1.12.17

MARIA - PARTE V


RE-EDIÇÃO




O casamento de Maria


Foi neste ambiente de dor e raiva, que Maria veio ao mundo.
Quando lhe pegou ao colo pela primeira vez, Elisa jurou que a sua filha, não ia ser um joguete do destino, como ela fora. A sua menina ia estudar, ter uma carreira, ser independente. Foi o seu primeiro erro. Ela não se dava conta, que estava a traçar para a filha, a vida que ela quisera ter.
De outro modo, com uma meta diferente,  estava a cometer o mesmo erro, que tinham cometido com ela.
Com o dinheiro que o marido lhe deixara, alugou uma casa, montou um ateliê e começou a costurar para várias lojas. O trabalho cresceu, as suas criações fizeram sucesso e em breve, tinha duas ajudantes no ateliê, e contratava uma ama para a filha já que lhe faltava o tempo e a disposição para ela. Foi o segundo erro. A filha ia sentir esse afastamento, como uma rejeição.
Maria, era a criança mais bem vestida, do bairro. A mãe, estava sempre, fazendo belos vestidos para a filha, que mais parecia uma boneca, que menina rica se entretivesse a mudar de roupa a todas as horas. Pouco depois de completar quatro anos, ficou doente.
Vários médicos e muitos exames depois foi detectado uma doença óssea. Elisa foi aconselhada a levar a filha para Londres, onde havia um médico especializado nessa doença. Ela contactou um dos irmãos, que emigrara para lá, cinco anos antes e contou o que acontecia com a filha. Recebeu como resposta, as passagens de avião e algumas libras, bem como a afirmação de que as esperava no aeroporto.
Partiram as duas e um mês depois Elisa regressou sozinha. Não podia estar tanto tempo longe do ateliê, e o irmão ficava com Maria, até que ela estivesse curada. Maria sentiu, que não era muito importante, para a mãe.
Um ano depois, Elisa voltou a Londres para buscar a filha. Segundo os médicos, as cirurgias resolveram o problema da malformação óssea das mãos, e dos pés, e com a medicação esperavam que não surgissem novos problemas com o crescimento. Porém Maria nunca poderia vir a ser mãe, porque a sua bacia não aguentaria, as transformações de uma gestação.
Custa a crer, à luz da medicina atual, que um médico dissesse "nunca". Porém, Elisa sempre repetiu isto, ao longo dos anos, tantas e tantas vezes, que a filha foi crescendo, revoltada consigo mesmo, por se achar inferior. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que comentamos esta história. Ela disse-me. "Eu vou ser mãe. Ela vai ver que eu sou capaz" Raras vezes, Maria se referia à mãe, como tal. Quase sempre dizia "ela".
Elisa era muito exigente com a filha. Ela sonhava a filha, como um modelo de perfeição, e definitivamente ela era uma criança normal, uma adolescente igual a tantas outras.
E assim Maria foi crescendo, com uma relação muito difícil, com a mãe. Sentia-se incapaz de ser, como a mãe desejava e isso amargurava-a. Para se "vingar"estava sempre a contrariar a mãe. Se esta lhe dizia para vestir umas calças, ela vestia saia, se lhe dizia para vir direta da escola para casa, ela ia para casa de uma amiga.
Maria era meiga com a sua ama. Também comigo. Até mesmo com a professora. Mas não com a sua mãe. Era como se estivessem sempre medindo forças entre si.
Porém quando a mãe chorava, Maria refugiava-se no seu quarto e chorava também. Era uma estranha relação de amor-ódio, que durou muito, para além da infância e adolescência. Eu diria até que durou toda a vida.
Quando fez dezassete anos, começou a namorar, e aí "caiu o Carmo e a Trindade" como soe dizer-se. A mãe não consentia o namoro. E ameaçou mandá-la estudar para Londres, telefonou ao irmão para sondar a hipótese de ele receber lá a sobrinha. Resultado? Maria ficou grávida e decidiu que ia casar. A mãe repetiu o que sempre disse, sobre uma possível gravidez. E disse mais. Que não ia haver casamento nenhum, que ela ia fazer um aborto, que era uma menina, que tinha que estudar, ir para a universidade etc...etc. ...
A jovem não se convenceu. Disse que se a mãe não autorizasse o casamento, fugia de casa e nunca mais ia saber dela. E mais, ameaçou a mãe de ir à polícia denunciá-la, por querer obrigá-la a fazer um aborto que na altura era considerado crime, e punivel  com prisão.
Casou-se num Sábado à tarde. Era o mês de Maio de mil novecentos e setenta e cinco.


