Lentamente dirigiu-se à cozinha. Preparou um biberão para
a “filha”. A pediatra dizia que já não devia dar-lho durante a noite, mas cada vez que
ela tentava seguir essas instruções, Matilde fazia tal gritaria quando acordava
a meio da noite, que ela temendo acordar o prédio inteiro, tinha que ir preparar
e dar-lhe o biberão. Assim tinha decidido que ia manter aquele “ritual” pelo
menos até aos dois anos. Dava-lho perto da meia-noite, antes de se deitar. E dormia descansada toda a noite.
Enquanto o preparava, pensava no que acontecera naquela
noite. Aquele casamento ia decerto causar-lhe grandes dissabores. Ricardo era
demasiado atraente para que não o desejasse, e a menos que ele se mostrasse uma
pessoa sem princípios, iria decerto apaixonar-se por ele. Afinal ela era uma mulher
muito só e extremamente carente. O beijo que trocaram naquela tarde, deixara-lhe o sangue em ebulição.
O problema é que ele lhe dissera que não acreditava no amor, e apenas pretendia casar-se para dar uma família à menina e ter quem lhe espantasse a solidão quando envelhecesse.
O problema é que ele lhe dissera que não acreditava no amor, e apenas pretendia casar-se para dar uma família à menina e ter quem lhe espantasse a solidão quando envelhecesse.
E podia ela contentar-se com isso se viesse a apaixonar-se
por ele?
Acreditava, que tal como ele dissera, duas pessoas podiam
viver juntas, unidas pela amizade, companheirismo, e respeito mútuo, se nenhuma
delas se apaixonasse pela outra. O amor é um sentimento muito carente.
Necessita ser correspondido, caso contrário, torna-se infeliz e perde a vontade
de viver, arrastando quem o sente. Porque ao contrário do que diz o poeta,
ninguém pode amar por dois.
Todavia agora a decisão tinha sido tomada, não havia
nada a fazer. Não era pessoa de voltar atrás quando decidia algo, por isso o
melhor era tentar esquecer os seus receios e preparar-se para que o futuro
fosse o melhor possível para os três.
“Ah! Susana, Susana, porque foste fazer tão grande
disparate? Porque não procuraste ajuda, e não confiaste em mim? “
Pegou o biberão, foi ao quarto, pegou a menina ao colo,
tirou-lhe a chucha e meteu-lhe a tetina na boca. Matilde começou imediatamente
a sugar o leite, só parando quase mesmo no fim. Isabel, pousou o biberão, esperou que a menina regurgitasse, deu-lhe de novo a chupeta, meteu-a na cama, aconchegou-lhe a roupa
e apagando a luz saiu do quarto. Era um ritual que executava todas as noites
sem que Matilde acordasse.
Olhou o relógio. Meia-noite e dez. Foi à casa de banho,
lavou os dentes, retirou os ganchos que lhe prendiam o cabelo, despiu a roupa
que enfiou no cesto da roupa suja, vestiu um pijama de flanela, com desenho de
ursinhos e mirou-se no espelho. Pensou que antes do casamento teria de comprar
alguma roupa nova. Aquele pijama por exemplo era confortável, mas o seu corte masculino,
e o padrão infantil, não tinha nada de feminino.
Fez uma careta para a imagem que o espelho lhe devolvia e
foi-se deitar.
Desejava adormecer rapidamente a fim de esquecer a
embrulhada em que estava metida, porém os primeiros alvores da madrugada
encontraram-na ainda às voltas com os seus pensamentos.

