflexos. Por fim deu o exame por terminado.
-Vou pedir que lhe façam uma colheita sanguínea e um RX para avaliar o seu estado geral, e ver onde está essa bala. Preciso de todos os dados que se lembre, para informar o Comando, para que decidam sobre o seu caso. Provavelmente vai ser enviado para o Continente, e teremos que informar a sua família de que se encontra vivo.
- O problema, doutor, é que como disse estou mais vazio que casa desabitada. A única coisa que tenho é esta carteira, que o meu salvador, disse que eu tinha na mão, mas nem sequer sei se é minha.
-Se a tinha é com certeza. Levo o BI para preencher os dados a enviar ao comando. Segundo informações que acabo de receber, você estaria num destacamento de Fuzileiros Especiais, no Lungué-Bungo.  Terá saído numa patrulha de reconhecimento que foi apanhada e destruída pelo inimigo. No local onde foi encontrada havia cinco corpos irreconhecíveis. O Comandante supôs que o homem que faltava, teria sido feito refém e mais tarde morto e abandonado em local desconhecido. Por isso informou a Metrópole de que tinham morrido os seis. Sabe que isso aconteceu há mais de seis meses?
- Não sabia. O indígena disse-me que tinha estado várias luas a dormir, e que houve ocasiões em que pensou que eu tinha ido ter com os espíritos. Suponho que tenha estado inconsciente.
- Bom, levo o BI. Trago-lho amanhã, quando vier fazer a visita.


15 comentários:

Tintinaine disse...

Fuzileiros no Lungué-Bungué, isso já começa a ter algum significado para mim. Mas espero que seja apenas ficção, pois não gostaria de ter 5 camaradas meus mortos dessa maneira. Aguardemos pela resto da história.

Gil António disse...

Sempre se ia lembrando disto e daquilo. Acompanhando a história.
.
* Amor: Súplicas do meu sonho *
.
Fim de semana feliz.

✿ chica disse...

As informações chegando e ele sem nada lembrar...Estou gostando muito! beijos, chica

Os olhares da Gracinha! disse...

A pouco e pouco irá recordar!
bj

Roaquim Rosa disse...

bom dia
estou a pensar algo que ainda não me vou manifestar !!
JAFR

António Querido disse...

Infelizmente passei por alguns montes de terra com uma cruz de paus em cima escondidas no meio do capim! Sim alguns ficaram lá para sempre.

Bom fim de semana amiga.

Manu disse...

Um texto que pode ser ficção, mas que faz relembrar momentos tristes de uma época para esquecer.
Espero que para o doente tudo corra bem.

Um abraço

Cidália Ferreira disse...

Tenho a certeza que se vai curar e lembrar-se de tudo.
"Um exemplo as ex Colónias."

Beijo. Sábado feliz.

noname disse...

Aguardemos, pois, por amanhã :-)

Beijinho

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Com certeza que vai voltar a memoria.
Um abraço e bom fim-de-semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

Isa Sá disse...

a passar por cá para acompanhar a história!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Lucia Silva disse...

Acompanhando e amando a história!
Beijos e um fim de semana feliz!

Ailime disse...

Uma situação muito difícil.
Vou ler o próximo episódio.
Beijinhos,
Ailime

Edumanes disse...

A salvação desse militar por um homem de pele preta. É o testemunho de que nem todos os da sua cor eram contra os brancos que foram empurrados para aquela guerra contra a sua vontade.

Tenha uma boa tarde amiga Elvira.
Um abraço.

redonda disse...

Mas quem será que é ele...