Continua


Um curiosidade.
A foto acima, é a minha no dia do meu casamento religioso em Nampula no ano de 1971. Estava já casada há mais de três anos, pela lei dos homens. Atenção que só usei a foto porque achei que se enquadrava no tema.  Eu não sou a Maria, lembrem-se.

17 comentários:

noname disse...

Nampula - Moçambique. Mais Luanda - Angola - E que mais? eheheheh

Continuo pregada à Maria :-)

lis disse...

Oi Elvira
Não deu pra ler os capítulos anteriores da 'Maria' _ vou tentar noutro dia.
Adorei a foto_ todas de 'casamento' são suas?
Prometo voltar com tempo e ler a reedição )k.
Passando e deixando meu abraço

Pedro Coimbra disse...

Uma revoltada num tempo de amplas liberdades.
Abraço, bfds

Tintinaine disse...

Continuo convencido que já li esta história, mas também continua a não lembrar-me de nada do que aí vem. Vamos em frente que logo descobrirei!!!

✿ chica disse...

Relação complicada entre as duas... vamos indo por aqui.adorei a foto! Bjs chica

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
a Autora tem varias historias do tempo antigo , o que para a maior parte dos seus leitores os leva a grandes recordações-
um bom feriado para todos .
JAFR

Gil António disse...

Bom dia. Geralmente os pais tentam incutir nos filhos tudo aquilo que gostariam de ter sido e não são. Crasso erro mas a verdade é que a grande maioria dos seres humanos age assim. Continuarei a ler
.
Hoje: { Outono. Olho a rua, o jardim, folhas caindo }
.
Deixo cumprimentos e votos de um dia muito feliz
.

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história.


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Edumanes disse...

A mãe queria o melhor para a filha. A qual, ainda, era uma criança. A mãe desconhecia, portanto, quais seriam as preferências da filha quando atingisse a idade adulta. Por isso entre mãe e filha viveram contrariando-se uma à outra.
Tenha um bom feriado 1º de Dezembro, dia da Restauração após 60 anos de domínio espanhol sobre Portugal.

Anete disse...

Linda foto, Elvira!
Estou gostando da história. Andei lendo agora os capítulos que não tinha visto. Os compromissos por aqui têm sido muitos...

Bom Dezembro p vc e família... Bj

Os olhares da Gracinha! disse...

A sua foto é linda!
Também casei em 75 ... em Angola!
Conheço uma história de vida mui semelhante!!!
Obrigada pela visita e que dezembro seja um mês especial em sua vida!!!

António Querido disse...

Ainda falam dos jovens de hoje, já em 74 protegidos pela liberdade ameaçavam os pais!

Bom fim de semana com mais um dia.

Ontem é só Memória disse...

Estou cada vez mais curiosa com a história!
A tua fotografia está linda!

Bjxxx
Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

Silenciosamente ouvindo... disse...


Não tenho seguido as suas histórias,
mas não me esqueci de si.
Desejo muito que se encontre bem.
Bjs.
Irene Alves

Cantinho da Gaiata disse...

Que relação tão complicada, mas pode ser que ainda venham a ser amigas.
Beijinho e bom fim de semana.

Berço do Mundo disse...

Quantas vezes acontece essa luta silenciosa entre mães e filhas... como será que corre a gravidez?
P.S. Adorei a sua foto de casamento
Ruthia d'O Berço do Mundo

Rosemildo Sales Furtado disse...

Espero que a briga entre ambas seja passageira.

Abraços,

Furtado