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23.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXVII


                                                     


Inesperadamente, quase à entrada da ponte Vasco da Gama, Mariana disse:
-Lisboa é maravilhosa!
Miguel quase provocava um acidente ao olhar para ela, ao mesmo tempo que o seu pé carregava no travão.
-Lembraste alguma coisa?
-O quê?
Como o quê? Disseste que Lisboa é maravilhosa! – disse ele nervoso
- Ah! Isso? Não sei. Veio-me à cabeça, essa ideia. Nada mais.
- Pode ser um sinal, disse ele sem convicção. Fica atenta. Se reconheceres alguma rua, algum monumento, por favor diz.
- Fica descansado. Ninguém deseja mais isso do que eu.
Mas não voltou a falar até entrarem em casa.
Miguel vivia, no sexto andar de um edifício antigo, numa das zonas mais bonitas da cidade. À chegada, tiveram que dar uma volta pelo quarteirão, até que Miguel encontrou um lugar vago para estacionar, um pouco distante da casa.
O elevador, era antigo, pequeno, mas os dois lá se acomodaram o melhor que puderam pois as três malas de viagem quase o enchiam por completo.
A casa ocupava todo o espaço do prédio que só tinha um inquilino por andar.
Miguel foi abrindo as janelas e mostrando a casa à jovem.
Um quarto, que fora dos pais, o seu quarto, mais um quarto, que era da avó Ermelinda, quando vinha passar férias com o filho, e que seria o quarto para ela, a cozinha, uma sala, na qual uma escada em caracol, despertou a curiosidade da jovem.
-Dá para a mansarda, onde tenho o atelier. Também tem entrada pelo exterior, que uso para a entrada e saída dos materiais e telas.
E finalmente a casa de banho. Destoa do resto da casa, pois foi reconstruída o ano passado. Havia junto dela, um pequeno quarto sem utilidade, mandei derrubar a parede e assim o espaço quase triplicou.
- A casa está impecável. Tanto tempo, fechada, não devia ter pó?
-Na semana passada, telefonei à porteira e pedi-lha que arranjasse alguém de confiança, para vir limpar e arejar a casa.
- Pensas em tudo!
-Estou habituado a viver sozinho. Bom, agora que já conheces a casa, fica à vontade, eu vou lá abaixo à porteira. Preciso da sua ajuda, para resolver algumas coisas, e saber se já chegaram as telas e se ela as recebeu.
Saiu. Mariana foi até à janela e ficou maravilhada. A paisagem era muito bonita. Via-se uma grande parte de Lisboa, o Tejo, a ponte 25 de Abril, e o
Cristo-Rei. “O ideal para um pintor” murmurou preparando-se para arrumar as roupas no armário

27.9.17

A RODA DO DESTINO - PARTE III





Pousou a chávena no momento em que sentiu a porta exterior da receção ser fechada por Raquel.
Voltou a olhar pela janela. Lá fora, a azáfama era grande. A fila de pessoas na paragem em frente, era enorme, pese os autocarros que iam chegando e partindo. Depois de um dia de trabalho, toda a gente se apressava para regressar a casa. Ficou pensando, se aquelas pessoas que na fila em frente,  se atropelavam para ganhar um lugar no autocarro, teriam tanta pressa de regressarem, se em casa não houvesse ninguém à sua espera.
Ele, nunca tinha pressa de regressar ao seu apartamento, que cada dia lhe parecia mais frio e solitário. Aquela hora, decerto que o irmão já estaria em casa, junto de Ana Clara e dos seus dois filhos.
Durante os cinco anos que se passaram desde que o irmão se casara, Salvador tentara manter-se o mais à margem possível da casa do irmão. Visitara o casal quando do nascimento dos sobrinhos, e pelas festas em que não se pôde escusar, como no aniversário das crianças ou no Natal. Apesar de tudo, adorava os sobrinhos e desejava a felicidade do casal.  Claro que de vez em quando visitava o irmão. Ou era visitado por ele. Nos seus respetivos escritórios.
Talvez, porque no seu coração tivesse apagado qualquer ressentimento contra o irmão, e o seu desejo de os ver felizes fosse sincero, ele se encontrava naquele dilema, que o desesperava.
O que o preocupava daquela maneira, acontecera quando na véspera se dirigia do tribunal para o seu escritório. O trânsito era intenso e o carro rodava lentamente, e não raras vezes parava, quando a sua atenção se  fixou num casal que seguia pelo passeio, junto à estrada. Mesmo de costas, aquela figura, era inconfundível para o homem que a trouxera no coração, durante tanto tempo. Tratava-se da sua cunhada Ana Clara, mas o homem que lhe enlaçava os ombros, não era o seu irmão.
O carro rodou mais um pouco e parou no sinal vermelho. Salvador apertou o volante com tanta força que os nós dos dedos, ficaram brancos, quando o casal se dirigiu ao número setenta e sete. Ele encostou a mão à porta, e ela abriu-se, provando que estava só encostada. 
Afastando-se para que ela entrasse primeiro, o homem disse qualquer coisa.  Ana Clara riu-se e voltou-se para a estrada, como se estivesse observando o que ele lhe dissera, e depois entrou seguida do homem. Salvador ficou ali parado, o rosto pálido, as mãos a tremer, sem reparar que o sinal abrira e que os condutores atrás de si buzinavam desesperados.
Só “acordou” quando o condutor atrás de si saiu do carro e lhe bateu no vidro. Arrancou no momento exato em que o sinal voltou a ficar vermelho.
Nem soube como chegou ao escritório, sem sofrer nenhum acidente. Fechou-se no seu gabinete e ligou à cunhada. Atendeu ao quinto toque. Com a mesma simpatia de sempre, desculpou-se. A empregada fora fazer umas compras e ela estava a dar o lanche aos filhos. Ele inventou uma desculpa e desligou. Afundou-se no cadeirão e escondeu o rosto entre as mãos.
Sentia-se  esmagado, como se um trator lhe tivesse passado por cima. Como era possível tanta hipocrisia?


BOLAS! PARECE QUE O SALVADOR TEM RAZÃO PARA ESTAR DESCONCENTRADO. 

E A LISTA DE NOMES SUGERIDOS AUMENTOU

O filho Pródigo
A lei e a vida
O tribuno
A força da Lei
Disputa de irmãos
Amor e direito
Duelo entre amigos
A balança da lei
Defesa transcendente
Prova  da inocência
A verdade vencerá
Sucesso, meu irmão
Aliança
Tenacidade e coragem
Audácia
Deus escreve direito por linhas tortas
Julgamento decisivo
A carreira não é tudo.
A sentença
Nos caminhos da lei
Encruzilhada
Entre o amor e o rigor
O processo.