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11.12.18

ESTRELAS DE NATAL






David acordou.
O pai tinha aberto a janela e estava a olhar para as estrelas.
Suspirava.
David aproximou-se. Ouviu novo suspiro.
— O que tens, pai? — perguntou.
O pai pôs-lhe as mãos nos ombros. Continuava a fixar as estrelas, muito nítidas na noite fria e escura. David olhou também para elas. E desejou tê-las.
— Há outros mundos, David… Outros mundos e outras pessoas, sabias?
David não prestou muita atenção às palavras do pai. Estava fascinado com o cintilar das estrelas. E durante muitas noites, mesmo sem o pai à janela a envolvê-lo com os braços, David levantava-se para contemplar as estrelas.
♦♦♦♦
Chegou Dezembro.
Quase toda a gente falava do Natal, e na escola de David também. Óscar contava que a mãe lhe comprara uma estrela muito grande para pôr no cimo do pinheiro.
— É muito grande, muito brilhante e com muitas pontas. E eu vou ter de subir a alguma coisa e colocá-la no sítio mais alto — explicava.
— É como as verdadeiras? — perguntou-lhe David.
— Quase.
David chegou a casa, ansioso.
— Mãe, por favor, compra-me uma estrela como a do Óscar. Muito grande e brilhante para pôr no cimo do pinheiro de Natal. Vendem-nas no mercado. Eu vi-as. Há muitas. Parecem verdadeiras.
A mãe olhou para David. Enxaguou as mãos e secou-as. Pô-las sobre os ombros do filho.
— David, nós não vamos ter nenhum pinheiro de Natal.
— Porquê?
— Porque não festejamos o Natal.
— E o que é o Natal, mãe?
Ela largou os ombros de David e sentou-se. Muito séria, embora os seus olhos ainda mostrassem centelhas de entusiasmos longínquos…
— É uma festa para celebrar…
— Celebrar o quê, mãe?
A mãe calou-se. Não encontrava as palavras certas. Depois disse, olhando para o outro lado:
— Para celebrar tudo o que possa nascer, apesar de todos os sofrimentos. Para celebrar a esperança de que, depois do frio, nasça o calor, depois do escuro a luminosidade, depois do amargo o doce, depois do forte o frágil… E de tudo o que assim pode renascer, o que há de mais frágil, doce, cálido e luminoso do mundo é um menino. Festeja-se o nascimento de um menino.
— De um menino como eu?
— Quase como tu.
E acrescentou imediatamente:
— Mas eu gosto mais de ti.
— Então compra-me uma estrela, por favor! Gosto de estrelas…
— Eu também, David, mas prefiro as autênticas. E a verdade é que nós não festejamos o Natal como o faz o teu amigo Óscar.
♦♦♦♦
Depois das férias, Óscar contou a David muitas coisas sobre a festa.
Mostrou-lhe as prendas.
Já tinham tirado o pinheiro.
Mas a estrela ficara guardada numa caixa dentro do armário.
— Ah! Se eu pudesse ter uma estrela assim… — suspirou David. E lembrou-se de quando o pai lhe explicou que havia outros mundos e outras pessoas.
A casa de Óscar pareceu-lhe ser outro mundo. E talvez os familiares de Óscar fossem as pessoas de quem o pai falara.
Lembrou-se disso, novamente, quando o professor os pôs a todos de pé e lhes falou de um país onde havia bons e maus. Esse país era o seu. Óscar era dos bons. David dos maus. Por isso tinha de abandonar a escola, não devia voltar lá mais.
David não percebeu. Óscar também não.
Um dia, ao regressar a casa, David encontrou a mãe a coser.
Tinha cortado três estrelas de feltro amarelo. Três estrelas de seis pontas.
E pregava uma na lapela do casaco do pai, dando uns pontos pequenos e desajeitados.
— Essas é que são as estrelas que vamos ter em nossa casa, mãe? Uma estrela triste de pano amarelo para cada um de nós?
