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16.1.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTE VI


Todos os dias, quando saía do escritório, Ricardo parava num bar para uma bebida, antes de se dirigir a casa, onde a mulher já o esperaria para jantar. Naquele dia não foi diferente.
- Olá. Apraz-me verificar que não mudaste de hábitos.
Ricardo levantou os olhos e mirou o recém-chegado. Tratava-se de um homem alto, moreno de cabelos e olhos escuros, quase tão negros, quanto a roupa inteiramente preta  que vestia. Pousou o capacete em cima do balcão e sentou-se a seu lado.
- Ora viva! Então estás de volta. Cansaste-te de correr mundo?
- Lembras-te do meu tio, António?
- Aquele que tinha uma empresa de camionagem?
- Sim. Morreu e nomeou-me seu herdeiro.
- Ena. Então agora és um homem rico.
-Sabes que o dinheiro nunca me importou. A minha mota e a minha liberdade sim.
- Mas vais assumir a empresa, ou não?
- Vou. Tenho trinta e oito anos, percorri metade do mundo, e talvez quem sabe, tome gosto pelos negócios. Estou contente por te encontrar. Sabes, uma semana depois daquela história, arrependi-me e fui à clinica para anular a doação, mas já não fui a tempo. a inseminação já tinha ocorrido. Desde então, não ando bem comigo mesmo. Desagrada-me saber que há um filho meu, por aí em qualquer parte, sem saber da minha existência, e quiçá precisando de mim.
- Quanto a isso não tens que te preocupar. Não resultou.
-Tens a certeza?
Absoluta. A minha amiga, ficou muito triste, mas mais tarde, apaixonou-se casou e foi viver para a Suíça com o marido.
-Nem sabes o peso que me tiras de cima. Sendo assim, tudo bem. Tenho que ir. Acabei de chegar, vou agora tomar conta da casa. Dentro de dias tenho uma reunião com os advogados da empresa, e ainda queria conhecer a mesma e os funcionários antes dessa reunião.
Pôs-se de pé. Levou a mão ao bolso e pôs sobre o balcão o dinheiro da bebida. Depois poisou a sua mão sobre o ombro de Ricardo, num gesto de despedida.
- Até outro dia, a gente vê-se por aí.
- Adeus, Paulo. Boa sorte.
Pegou no capacete, deu a volta e afastou-se a passo largo deixando Ricardo apreensivo. Nunca pensou que Paulo, levasse dez anos a pensar naquela doação. Tinha acabado por fazer a vontade da irmã, convencendo o amigo, que sendo um homem inteligente e honesto, estava dentro daquilo que a irmã desejava. Além disso, era amigo da aventura e da liberdade, estava apostado em correr o mundo na sua mota, o que decerto o levaria a nunca mais pensar no caso. Nunca lhe passou pela cabeça, que ele se tivesse arrependido, ou que tivesse levado aqueles dez anos a pensar num possível filho. Reconhecia agora que não conhecia tão bem o amigo quanto pensava. Bebeu de um trago o resto da bebida e pediu outra, pensando que não tinha de se preocupar. Paulo não sabia que ele tinha uma irmã, e além disso, com a história que ele inventou, Paulo esqueceria o assunto com certeza. Acabou a bebida, pagou e saiu. Eram horas de jantar e a esposa não gostava que chegasse atrasado