Não foi a mãe, mas, sim, o pai que respondeu:
— Uma estrela de pano para cada judeu desta cidade. Nós somos judeus, meu filho. Já os teus avós o eram. E é por essa estrela de seis pontas que nos reconhecerão.
— Não são tão brilhantes como as do pinheiro de Natal… — murmurou David, desiludido.
— Nem as do pinheiro tão brilhantes como as verdadeiras. As estrelas feitas pelos homens podem dividir-nos. As do céu, nunca.
David pensou que o pai, às vezes, dizia coisas estranhas raras, estranhas.
A mãe suspirou fundo ao enfiar de novo a agulha.
♦♦♦♦
Com a humilde estrela na lapela, David e o pai encaminharam-se para a casa de Óscar, como sempre, às segundas-feiras. As pessoas reparavam na estrela. David viu que alguns transeuntes também a traziam. Ninguém se olhava nos olhos.
Chegaram à porta da casa do amigo. Bateram. A mãe de Óscar abriu e beijou David em ambas as faces. Convidou o pai a entrar para a sala de jantar. Óscar tinha uma estrela no pulôver. E o pai outra no colete. O avô do Óscar uma no casaco.
— Entrem, entrem…
O pai de David estava admirado, hesitante…
O avô de Óscar esclareceu:
— Não, não somos judeus. Somos cristãos e, acima de tudo, humanos. Mas a ordem do governo, segundo a qual os judeus têm de mostrar a sua condição para não usufruírem dos mesmos direitos que nós, parece-nos injusta. Na nossa Alemanha não sei, mas nesta casa todos devemos sentir-nos iguais. Até o David, e mesmo você, que não é praticante de nenhuma destas religiões… Vamos para o meu escritório, por favor, enquanto as crianças ficam a brincar.
David recordou: “Há outros mundos…”.
E pensou: “E outras maneiras de ser…”.
♦♦♦♦
David e os pais chegaram à Suíça precisamente pelo Natal.
O avô de Óscar tinha organizado a saída do país.
Era de noite e podiam ver-se muitas estrelas cintilando lá no alto, entre os pinheiros que rodeavam a aldeia. No meio da praça havia um pinheiro muito grande e adornado com uma enorme e resplandecente estrela de latão no alto. David pensou que nunca mais teria de usar, como se fosse uma infâmia, uma estrela de feltro.
♦♦♦♦
Muitos anos depois, recordou aquela noite e as estrelas da sua infância, quando morava já em Belém, no Estado de Israel, e o neto mais novo lhe apresentou a sua amiguinha Fátima.
Fátima era pequena, de grandes olhos negros cheios de alegres centelhas resplandecentes como estrelas. Fátima não era hebreia, mas palestiniana. Jacob e Fátima saíram para o jardim. Olharam para o céu. Escurecia, e parecia que a noite sorria em quarto crescente. Fátima disse:
— Olha a lua. Quando fica assim, é o emblema da minha religião.
Jacob respondeu:
— E o da minha é uma estrela.
O avô David soltou um suspiro vindo do mais fundo da sua memória.
Pensou se algum dia iria ver os seus vizinhos marcados com um quarto crescente na lapela. “Se depender de mim, nunca”, pensou. E pôs fim à sua nostalgia, pegando na mão do neto e na da sua amiguinha.
— Acima da lua e das estrelas brilha para todos nós o mesmo sol. É ele que faz com que tudo seja possível, que após a noite venha o dia e tudo renasça neste mundo. — E dirigiram-se para casa. — Sabem que pode haver outros mundos? E outras maneiras de ser? E que…?
A calma do entardecer silenciava as suas explicações.
Era Dezembro e fazia frio em Belém.
Aproximava-se o Natal.
Teresa Duran
Ana Garralón
El gran libro de la Navidad
Madrid, Anaya, 2003
(Tradução e adaptação)



Este é um dos contos de Natal que mais me tocou. Espero que vos agrade igualmente.

14.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE L

                                            Foto do google


A casa do Pinheiro Manso, tinha agora luz eléctrica, pois o anterior morador fizera uma puxada dum poste eléctrico que passava ali ao lado,  e isso deixava o Manuel e a mulher mais descansados com os filhos, do que se ainda fosse como noutros tempos a candeeiros a petróleo ou a velas. Assim depois do jantar, ele ou a mulher acompanhavam os filhos até à casa a uns cinquenta metros da casa da porteira, e depois de verificarem que estava tudo bem, dirigiam-se à casinha da porteira, onde pernoitavam. O barracão junto ao rio, ficou vazio, se exceptuarmos as ferramentas agrícolas que o Manuel necessitava para o quintal. Pois ele continuava a cavar, semear e colher o quintal. Por medo de que sabendo que ali já não havia moradores, os gatunos fossem de noite  assaltar as capoeiras, mudaram-se os animais para umas capoeiras junto à nova casa, que anteriormente tinham sido usadas pelo Bernardino, o caseiro, que residia mesmo em frente da casa da porteira, e até o porquinho veio para um chiqueiro ao lado do chiqueiro do caseiro. A filha mais velha continuava a trabalhar no laboratório, mas vivia agora com os pais, pois o futuro sogro tinha voltado a casar e os filhos não aceitaram uma tão rápida substituição da mãe. Assim o rapaz, mandara à namorada algum dinheiro para que alugasse uma casa na zona, e tratasse dos papéis para o casamento, que ele chegaria em finais de Julho, teria dois meses de licença e queria passa-los já casado, e na sua casa pois não queria ver o pai. Por isso, a rapariga vinha agora todos os dias para casa, a fim de dar andamento às coisas para o casamento que se avizinhava.
No dia 24 de Fevereiro, foi o Festival da Canção, que Simone de Oliveira haveria de vencer com a Desfolhada. Naquele tempo o Festival era muito publicitado, era mesmo considerado o evento do ano e toda a gente queria vê-lo. Os filhos do Manuel foram com o pai, assistir ao festival na TV do "Galitos" na Telha.
 Porém a letra da canção, do saudoso Ary dos Santos, desagradou a muita gente. Era uma letra mais que arrojada para a época. De tal modo que no dia seguinte, não se comentavam fatos nem adereços, nem outros intervenientes,  mas tão-somente a letra da canção vencedora. Na época não era fácil aceitar que alguém cantasse “Quem faz um filho, fá-lo por gosto”

26.2.16

MANUEL DA LENHA PARTE XVI


                                                                            foto minha

 Ele e a mulher não se importavam de ir viver para lá se o gerente autorizasse. E ele autorizou.
No fim de Março, eles mudaram-se para essa ”casa”. Era uma barraca de madeira, com uma cozinha, e dois quartos. Não tinha electricidade, não tinha água, mas tinha o telhado forrado, o que a tornava mais confortável no Inverno. E no Verão, a sombra do pinheiro, refrescava a casa.
Manuel era um homem muito habilidoso. Com uma fita métrica, um martelo, escopro e plaina, farinha e água, (para fazer cola), pregos e madeira, ele era capaz de fazer maravilhas. Mas onde ir arranjar a madeira?
Todos os anos, quando os navios chegavam, os botes eram trazidos para terra, para que fossem reparados. Eram trocadas as tábuas que estavam em mau estado, substituídas por novas, e calafetados, para que não apresentassem perigo quando voltassem ao mar. Á porta da oficina, amontoavam-se as tábuas velhas, e pequenos pedaços de novas. Manuel conseguiu autorização para utilizar essas tábuas, e com elas fez um armário para a cozinha, uma arca para guardar as roupas, o berço para o filho e uma mesa. No ferro velho comprou uma cama e duas cadeiras de ferro, que lixou e pintou de novo, comprou um fogão a petróleo, e o resultado foi a casita “mobilada" e pronta a habitar, para onde se 
mudaram.
O tempo segue a sua marcha inexorável, Umas vezes mais rápido outras vezes mais lento, do que o nosso próprio desejo. O Manuel estava desejando, que o filho nascesse, embora ele só fosse esperado para o final de Setembro. 
Porém no início de Setembro, uma daquelas tempestades de Verão, que fazem duvidar se estamos realmente nessa estação. Na noite do dia dois para três, a trovoada rugia estrondosa como se estivesse por cima das suas cabeças. Ele abraçava a mulher que tremia de medo, e tentava esconder dela o seu próprio pavor, quando um enorme relâmpago fez da noite, dia, e o trovão os ensurdeceu, ao mesmo tempo que lhes parecera que o chão tremia. A mulher apavorada sentia a criança “aos saltos” e ambos sentiram o cheiro a queimado. Pouco depois a trovoada afastou-se mas eles não mais dormiram. A mulher começou com contracções antes de tempo. Talvez por causa do medo, do susto que a mãe sofrera, o certo é que a criança se aprestava para vir ao mundo. Quando pelas sete da manhã, Manuel tentou abrir a porta de casa, não o conseguiu, pois metade do pinheiro, fora cortado de alto a baixo pelo raio que o ferira, e encontrava-se caído frente à porta. Tremendo, a pensar no perigo que correram, ele chamou a mulher. Ela no entanto não se levantou e apenas lhe pediu que fosse chamar a parteira.
Sem poder abrir a porta, aprestava-se a partir os vidros da janela para sair, quando o vigia, os outros moradores da seca chegaram para remover o pinheiro, e saber se eles estavam bem.
Nessa mesma manhã às onze horas e vinte da manhã, Manuel sofreu a sua primeira decepção depois do casamento.O menino com que ele sonhara, desde o início do ano, não existia. O filho era afinal uma rapariga.

                                                             A  1 º filha do Manel da lenha